(c) 2023 am|dev

(A) :: A Ordem do mundo

A Ordem do mundo

Procura-se, uma vez mais, disciplinar os fervores ideológicos, tentar perceber o outro e ver aquilo a que é necessário renunciar para ganhar o que se quer. E, sobretudo, para ganhar a paz

Jaime Nogueira Pinto
text

A ordem do Mundo é determinada pelas ideias sobre essa ordem dominantes nas grandes potências. O primeiro mundo político de que há notícia histórica, além da narrativa bíblica, foi o das cidades gregas do Peloponeso e respectivas guerras, sobretudo entre Atenas e Esparta.

Roma é uma República aristocrática, que a expansão imperial obriga a evoluir para uma mono-arquia autocrática e centralizada. O Império é um espaço de paz, e por isso os povos acabam por o tolerar.

Na Europa pós-Império Romano, dominam os reinos bárbaros, mas persiste uma nostalgia do poder imperial que foi assumindo formas renovadas – como o Império Carolíngio e o Sacro-Império Romano Germânico.

Mas nesta mesma Europa há um poder espiritual muito forte, que quer ser também poder político – o papa de Roma, chefe dos cristãos, senhor dos dois gládios, espiritual e temporal. Daí as lutas entre o Papado e o Império, que acabam por se enfraquecer mutuamente e por dar lugar à ascensão e consolidação, como forma dominante de comunidade, ao Estado soberano, corporizado pelos reinos que vão surgindo na Europa.

A mudança tecnológica

São os tempos pós-medievais, o nascimento da Idade Moderna: e há também uma inovação essencial para a mudança, uma nova tecnologia militar, a artilharia, decisiva para os acontecimentos que marcaram essse novo tempo, como a queda de Constantinopla em 1453 e o fim da Guerra dos Cem Anos, nesse mesmo ano. As inexpugnáveis muralhas de Constantinopla cairam, graças ao canhão montado por um cristão renegado e a Guerra dos Cem Anos acabou quando os canhões dos irmãos Bureau, em Castillon, chacinaram os cavaleiros ingleses.

A Reforma luterana trouxe um elemento ideológico e dividiu a Europa, em Estados católicos – como a Espanha dos Áustrias e o Portugal da dinastia de Aviz, onde a Inquisição ao serviço do poder real impediu a dissidência. E há Estados protestantes, os nórdicos, como a Dinamarca e Noruega, unidas sob o governo de Cristiano III. Quer ele, quer Gustavo I da Suécia, aproveitam a mudança de religião para confiscar os bens da Igreja. Finalmente há Estados divididos que vão ter guerras civis religiosas – como a França, onde metade da nobreza se converte ao calvinismo.

Este clima leva à Guerra dos Trinta Anos, que é ao mesmo tempo uma guerra entre potências, por interesses de Estado, e uma guerra ideológica, religiosa. E desta guerra resultam os tratados de Vestfália, em 1648, que trazem a secularização da política e da guerra e criam o Jus Publicum Europum.

E o panorama dos poderes europeus no século XVIII é a Pentarquia, formada pela França, Grã-Bretanha, Áustria, Prússia e Rússia. Os Estados passam a agir por razões de Estado, estritamente de Estado, interesses territoriais e económicos desse Estado. E assim decorre o século XVIII, em que também estas grandes potências do tempo intensificam a sua expansão imperial e colonial, para a Ásia e as Américas.

Duas revoluções

E é nas Américas, mais precisamente na América do Norte que, em 1776, há 250 anos, uma população colonial branca rompe, em nome dos seus direitos políticos e fiscais, com a tutela do rei Jorge III de Inglaterra e abre caminho, pela guerra, para a independência.

Os líderes deste movimento, os pais fundadores, leram os Antigos gregos e romanos, mas também outros Antigos da Escola de Salamanca que, como Juan de Mariana, proclamavam a soberania da comunidade e a legitimidade da revolta contra o tirano.

Esta revolução americana foi decisivamente apoiada pela França absolutista de Luís XVI, cuja Marinha foi essencial para a vitória final dos patriotas americanos, nas operações militares, quer em batalhas navais, como a batalha de Chesapeake, quer no bloqueio ao exército do general Cornwallis.

Ironia suprema da sorte, neste esforço de guerra a favor dos republicanos americanos, a monarquia francesa endividou-se e arruinou-se ao ponto de Luís XVI, para evitar a bancarrota, ter de convocar os Estados Gerais. Estes acabariam por levar à revolução e à queda da Monarquia, ao Terror e ao Império napoleónico como solução, repetindo, em poucos anos, o longo ciclo político romano.

O século XIX vai ver na Europa um compromisso entre as novas ideias sobre a soberania popular e comunitária e a ascensão da burguesia, face à tradição monárquica e aristocrática: a síntese deste equilíbrio negociado vai ser a monarquia constitucional que, mantendo o estatuto e os privilégios das oligarquias tradicionais, lhes vai retirar o poder de decisão política.

Esta dessacralização do poder e a radicalização trazida por novas ideias, como as do Manifesto Comunista de 1848, que ressuscitou os conceitos de “guerra social” sob a forma de “luta de classes”, vão explodir no século XX, graças à Grande Guerra na Europa de 1914-1918 e à revolução bolchevique de Outubro de 1917 na Rússia.

As novas ordens do século XX

E a Europa e o mundo vão voltar, entre 1918 e 1991, às guerras ideológicas – comunismo, fascismo, liberalismo, com liberais e comunistas unidos, entre 1939 e 1945, contra o nacional-socialismo alemão, o fascismo italiano e o nacional-imperialismo japonês. De 1948 a 1991, deu-se a Guerra Fria, sob o signo da mudança tecnológica nuclear que tornou a guerra improvável e foi uma aliança anticomunista – formada por Estados de diferentes regimes políticos contra a União Soviética – que a venceu.

E depois das cruzadas dos NeoCons americanos para impor a democracia liberal no mundo, que falharam como tinha falhado a tentativa soviética de impor o comunismo, estamos outra vez num tempo de transição geopolítica, em que se esboça, num realismo algo brutal pela ausência de camuflagem, uma “ordem das grandes potências”. Será mesmo assim?

De qualquer modo, os dois pólos da grande política e das relações políticas entre os Estados continuam a ser a ideologia e a razão de Estado, as determinantes da guerra e da paz.

Regras para o presente

Neste momento procura-se, uma vez mais, disciplinar os fervores ideológicos à mais objectiva razão das razões de Estado, numa negociação na Suíça em que, de parte a parte, tem de haver concessões, análise racional dos interesses em causa, a tentativa de perceber o outro e de, também a partir dele, julgar aquilo a que é necessário renunciar para ganhar o que se quer; e ganhar, sobretudo, a paz.

Isto significa, para uns, renunciar ao roll-back e ao regime change, e criar formas de contenção permanentes e eficazes; para outros, trocar a segurança que vem do medo e da manipulação de instrumentos de agitação e subversão pela aceitação da normalidade na interdependência da região.

Os interlocutores americanos e iranianos e os moderadores paquistaneses têm pela frente uma tarefa difícil, para acomodar medos, percepções, interesses, realidades e propósitos. E têm de descobrir, contando com os possíveis perturbadores, o equilíbrio final. Não vai ser fácil, mas a alternativa é a guerra – que acabaria por se estender e por desordenar o mundo outra vez e, quem sabe, de vez.