Não era em Albuquerque, no Novo México, nem numa autocaravana — e também não havia um professor de química tornado traficante, como na série Breaking Bad. O cenário desta história é real e o laboratório de drogas sintéticas situava-se no Parque de Ciência e Tecnologia em Alferrarede, Abrantes. De resto, havia tudo aquilo a que a ficção habituou o público: máscaras faciais, respiradores, balanças de precisão, reagentes químicos em bidões industriais e centenas de quilos de drogas psicoativas sintéticas (3-CMC e 3-MMC), além de toneladas de canábis desenhada para ser especialmente potente.
A Operação “Erva Daninha”, conduzida pela Polícia Judiciária (PJ) no âmbito de um inquérito do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), o departamento de elite do Ministério Público especializado na criminalidade mais complexa, desmantelou uma alegada organização criminosa internacional que utilizava o “manto de legalidade” de empresas do setor farmacêutico e licenças do Infarmed para canábis medicinal para encobrir o tráfico de estupefacientes. Ao todo, a acusação do DCIAP, a que o Observador teve acesso, visa 13 arguidos e 11 sociedades comerciais que respondem pela alegada prática de crimes como branqueamento de capitais, falsificação de documento, tráfico de estupefacientes e associação criminosa para o mesmo fim.
https://observador.pt/2025/05/21/cinco-detidos-e-mais-de-sete-toneladas-de-canabis-apreendidas-pela-pj-na-operacao-erva-daninha/
O alegado esquema operava ancorado na falsificação de certificados para “ludibriar” o Infarmed e em importações camufladas vindas da Índia e da Malásia, mas não sem deixar rasto. Geert Caers, o “Big Boss” da rede, transacionou na plataforma Binance, entre 2019 e 2024, mais de 30,4 milhões de dólares (cerca de 26,8 milhões de euros ao câmbio desta sexta-feira) em criptoativos que terão sido adquiridos com fundos provenientes do tráfico de estupefacientes. Mais: a acusação documenta mais de 11 milhões de euros em transferências através de 17 sociedades de fachada sediadas na Malásia.
Outros dos principais mentores encontram-se atualmente fugidos e em parte incerta. De acordo com o despacho de acusação, Benny Falk ausentou-se de Portugal em setembro de 2023, logo após as primeiras apreensões, tendo regressado ao seu país, a Dinamarca. Em fuga, encontram-se ainda um canadiano, Keith Fernandes, e Tiago Sá Pedroso, o gerente da Polyfarchemi (a face legal do laboratório de Abrantes). Relativamente a Benny Falk e Keith Fernandes, o DCIAP já promoveu a emissão de mandados de detenção europeus e internacionais.
O laboratório clandestino da Polyfarchemi num polo tecnológico para a “fachada de normalidade industrial”
Máscaras FFP2, respiradores de gás, luvas de nitrilo e toucas descartáveis. Ao lado, balanças de precisão, misturadores industriais e bombas de vácuo. À primeira vista, o cenário no interior da Polyfarchemi — instalada no Tagusvalley (Parque de Ciência e Tecnologia em Alferrarede, Abrantes) — parecia o de um laboratório legítimo.
Mas, visto melhor, os próprios equipamentos denunciavam outras utilizações. Todos tinham “adaptações e modificações”, uma “característica intrínseca e comum a unidades de produção clandestinas, onde a maquinaria é customizada para fins ilícitos”, aponta o DCIAP. Havia ainda sistemas de embalamento a vácuo, “prontos para a preparação final e distribuição de estupefacientes”. As instalações da Polyfarchemi funcionavam como laboratório, mas para a importação e tratamento de substâncias como 3-CMC e 3-MMC (drogas sintéticas).
