“O pior cego é aquele que não quer ver”
(Provérbio popular)
Foi por estes dias muito difundida na comunicação social a notícia de um relatório/estudo da WWF Portugal que defende, com aparente autoridade científica, que as Zonas Especiais de Conservação (ZEC) da Rede Natura 2000 ardem menos do que o resto do território nacional (uma taxa de área ardida de 2,9% dentro destas zonas protegidas, contra 6,1% nas áreas não classificadas).
Acontece que esta afirmação é falsa.
Estranhei, por ser algo tão contrário à lógica, e fui ver como é que se suportava tal coisa…
As contas são simples: de acordo com o próprio relatório, arderam 133.159 hectares dentro das ZEC e 449.000 hectares fora delas. Dividindo os 449.000 hectares ardidos pelos 7,33 milhões de hectares fora das ZEC, a taxa é de 6,11%, até aqui tudo bem.
Todavia, se fizermos o mesmo às ZEC, dividindo a área ardida (133.159 ha) pela sua área terrestre (1.562.202 ha), a taxa salta para 8,52%.
É precisamente ao contrário: as áreas ZEC ardem proporcionalmente mais que o restante território!
O erro grosseiro da WWF é facilmente descoberto: Portugal até tem mesmo 4,54 milhões de hectares classificados como ZEC sob a Diretiva Habitats, mas quase 3 milhões desses hectares são, na verdade, áreas marinhas no Oceano Atlântico. Ao diluir os incêndios florestais pela imensidão da água do mar, a WWF conseguiu trocar uma taxa de 8,52%, mais elevada, para uns mágicos 2,9%…
A questão é: como é que uma organização com a dimensão da WWF não percebeu este erro primário? Ou percebeu mas as conclusões não batiam certo com o que queriam anunciar?
Eu percebo bem que a realidade não facilite a propaganda da agenda ambientalista e o seu programa de diabolização sistemática do eucalipto, mitificação de bosques autóctones como barreiras imunes ao fogo, uma visão de conservação baseada na “renaturalização” e na quantidade abstrata de hectares protegidos, ignorando a qualidade… Validar que as ZEC afinal ardem mais do que o território comum deitaria por terra o dogma do “deixar a natureza seguir o seu curso” enquanto solução mágica contra os grandes incêndios.
Mas, e a comunicação social, como deixou passar isto? Não sabem a área do país? Ou a Lusa e depois as redações limitam-se a fazer copy-paste acéfalo dos comunicado de imprensa, funcionando como uma correia de transmissão de propaganda sem o mínimo filtro crítico ou validação factual? É assim que vão inverter a perda de confiança do público na informação dita confirmada?
E como irá envelhecer esta notícia?
Ficará arquivada como verdade absoluta ou iremos ver as habituais verificações de factos, polígrafos e plataformas de fact-checking a expor esta distorção com o mesmo afinco com que escrutinam outros temas?
Em termos gerais, e no fenómeno dos incêndios em particular, o rigor não é uma questão para descurar. Tomar decisões de ordenamento do território e alocação de fundos públicos com base em dados ficcionados é o caminho mais rápido para perpetuar a tragédia recorrente.
A própria WWF deveria ser a primeira a reconhecer o perigo de minar a discussão pública com estatísticas adulteradas. Deixar-se guiar por ideais românticos em detrimento da verdade factual destrói a confiança nas ONGA’s, transformando o debate sobre a floresta num mero combate de narrativas políticas estéreis.
O resultado, em si, não é, de resto, nenhuma surpresa, estando em linha com a literatura científica anterior. Ainda o ano passado foi publicado um estudo internacional em revista científica e revisto por pares e em que participou o Prof. Paulo Fernandes a demonstrar precisamente que os espaços protegidos ardem mais mas curiosamente não teve a disseminação massiva que tem esta fake-news…
É, aliás, perfeitamente compreensível porque é que as ZEC ardem proporcionalmente mais: dadas as restrições, o desaparecimento de atividades humanas tradicionais, ou a ausência de uso económico, gera-se uma progressão contínua da vegetação e acumulação de biomassa. Sem gestão ativa, estas áreas protegidas tornam-se autênticos barris de pólvora em cenários de meteorologia extrema.
Não obstante, não faltam estudos que demonstram a importância ecológica e histórica do próprio fogo nos ecossistemas mediterrânicos. Compreender o fogo, aceitá-lo como elemento dinâmico e estudar modelos de sucesso nacionais e internacionais que lidam com ele, extraindo benefícios ambientais, parece-me muito mais útil que martelar números de forma ridícula para tentar provar teorias de gabinete que acabam por descredibilizar a natureza como uma alternativa possível para gestão do nosso problema com o padrão de incêndios destruidores.