A partir de Lisboa, a startup Amble quer apostar em veículos elétricos ligeiros para viagens de curta distância. O Amble One, o primeiro veículo anunciado pela empresa, é um buggy elétrico com linhas pensadas pelo cofundador Julian Hoenig, designer industrial que passou pela Audi, Lamborghini e Apple.
O primeiro modelo da Amble, um carro aberto, recorre a materiais como alumínio, couro, algodão e cortiça para prometer uma durabilidade superior à dos modelos tradicionais de buggy. Na Europa, pertence à categoria de quadriciclos L7E e poderá percorrer cerca de 100 quilómetros com uma única carga e atingir uma velocidade de até 65 km/h.
José António Uva, um dos fundadores da Amble, é o empresário à frente da herdade alentejana São Lourenço do Barrocal, em Monsaraz. Um destino de turismo rural com 780 hectares e muito espaço por onde andar. Foi a partir da própria experiência enquanto hoteleiro, numa propriedade em que “o carro é muito preciso” para transportar os hóspedes e as malas dentro do monte, que veio a ideia da Amble, explica ao Observador.
https://observador.pt/especiais/sao-lourenco-do-barrocal-o-monte-alentejano-de-cinco-estrelas/
No Barrocal, são usados buggys para assegurar as deslocações. “Um buggy é uma coisa que foi desenhada há 70 anos, de plástico, pouco confortável”, relata o empresário. “Comecei por comprar um modelo de uma marca, depois outra porque achei a primeira má, depois partiam-se… Ao fim de poucos anos, tinha todas as marcas do mercado e estava a dar em doido.” Foi ficando cada vez mais frustrado com “os problemas de manutenção” e as peças partidas de um veículo que não foi pensado para andar em gravilha e terrenos mais duros, nota.
“Nessa altura, conheci o Julian [Hoenig]”, designer que trabalhou para a Apple e que se tinha mudado para Lisboa. Os filhos de José António Uva e do austríaco tornaram-se amigos. E num encontro, o hoteleiro comentou com o designer que, no seu novo projeto, o Na Praia, na Comporta, “não queria carros”, ambicionando uma solução de mobilidade “alinhada com a arquitetura” e que fosse uma “experiência”. O buggy não era uma solução à altura, respondeu o designer. “É um segmento que parou no tempo.”
No dia seguinte, já o antigo designer da Audi tinha feito um desenho, que se tornaria na matriz do Amble One. A equipa de cofundadores ficou completa com Michael Tropper, designer e fundador do estúdio criativo londrino forpeople e Adrien Roose, empreendedor e cofundador da marca de bicicletas elétricas Cowboy. “Os carros foram pensados para a velocidade, a distância e a eficiência. Mas muitas viagens são curtas, e para essas viagens o carro é simplesmente demasiado grande, complexo e caro. A Amble é a nossa resposta: um novo tipo de carro elétrico desenhado para a mobilidade de curta distância, onde a viagem se torna parte da experiência”, explica numa nota Adrien Roose, que ocupa o cargo de CEO.
José António Uva, chairman da Amble, explica que a “hotelaria é o ponto de partida” da empresa. “Estamos a resolver um problema meu e de outros hoteleiros”, considera. “Depois conforme as pessoas vejam [o veículo] nos hotéis”, a ambição passa por expandir a outros contextos. A empresa também “vai abrir a venda a consumidores”, com reservas para 2028.
A lista de reservas está completa e foi feita “essencialmente por hotéis”. José António Uva detalha que têm “cerca de 500 carros encomendados”, com entrega prevista para 2027. Cada buggy custará 20 mil euros, explica, e haverá duas versões: uma homologada, com matrícula e passível de circular na via pública, e outra para circulação em propriedades fechadas.
Os buggys vão estar no Barrocal e também no Na Praia, o projeto hoteleiro que será inaugurado em 2027 na Comporta, mas também há reservas para outros pontos do mundo. Foram recebidas encomendas para unidades hoteleiras “na ilha de Mustique, nas Caraíbas, para projetos no sul de França, para um projeto de que gostamos muito, nos EUA que é o Amangiri, no deserto do Utah, nos EUA”, exemplifica.
José António Uva explica que, para 2027, a empresa estima produzir as 500 unidades que já foram reservadas. “Depois, em 2028, conseguimos produzir bastante mais”, falando numa linha de montagem que será “relativamente simples”.
A intenção da startup passa por produzir este buggy em Portugal. “A nossa ambição foi desde o início produzir em Portugal”, explica o empresário, acrescentando que a Amble está na fase de “compras”, a “tentar que o fornecimento das peças seja essencialmente feito pela Europa”. “Queremos ter uma cadeia de abastecimento para que seja essencialmente um produto mais europeu.”
Ainda com o Amble One a dar os primeiros passos no mercado, a empresa já pensa no sucessor. Enquanto o One é um “carro mais ligado à natureza, o Amble Two vai ser um carro mais próximo da cidade”, explica José António Uva. Mesmo reconhecendo que é um mercado “hipercompetitivo”, a Amble quer “construir a marca, a identidade com o carro aberto” e depois pensar noutras abordagens. Por agora, ainda é “prematuro” pensar numa data para o próximo modelo, diz Uva.