Constituída em agosto de 2022 por Benny Falk — apontado como um dos líderes da alegada organização criminosa —, a Polyfarchemi começou por chamar-se “Abecedário Glorioso”. No papel, declarava como atividade a produção, importação e exportação de plásticos, artigos de borracha e produtos químicos. E, para dar credibilidade ao negócio, Falk criou o site polyfar.biz (hoje indisponível), onde copiou “integralmente” os conteúdos de uma empresa norte-americana real, a Polyfar – Monomeres Polymers, no qual apresentava a informação falsa de ter três décadas de experiência no setor.
Na verdade, a Polyfarchemi nunca teve qualquer autorização do Infarmed para comercializar substâncias controladas. O verdadeiro objetivo, de acordo com o DCIAP, foi sempre o de transformar o laboratório clandestino no polo tecnológico de Abrantes num centro de produção ilícita de metanfetaminas e catinonas sintéticas. O plano incluía ainda a “irrigação” de canábis (desviada do circuito legal) para produzir THC-P, um canabinoide de extrema potência e muito valorizado no mercado negro — modificação que pode valer mais de 30 mil euros por cada quilo.
Para “ludibriar” as autoridades e passar ao lado de eventuais fiscalizações, a organização tentava “criar uma fachada de normalidade industrial”, lê-se no despacho de acusação. Durante as buscas da Operação “Erva Daninha”, realizadas em maio de 2025, a PJ apreendeu cerca de 500 quilos de 3-CMC e caixas de anfetaminas. Os cristais de droga estavam embalados em sacos com o logótipo da farmacêutica multinacional Novartis e escondidos dentro de caixas da empresa portuguesa Cabopol — empresa com a qual a Polyfarchemi nunca teve qualquer relação comercial. Os rótulos, falsificados, indicavam que dentro das caixas estavam compostos químicos lícitos, como “Ortho AB-monomer”.
“Pouco controlo” do Infarmed, as importações de bidões de 3-CMC da Índia e as “pit stops” para o mercado negro
Além da química, o armazém funcionava como um entreposto estratégico para grandes quantidades de canábis — o core business da fachada legal do alegado esquema. A mecânica parecia simples: a rede adquiria a planta a produtores nacionais licenciados, utilizando o pretexto de falsas exportações medicinais para países em África (em que esta substância nem sequer está legalizada). Mas o seu destino real, como veremos, não será este.
A canábis é legal em Portugal?
Em Portugal, a canábis recreativa é proibida (existindo os crimes tráfico e o desvio do fim medicinal), mas descriminalizada desde 2001. Já o uso medicinal é legal e regulamentado.
Com a Lei n.º 33/2018, Portugal legalizou a canábis para fins medicinais, permitindo o seu cultivo e exportação sob licença do Infarmed.
De acordo com o DCIAP, este quadro legal teve como objetivo tornar acessível o tratamento com tais produtos, garantindo:
- “Que as preparações disponibilizadas cumpram todos os requisitos de qualidade e segurança, salvaguardando a saúde pública”;
- “A prevenção do uso indevido de substâncias controladas, em conformidade com a Convenção das Nações Unidas contra o Tráfico Ilícito de Estupefacientes e de Substâncias Psicotrópicas”.
A legalização da canábis para fins medicinais em Portugal “potenciou uma elevada apetência”, por parte de várias empresas nacionais e estrangeiras, “para o investimento em unidades de produção de canábis para fins medicinais”. Sendo igualmente certo que a concessão de tais autorizações pelo Infarmed “passava por um processo administrativo pouco controlado”, lê-se no despacho de acusação.
Até maio de 2025, não existia uma verificação sistemática ou por contacto direto com as autoridades estrangeiras para validar a autenticidade dos certificados de importação.
Segundo o DCIAP, Portugal registou a exportação de 1.206 quilos de canábis para a Guiné-Bissau entre 2023 e 2025, e de mais 5.533 quilos para a República Democrática do Congo entre 2024 e 2025. Contudo, nenhum destes países declarou qualquer importação oficial desse produto. Já em 2025, Portugal exportou 357 quilos da mesma substância para o Quénia, apesar de o país africano ter uma estimativa de importação aprovada de apenas 300 gramas.
