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Do olé e da ola ao glu-glu

Será que a resposta para as adversidades da América Latina – cronicamente a patinar entre o populismo, a cleptocracia e o narcotráfico - está numa cidade perdida nos Andes?

Paulo Nogueira
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Confesso que, geopoliticamente, não sou carne nem peixe. Não que seja vegano, credo! Só por cima do meu cadáver: ou melhor, dos mastodônticos nacos de bacalhau ou picanha empilhados no meu prato. É que, tendo nascido em São Paulo, filho de descendentes de portugueses, vivi em Portugal a maior parte da minha vida, até há uns anitos ter regressado à base. Esse hibridismo reflete-se no facto de que os meus livros (14 até agora, e mais 2 no forninho) são escritos no português europeu (pelo menos, imagino…) e  publicados originalmente por editoras lusas.

Foram os franceses a inaugurar a expressão “América Latina”, quando em 1863 o imperador Napoleão III espreitou o México com mais olhos que barriga. E com a desculpa esfarrapada de que o Francês e o Espanhol eram línguas latinas, impingiu aos Mexicanos um príncipe… austríaco (a lógica da batata!), Maximiliano. Mas o monarca fake deu para o torto, e acabou fuzilado pelas tropas republicanas do presidente Benito Juárez, o primeiro estadista indígena das Américas.

“América Latina” é uma barafunda semântica: o que há em comum entre um gaúcho dos pampas, um surfista de Ipanema,  um geek da Cidade do México, um chef de cuisine de Lima (a culinária peruana tem uma galáxia de estrelas no Michelin, com alguns dos melhores restaurantes do mundo) e um haitiano praticante de vodu? Nicles. O menu é variado. Como notou o talentoso autor chileno Alejandro Zambra, ao observar que o seu – como Portugal – é um país de poetas: “Ser um poeta chileno é como ser um chef peruano ou um futebolista brasileiro ou uma top model venezuelana”.

Mas há ranços que os latino-americanos partilham (sobretudo os progressistas), como o fetiche mórbido por catástrofes tal como o massacre dos índios e a escravidão.  No período colonial só houve opressão mefistofélica e não se fala mais nisso.  Por isso, a cultura local tem que ser choramingas. E deve exorcizar o capitalismo, pois o comunismo é muito mais fixe (conquanto só no século XX tenha causado a morte de 100 milhões de terráqueos). Toda a responsabilidade das vicissitudes regionais  foi, é e será eternamente do colonialismo (europeu) ou do neocolonialismo (EUA), embora os latino-americanos sejam independentes há mais de dois séculos.

E convém cultuar santos do pau carunchoso (Perón, Guevara, Fidel) com estátuas equestres, carinhas larocas em T-shirts e hagiografias embevecidas. Como o melodramático “As Veias Abertas da América Latina’, de 1971, do uruguaio Eduardo Galeano, clássico do maniqueísmo panfletário, que o próprio autor renegou em 2014, admitindo que hoje nem ele leria aquela fantochada. O que não impediu Hugo Chávez de mimosear um exemplar a Barak Obama (felizmente, uma edição em castelhano, de que Obama não percebe patavina).

O outro lado da moeda é o complexo de inferioridade latino-americano, sedimentado no rótulo pejorativo “cucaracha” (barata), ou no conceito do autor brasuca Nelson Rodrigues: “complexo de vira-latas” (cão rafeiro).

O próprio Simón Bolivar, que liderou Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Venezuela à independência, suspirou: “A melhor coisa a fazer na América Latina é ir-se embora”. Apesar de toda a exuberância caliente, é sugestivo que as duas obras literárias latino-americanas mais icónicas sejam “100 Anos de Solidão” (do Nobel colombiano Garcia Márquez) e “O Labirinto da Solidão” (do Nobel mexicano Octávio Paz). Antes só do que mal acompanhado? Nem por isso. É mais a versão do provérbio corrigida por Fernando Pessoa, para o qual era melhor “antes só do que, até, bem acompanhado”.

É instrutiva uma espreitadela no antes e depois do colonialismo em dois países emblemáticos: o Peru e o México. O México canta olé no futebol por causa das touradas espanholas, e nos estádios os adeptos criaram a ola, simulando uma onda humana nas bancadas. Já o Peru chama-se assim por causa de uma embrulhada verbal escanifobética, que até inclui a Turquia (Turkey, “peru” em inglês) – apesar de a ave epónima ser natural do México, e dizer-se “pavo” em Espanhol. Adiante.

