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(A) :: Uma bandeira a mais

Uma bandeira a mais

Uma sociedade livre precisa do contrário. E mede-se pelo número de bandeiras que o Estado consegue manter afastadas.

Margarida Bentes Penedo
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Terça-feira, qualquer dia do mês de Junho, qualquer assembleia do país. Ao activismo LGBT foi oferecido o mês de Junho para se expandir. Devem ou não devem as bandeiras LGBT ser hasteadas nos edifícios públicos? É claro que não devem, pela simples razão de que os edifícios públicos representam o Estado, e o Estado representa todos os portugueses, não representa sub-divisões de portugueses deixando os outros de fora. A discussão sobre a bandeira começa e acaba aqui. Apesar disso, ela chegou e permanece no debate mediático. A relevância da polémica está no que ela nos confirma sobre a transformação da ideia de Estado.

Seria preciso suspender a descrença – e a lógica – para acreditarmos nas intenções expressas dos activistas, que justificam a existência deles na defesa dos interesses daqueles grupos. A própria sigla é uma homenagem da esquerda ao absurdo. Homossexuais estabelecem relações afectivas e sexuais com pessoas do mesmo sexo. Transexuais rejeitam o seu próprio corpo, e exigem da medicina uma intervenção específica. São realidades profundamente distintas forçadas a conviver numa identidade única. Nenhum cidadão elegeu os activistas nem delegou neles a missão de o representar. O activismo LGBT não descreve, não representa, e também não defende qualquer um destes grupos sociais. Destinou-lhes uma identidade comum fictícia. A política identitária vive da criação – não da abolição – das fronteiras entre grupos. Ninguém fragmenta a sociedade de maneira tão eficaz: as “mulheres”, as pessoas “racializadas”, as “minorias”. A retórica LGBT retira aos membros da sigla a liberdade de se ligarem segundo os critérios que entendem, e enfia-lhes na garganta uma pertença política.

O mecanismo assenta no sucesso desta politização. Caitlyn Jenner respondeu aos activistas: “Eu mudei de sexo, não mudei de ideias políticas”. A fúria dos activistas estava no facto de alguém, sobretudo uma pessoa tão conhecida e prestigiada, recusar associar uma identidade pessoal a uma identidade política. Uma espécie de sabotagem. Qualquer grupo político precisa de reconhecimento institucional: daí a importância dos símbolos, dos documentos, das campanhas, e a subida aos edifícios públicos. O Estado deixa de representar a comunidade política inteira e passa a representar identidades políticas particulares. Um erro e um abuso de poder. Uma sociedade saudável organiza-se por si própria: através da família, dos amigos, da igreja, de clubes de interesses comuns livremente constituídos pelos cidadãos. Fragmentada, desfeita, a sociedade perde os laços voluntários. Transforma-se num corpo submisso de desamparados cuja coesão depende cada vez mais do próprio Estado.

Quando se define um grupo, há forçosamente quem fique dentro dele e quem fique de fora. Por mais que os activistas LGBT se apresentem como intérpretes da inclusão, exigem políticas de exclusão. O activismo transforma diferenças individuais em categorias políticas; recusa-se a integrar pessoas na sociedade e, em vez disso, molda com elas as suas bases de poder. O activismo fecha os cidadãos em grupos para lhes distribuir reconhecimento político. Acima de tudo, o activismo opera a favor de uma visão de Estado que precisa de produzir grupos para os poder administrar. Uma sociedade livre precisa do contrário. E mede-se pelo número de bandeiras que o Estado consegue manter afastadas.