O próprio diretor da unidade de licenciamento do Infarmed, Vasco Bettencourt, e a diretora da unidade de inspeção, Fernanda Ralha, admitiram-no mais tarde em depoimento: a instituição não estava dotada dos meios humanos — técnicos e inspetores — necessários para responder à avalanche de pedidos gerada pela nova legislação.
E “tais insuficiências”, lê-se no despacho de acusação, “eram do conhecimento dos arguidos”. Aproveitando-se da nova lei, os arguidos criavam ou adquiriam sociedades próprias, bem como utilizavam as licenças de empresas já existentes de outros parceiros que terão aderido ao plano. O DCIAP descreve mesmo que Ricardo Malheiro (da Weez Garden) e Teresa Faísca (da Canna Forest) colocaram voluntariamente as suas sociedades e respetivas licenças “ao serviço da organização criminosa” para viabilizar exportações ilícitas sob uma aparência de legalidade.
Para lá dos fornecedores e parceiros nacionais, a rede importava também a planta de produtores do Canadá e da Tailândia. E é também do estrangeiro que chegam as drogas sintéticas, especificamente as substâncias 3-CMC e 3-MMC, o principal produto importado pela rede para ser processado no laboratório de Abrantes.
Acondicionadas em bidões industriais, estas substâncias eram expedidas de Telangana, na Índia, via aérea pelo Aeroporto de Lisboa. Nas alfândegas, o produto era declarado fraudulentamente como cristais destinados ao setor industrial, plásticos ou substâncias químicas lícitas (como 2-MMC, CLV03 ou “Ortho AB-monomer”), acompanhado de certificados de análise falsos.
Esta era uma parte. Mas, depois, para onde seguia toda esta droga? Destino oficial declarado ao Infarmed: Guiné-Bissau, Quénia e República Democrática do Congo. Contudo, grandes quantidades acabavam desviadas em “pit stops“, como eram denominadas internamente pelos membros da alegada rede, sobretudo nos Países Baixos.

Nestes locais, como em Amsterdão ou Breda, os membros da rede aproveitavam o facto de as carrinhas de transporte não estarem seladas para subtrair parte do carregamento. E, para não levantarem suspeitas nas alfândegas devido à diferença de peso, substituíam a droga retirada por outro material com peso equivalente.
O verdadeiro destino final: o mercado europeu nos Países Baixos, Espanha e França, muito mais lucrativo.
O passado no Suriname: a cúpula do “Big Boss” que enganou governos antes de chegar ao Infarmed
Segundo a acusação, a cúpula da organização em Portugal era composta por uma dupla, em que um deles era também o chefe internacional tratado por “BB” [Big Boss] ou “Boss”:
- Geert Caers, cidadão neerlandês, especialista na indústria da canábis, controlava toda a faturação, lotes e pagamentos. Entre 2019 e 2024, terá transacionado na Binance mais de 30,4 milhões de dólares (cerca de 26,8 milhões de euros ao câmbio desta sexta-feira) para ocultar os proventos do tráfico;
- Benny Falk, dinamarquês, era o responsável pela implementação prática da estrutura no terreno. Competia-lhe a compra e gestão de sociedades farmacêuticas reais e o recrutamento de colaboradores-chave.
Antes de se estabelecerem em Portugal, Benny Falk e outros dois principais mentores do núcleo dinamarquês da rede, Michael Lumby e Jesper Nielson, estiveram envolvidos num esquema fraudulento de larga escala no setor da energia no mais pequeno país da América do Sul, o Suriname — uma antiga colónia holandesa que é conhecida por ser a terra de origem das famílias de muitos futebolistas neerlandeses conhecidos, como Virgil van Dijk, Ruud Gulit, Frank Rijkaard, Edgar Davids, Clarence Seedorf, Patrick Kluivert, entre outros.