As principais civilizações pré-colombianas no México e no Peru foram os Astecas (além dos Maias) e os Incas. O Império asteca acabou um ano depois da chegada (1519) do espanhol Hernán Cortés. O inca (cuja área compreendia o Peru, a Bolívia, o Equador, a Colômbia, o Chile e a Argentina), durou três anos pós- Francisco Pizarro e seu punhadinho de 168 soldados. Os Incas eram 12 milhões. E só a capital asteca Tenochtitlán (onde hoje é a Cidade do México) correspondia a uma ciclópica e tentacular Veneza, com teias de canais, ilhas flutuantes e aquedutos, e uma população (200 mil habitantes) superior às das metrópoles europeias da altura (Roma e Londres).

Como meia-dúzia de gatos-pingados espanholitos foram capazes de submeter duas sociedades prósperas com uma perna às costas? Pelas armas de metal, cavalos (originários da América, mas naquela altura do campeonato extintos há muito) e doenças exógenas como a varíola. Mas também outro fator mais decisivo: Astecas e Incas não eram democracias idílicas (muito menos socialismos primitivos, como alegou o historiador e fundador do Partido Comunista Peruano, José Carlos Mariátegui) porém impérios  sanguinários, que, além de oligarcas e esclavagistas, praticavam o sacrifício humano como uma moderna fábrica de salsichas.

A maior autoridade na questão (a australiana Inga Clendinan, de “Aztecs: An Interpretation”) conta que só no dia da inauguração do Templo Mayor (em 1487) as filas das vítimas se estendiam por 3 kms, com 20 mil pessoas (há quem fale em 80 mil). Nos festivais astecas regulares, o número de mortos era de 2 mil por dia, incluindo crianças. O coração dos sacrificados era arrancado do peito (“cardioectomia” hoje, “cuculeb” para os astecas) e lançado pelos degraus das pirâmides abaixo, tipo pontapé de saída. E se confessei que não sou vegano, os astecas eram um bocadinho mais javardos no paladar: eram canibais. Adeus, mito do bom selvagem.

Entre os Incas, tudo justificava a matança: feriados religiosos, colheitas, inundações, eclipses. Se o imperador morria, havia a “capacocha”: eram recrutadas/os as/os adolescentes mais belos,  e enterrados vivos lado a lado, como casais. Não admira que os outros povos nativos subjugados por astecas e incas odiassem seus opressores, e aderissem alegremente aos espanhóis (não que tenham ganhado muito com isso).

O México, independente desde 1821, hoje debate-se com os cartéis do narcotráfico (como o CJNG, Cartel Jalisco Nova Geração), e nada menos que 130 mil pessoas estão “desaparecidas”. Guadalajara, capital do estado de Jalisco, é uma das sedes do Mundial de Futebol, com o modernaço estádio Akron. O CJNG controla a região há anos e expandiu-se pelo México todo e mais 40 países, incluindo Portugal. Arrecada biliões de dólares anualmente com o tráfico de fentanil, metanfetamina e cocaína para os EUA. O chefe do cartel, “El Mencho”, foi morto em fevereiro, com a mãozinha do DEA americano, depois de Trump ralhar com a presidente Claudia Sheinbaum que se ela não tratasse do assunto, ele meteria o bedelho.

Guadalajara tem uma indústria tecnológica que valeu-lhe a alcunha de Silicon Valley mexicana, com a presença da Intel e da Bosch, entre outras high-techs globais. Porém, é o álcool, e não a informática, que põe a cidade no mapa. O município de Tequila, a uma hora da capital, é o santuário de uma indústria que produz até 500 milhões de litros de bebida alcoólica por ano, extraída da planta agave-azul, e gera receitas astronómicas. O que, por sua vez, fomenta a máfia da extorsão contra as empresas. Quem não paga, hasta la vista, baby: a média é de 1.500 assassinatos por ano – 125 todo o santo mês. O CJNG também lucra com sequestros, forçando as vítimas a atuarem como vigias, transportar drogas (“mulas”) ou tornar-se sicários.

O Monumento aos Heróis de Guadalajara, erigido em 1950 para comemorar uma batalha do século XIX contra os EUA, foi rebatizado de “Rotatór de los Desaparecidos” – e está forrado de cartazes com fotos pungentes de vítimas. 22 valas comuns foram encontradas nos arredores do Estádio de Akron. Em 2025, operários da construção civil acharam 260 corpos em Las Agujas, a maioria tetricamente esquartejados. Segundo a Amnistia Internacional, 141 jornalistas foram assassinados no México desde 2000. Apesar do fim de El Mencho, ninguém acredita em milagres – sempre há um sucessor maluquinho para continuar o negócio, contando com a conivência da polícia.

