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Mundial 2026. O legado invisível de Johan Cruyff: a história do relvado no Estádio Akron

Para o futebol que Cruyff idealizava, as condições de jogo tinham de ser perfeitas. Um tapete sintético já não bastava, então exigiu a transição para um relvado verdadeiro no Estádio Akron.

Mariana Carrilho
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O legado mais surpreendente de Johan Cruyff neste Mundial não está na tática de nenhuma seleção, mas sim debaixo das chuteiras dos jogadores em Guadalajara. O Estádio Akron prepara-se para acolher a Espanha e o Uruguai, com uma história em que a teimosia de Cruyff transformou um tapete artificial num dos relvados naturais mais modernos do planeta, como relembra o The Athletic.

O futebolista holandês, que morreu de cancro aos 68 anos, foi eleito o melhor jogador do mundo por três vezes, guiou a Holanda à final do Mundial em 1974 e, como treinador, passou oito anos no comando do Barcelona.

No entanto, foi na reta final da sua vida que Cruyff escreveu um dos capítulos mais invulgares — e menos conhecidos — do seu percurso. Em 2012, quatro anos antes de morrer, aceitou o desafio de ser consultor do CD Guadalajara, o histórico Chivas, conhecido pela tradição de jogar apenas com atletas mexicanos. A sua primeira grande medida foi colocar John van ‘t Schip no comando técnico, mas a segunda mudaria a infraestrutura do clube para sempre, ao acabar com o relvado sintético colocado em 2010 e exigir a instalação da melhor relva natural da América do Norte.

Cruyff defendia que os jovens podiam usar sintéticos para treinar em dias de tempestade, mas que o futebol profissional e de elite exigia relva real. Sendo assim, contratou o melhor especialista do país, um homem habituado a tratar dos campos de golfe mais luxuosos do México, e ordenou a substituição imediata do piso. A obsessão com a altura e o estado da relva, mais tarde herdada por Pep Guardiola, transformou o recinto num pioneiro tecnológico.

A aventura de Cruyff por Guadalajara acabou por durar apenas nove meses, encurtada pelos choques constantes com o dono do clube, Jorge Vergara, que tinha o hábito de interferir no balneário. Cruyff tentou ignorar a situação e o Chivas conseguiu chegar ao oitavo lugar da Liga MX e aos play-offs — mas a rutura tornou-se inevitável quando Cruyff exigiu o despedimento de funcionários que considerava prejudiciais ao projeto. “O Johan foi despedido porque interferiu demasiado no clube”, disse Van ‘t Schip ao The Athletic, destacando que também foi despedido pouco tempo depois.

O antigo treinador do Chivas assume o orgulho de ver as imagens do Mundial no Estádio Akron, sabendo que aquela passadeira verde que o mundo inteiro aplaude nasceu da ideia visionária de Johan Cruyff. Ao transformar o Estádio Akron de Guadalajara, na altura, no relvado mais moderno do México, Cruyff foi um fator crucial para a seleção deste local como um dos grandes palcos do Mundial.