Benny Falk, Michael Lumby e Jesper Nielson fundaram a Hybrid Power System Group, empresa pela qual conseguiram assinar um contrato de 1,2 mil milhões de dólares (cerca de mil milhões de euros ao câmbio desta sexta-feira) com o Governo do Suriname para desenvolver um projeto de hidrogénio verde — que investigações jornalísticas posteriores concluíram que não tinham intenção de construir, visando apenas obter lucros com garantias financeiras soberanas assinadas pelo Governo local, mesmo sem que o negócio alguma vez se concretizasse.
Embora se apresentassem como empresários de sucesso, a acusação do DCIAP sublinha que nenhum dos arguidos possuía qualquer formação superior ou experiência na área da energia. No seu site, alegavam falsamente que a HPSG trabalhava em parceria com nove grandes empresas dinamarquesas — afirmação que foi desmentida pelas próprias empresas nas reportagens jornalísticas acima referidas.
Geert Caers chegou a ser detido em outubro de 2024 nos Países Baixos para cumprir uma pena por tráfico de estupefacientes. Permaneceu preso até 12 de setembro de 2025, data em que foi extraditado para Portugal e colocado em prisão preventiva no âmbito deste processo. Caers, assim como Michael Lumby, continua em prisão preventiva à ordem deste processo.
De acordo com a acusação, a partir do momento em que Caers foi detido, a gestão corrente e operacional da organização criminosa foi assumida por outro membro, Reinier de Jong, braço-direito de Geert Caers.
Como o Infarmed não detetou um certificado com data de “30 de fevereiro de 2024”
Em Portugal, os quatro sócios terão contado com uma rede dedicada de colaboradores (incluindo portugueses). Segundo o DCIAP, estes cúmplices tratavam de tudo no terreno: desde a montagem e instalação dos laboratórios à gestão logística dos transportes e das exportações, prestando-se, sempre que necessário, a figurar como “testas de ferro” em sociedades comerciais do grupo.
Alguns dos operacionais mais valiosos trabalhavam a partir do estrangeiro — precisamente nos países cujos nomes eram usados para alegadamente enganar as autoridades:
- Keith Fernandes — cidadão canadiano e intermediário estratégico da rede. Funcionava como o elo de ligação essencial para adquirir certificados de importação falsificados na Guiné-Bissau e no Congo, acumulando ainda a função de angariar fornecedores de canábis no Canadá. Encontra-se atualmente fugido à justiça;
- Rob Sniper (identificado como Robby Rorijs) — especialista radicado na República Democrática do Congo encarregue de fabricar fisicamente as licenças fictícias e as declarações aduaneiras falsas;
- Armindo Apolinário Correia — operacional posicionado na Guiné-Bissau. A sua missão consistia em obter ilegalmente carimbos e assinaturas forjadas, falsificadas em nome da CECOME (Central de Compras de Medicamentos Essenciais de Bissau), replicando também o esquema no Quénia.
Todos eles com um preço: na Guiné-Bissau, a rede pagava cerca de 10 mil euros por cada certificado falsificado. Já no Congo, o custo da fraude era calculado ao quilo: cobrava-se 10 euros por cada quilograma de droga movimentado, valor ao qual acrescia uma taxa fixa por cada licença emitida.
A troca de documentos relativos às licenças era feita através de grupos dedicados no WhatsApp. No grupo “CONGO LICENCES”, os arguidos Geert e Keith asseguraram explicitamente que “nenhum produto físico entra ou sai” daquele país, segundo a acusação. A investigação identificou ainda um outro grupo, o “GB LICENCES”, focado nas licenças da Guiné-Bissau. Já a 6 de setembro de 2023, Geert tinha enviado uma mensagem a Benny onde era direto a lembrar as suas próprias competências: “Eu consigo fazer certificados, sabes disso, certo?”.
Mas houve erros. Num dos casos, na tentativa de simular comunicações governamentais oficiais de agências africanas, a rede cometia o erro de utilizar endereços de e-mail com domínios públicos e gratuitos — como o @gmail.com. A estas somavam-se lapsos linguísticos e erros de tradução, como colocar a expressão “Nom et adresse de l’importateur” (Nome e morada do importador) precisamente no campo destinado ao exportador, além da omissão de letras em termos técnicos em inglês, escrevendo “Weigh” em vez de Weight (peso, em inglês).
Por vezes, as falhas estenderam-se aos próprios papéis. O Laboratório de Polícia Científica (LPC) analisou os documentos e descobriu que as marcas oficiais e os carimbos apresentavam sombreados perfeitamente quadrados ao seu redor — um indício de que teriam sido recortados e colados digitalmente.
Mais: um certificado de importação, supostamente emitido pela Arfame — Autoridade Reguladora de Farmácia da Guiné-Bissau para a entrada de canábis naquele país, com a data de validade de 30 de fevereiro de 2024. Nem o facto de fevereiro só ter 29 dias (ou 28) fez soar os alarmes do Infarmed, que deixou passar este erro grosseiro.
Ex-inspetor do Infarmed terá ajudado a rede e vai continuar a ser investigado
Mas talvez o apoio mais importante viesse de alguém muito próximo do Infarmed — pelo menos, durante os 25 anos em que lá trabalhou. Luís Soares, inspetor do Infarmed entre 1996 e 2021, foi recrutado pela organização. Soares, que enquanto autoridade tinha fiscalizado pessoalmente as instalações de várias unidades de cultivo que o grupo viria a infiltrar — como a Weez Garden, Canna Forest e Cannaprisma —, passou a atuar como consultor técnico da rede após abandonar o organismo público e se dedicar à consultadoria em boas práticas para a indústria farmacêutica e de canábis.
Segundo o DCIAP, Benny Falk e Michael Lumby contrataram Luís Soares com vista a um objetivo claro: “auxiliar na reconversão da Sofex, visando a aprovação do Infarmed para o processamento de canábis”.
E este não era um projeto acessório. Com mais de 30 anos de reputação no fabrico de medicamentos em Massamá, a aquisição da Sofex (pelo líder Benny Falk, através da Linnaeuspharma, em julho de 2021) visava evitar suspeitas das autoridades e projetar a imagem de um grupo empresarial farmacêutico legítimo e bem-sucedido. Havia grandes planos para a Sofex: além da manutenção da produção de medicamentos no piso térreo, o primeiro andar da sede seria convertido num laboratório de transformação de canábis.
Além do suporte técnico, o ex-inspetor do Infarmed funcionava como um facilitador de contactos, indicando aos líderes quais as sociedades produtoras ou vendedoras licenciadas em Portugal que poderiam servir os propósitos da organização.
A sua consultadoria servia também como um sistema de alerta sobre riscos legais. De acordo com a acusação, Soares chegou a avisar arguidos como Ricardo Malheiro (da Weez Garden) de que determinados acordos técnicos relativos a exportações para a Guiné-Bissau não cumpriam os requisitos legais exigidos, ajudando a rede a navegar pelas fragilidades do sistema de fiscalização que ele próprio ajudara a construir décadas antes.
“CryptoPapa”, “directorBTC” e contas ucranianas: a rota que ligava as criptomoedas à Malásia
Outra parte relevante da acusação prende-se com os alegados mecanismos de branqueamento de capitais dos lucros provenientes do tráfico de estupefacientes. O DCIAP entende ter provas indiciárias de que a rede liderada por Geert Caers e Benny Falk constituiu ou adquiriu sociedades comerciais de fachada. A acusação descreve um circuito de branqueamento de capitais que operava em três etapas:
- A colocação do dinheiro no sistema financeiro;
- A sua dissimulação (layering);
- E a integração final na economia real.
Vamos por partes. No centro da operação de dissimulação estava Cammy, o braço operacional de Geert Caers na Malásia. Cammy era responsável por executar os pagamentos da rede, gerindo 17 sociedades de fachada em território malaio que serviam para injetar capitais ilícitos em Portugal através de supostos empréstimos e contratos tripartidos de compra de canábis.
Por outras palavras, o circuito funcionava de forma circular:
- Geert enviava fundos sob a forma de criptoativos para Cammy;
- Cammy que convertia-os em moeda fiduciária e canalizava-os de volta para as contas das empresas da rede em Portugal, simulando transações comerciais legítimas. Estima-se que, por esta via, tenham circulado pelo menos 11 milhões de euros.
Depois, para movimentar fundos através da plataforma Wise, Geert Caers utilizava uma rede de contas cujos titulares eram cidadãos ucranianos. Os endereços de e-mail associados a estas contas evitavam nomes próprios, recorrendo a denominações ligadas ao mercado de ativos virtuais como “cryptoPapa”, “directorBTC” e “papaExchange”. Desta forma, Geert terá transacionado entre 2019 e 2024 na plataforma Binance um total de mais de 30,4 milhões de dólares (cerca de 26,8 milhões de euros ao câmbio desta sexta-feira).
De acordo com o DCIAP, para branquearem os fundos, “faziam movimentação de grandes quantias de dinheiro entre empresas e contas bancárias, muitas vezes utilizando escritórios de advogados e contabilistas para dissimular a origem dos fundos” e “investimentos em bens imobiliários e criptoativos para ocultar os proventos do tráfico”, lê-se no despacho de acusação.
Quanto dinheiro foi movimentado?
Além dos cerca de 30,4 milhões de dólares em criptoativos e dos 11 milhões de euros transferidos para Portugal através de um circuito de 17 empresas de fachada na Malásia, geridas por “Cammy” sob as ordens de Geert e Benny, as movimentações detetadas foram ainda:
- 1,9 milhões de euros: total recebido por Geert Caers da sociedade canadiana Nucl Technologies Inc, através de 16 transferências em 2024;
- 322.879 euros: créditos recebidos por Geert Caers na sua conta Wise, oriundos das contas ucranianas;
- 12,9 milhões de euros: total de entradas registadas na conta bancária da Linnaeuspharma, (uma das sociedades utilizadas pela alegada rede);
- 6,8 milhões de euros: o valor total em faturas de juros de empréstimos fictícios, solicitadas pelo arguido Reinier de Jong para justificar a circulação dos capitais;
- 6,2 milhões de euros: as transferências que entraram na conta da sociedade Planíssimo, Lda. entre 2022 e 2025, apesar de o volume de negócios da empresa ser nulo.
- 1.000.000 euros: valor estimado pelo DCIAP de faturas emitidas por fornecedores indianos à Polyfarchemi (relativas às drogas sintéticas 3-CMC e 3-MMC).
Aliás, alguns dos pagamentos recebidos pelas empresas da alegada rede provinham diretamente de sociedades de advogados. De acordo com o MP, o recurso a estes intermediários servia “para conferir aparência de legitimidade às operações, uma vez que os pagamentos surgiram como provenientes de uma entidade regulada, sujeita a deveres deontológicos e, em princípio, a obrigações de identificação dos clientes no âmbito do regime de prevenção do branqueamento de capitais” — escondendo, desta forma, a verdadeira origem dos fundos: as sociedades de fachada sediadas na Malásia.
Uma das certidões extraídas deste processo principal para investigação autónoma visa precisamente a alegada responsabilidade criminal de vários advogados.
Para já, a única advogada acusada no âmbito deste processo é Dina Santos, especialista na indústria da canábis medicinal que alegava possuir contactos privilegiados junto do Infarmed. Segundo a acusação do DCIAP, Dina Santos terá aderido formalmente à organização em novembro de 2021, a pedido de Benny Falk e Michael Lumby, seu companheiro à data dos factos.
Numa conversa de grupo em fevereiro de 2024, Benny, Dina e Michael planeavam a expansão do negócio em África. E terá sido Dina a referir que, em breve, vários países africanos iriam permitir a canábis medicinal — era preciso, por isso, entrar na Nigéria. É-lhe imputada a alegada prática de crimes de tráfico de estupefacientes agravado, associação criminosa e falsificação de documento.
Quanto a outros advogados, de acordo com o despacho, foi extraída uma certidão para prosseguir a investigação contra as seguintes pessoas individuais e coletivas:
- Advogado Pedro Hassam, identificado por manter uma proximidade estreita com Kian Kandi, um dos alegados líderes da rede, participando em encontros de “cariz discreto” em locais como o Hotel Tivoli;
- Escritório Silveira, Santos, Hassam, Falcão & Associados, sociedade de advogados cuja morada era utilizada como sede de várias empresas de fachada do grupo, como a Círculo Mítico e a Unstoppable Prism;
- Escritório António Marante, Matilde Ferreira e associados, apontado como o principal “canal de transmissão” para as transferências financeiras mais elevadas. Terão chegado a movimentar cerca de 1 milhão de euros.
Toneladas de droga, espingardas e as compras na Gucci e Louis Vuitton. DCIAP quer confiscar o “arsenal” e os lucros
No âmbito da acusação à alegada rede internacional de narcotráfico liderada por Benny Falk e Geert Caers, as autoridades realizaram várias apreensões. E o que encontraram vai desde toneladas de droga a armamento e a bens de luxo. O DCIAP requer agora que estes bens, considerados instrumentos ou proveitos do crime, sejam declarados perdidos a favor do Estado — e que as substâncias estupefacientes sejam posteriormente destruídas.
Primeiro, claro, a droga. Foram apreendidas cerca de 1,78 toneladas de canábis no Sardoal (nas instalações de várias sociedades) e mais de 3 toneladas de biomassa e flor de canábis em armazéns de logística. No laboratório de Abrantes, a PJ confiscou cerca de 500 kg de 3-CMC e 149 kg de 3-MMC (drogas sintéticas), além de 30 mil comprimidos de Lorazepam e resina de canábis.
As autoridades encontraram 269.720,00 euros em dinheiro vivo numa residência na Maia, sendo que apenas seis mil euros estavam escondidos num cofre. Foram ainda apreendidos perto de 100 mil euros escondidos em sacos de plástico sob a cama de uma arguida, sócia gerente da Canna Forest, uma das entidades fornecedoras nacionais de canábis. No total, foram apreendidos cerca de 363,7 mil euros em numerário.
Foi ainda apreendido um “arsenal técnico” em Abrantes, composto por reatores industriais, misturadores “customizados”, bombas de vácuo e balanças de precisão. Além disso, foram confiscadas diversas armas de fogo (pistolas Star, revólveres Mauser, espingardas Mossberg e Browning) e centenas de munições de vários calibres a indivíduos referenciados na investigação pela ligação à alegada rede.
Entre os bens arrestados estão veículos de gama alta, como um Porsche e uma carrinha Mercedes Sprinter usada no transporte da droga. Além de compras na Louis Vuitton em Lisboa (num total de 2.875 euros), artigos da marca Gucci (1.950 euros), também relógios de luxo foram alvo de relatórios específicos de avaliação pericial pelas autoridades.
O DCIAP exige a perda de todo o numerário apreendido (incluindo os valores encontrados na Maia e sob a cama no Fundão) e dos saldos bancários arrestados. Requer-se a perda de todos os telemóveis e computadores, descritos como “instrumentos fundamentais” para o contacto com fornecedores, bem como dos veículos automóveis utilizados na atividade criminosa.
Aliás, numa busca em junho de 2025 foi detetado um ficheiro Excel “Benni&Geert”, cujos registos mostram uma faturação de “valores avultados” com pagamentos parcelados a azul — incluindo um de 114 mil euros — e acertos de contas em numerário.