Na noite de 10 de junho, horas antes da abertura do Mundial, a presidente Sheinbaum brindava no Castelo de Chapultepec, num jantar de gala finérrimo para hierarcas da FIFA. Lá fora, mães de desaparecidos protestavam pacificamente sob a chuva, tentando chegar ao Estádio Azteca. O grupo teve que parar, cercado por polícias. Uma das mães ajoelhou-se diante da tropa de choque, implorando para que as deixassem prosseguir. Os polícias não moveram um músculo, e a manifestação acabou.

Em 1990, no Peru, despontou um engenheiro de 51 anos que até então ninguém tinha visto mais gordo: Alberto Fujimori, de origem japonesa. Pois este ilustre desconhecido concorreu à Presidência da República contra o peruano mais célebre e reverenciado: Mário Vargas Llosa, Nobel de literatura em 2010. Para Llosa, ser presidente do Peru era “o emprego mais perigoso do mundo”.

A década de 1980 foi um flagelo para os peruanos, com uma hiperinflação de 7000% ao ano, regimes militares a dar com um pau, os terroristas/traficantes do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso e a Presidência venal de Alan Garcia. Garcia que, aliás, foi eleito presidente em dois mandatos: de 1985 a 1990, e de 2006 a 2011. Em 2019, ele se  matou com um tiro na cabeça, quando havia um mandado de prisão contra si, envolvendo a construtora brasileira Odebrecht, a mesma da Operação Lava-Jato que levou à cadeia Lula da Silva (também reeleito e este ano impavidamente candidato à Presidência do Brasil pela quarta vez, pois errar é humano). Foi entre um mandato e outro de Garcia que Vargas Llosa perdeu – de goleada – a eleição para Fujimori (que teve o apoio da esquerda).

Como a América Latina é o berço do Realismo Fantástico (que reconcilia oxímoros), em 1992 Fujimori deu um autogolpe de Estado, dissolveu o Congresso e mexeu no Judiciário. Apesar disso, e como Alan Garcia, foi reeleito – e também como aquele recebeu um mandado de prisão por…corrupção. Valendo-se da sua ascendência oriental, Fujimori pisgou-se para o Japão, onde vegetou cinco anos. Em 2006, com uma lata inoxidável, anunciou a sua candidatura à Presidência do Peru, para o qual voltou armado aos cucos e foi condenado a 25 anos de xilindró. Cumpriu dez, foi solto, preso de novo, solto de novo, e morreu placidamente em casa aos 84 anos, em 2024.

Quem pensa que os peruanos suspiraram de alívio,  está redondamente enganado. Como um bumerangue de olhos em bico, o nome Fujimori continua a ricochetear na política nacional através da pimpolha de Alberto, Keiko, que já concorreu à Presidência da República três vezes e foi sempre derrotada.

Mas parece (embora na América Latina as aparências tendam a ser alucinações) que da quarta será de vez. Ou não. Na segunda volta das eleições em 7 de Junho, com 99% das urnas apuradas, a direitista Keiko tem uma vantagem de minguados 39 mil votos sobre o esquerdista Roberto Sánchez (No domingo passado, na Colômbia,  Abelardo De La Espriella, populista de direita, foi eleito Presidente derrotando Ivan Cepeda, populista de esquerda, por 1% dos votos.)  O resultado final depende de 1600 atas enviadas à Justiça Eleitoral peruana para revisão. Tudo indica que o desfecho oficial será proclamado só em Julho, mas a coligação que apoia Sánchez já resmungou que nem morta aceitará a vitória da adversária. Democracia? O mais possível, mas só se o nosso candidato for eleito. Caso contrário, é batota e acaba-se a brincadeira.

Ou recomeça-se. Nos últimos dez anos, o Peru teve nada menos que oito Presidentes, com os mandatos abreviados por decisões judiciais. Entretanto, os homicídios aumentaram 13%, assim como as extorsões e o narcotráfico, para que nenhum masoquista peruano sinta inveja do México. A criminalidade custa anualmente à América Latina 5% do seu Produto Interno Bruto (o mesmo que a região gasta em infraestrutura). Um círculo vicioso que anda em círculos e vale todos os nove círculos do inferno de Dante.

Não que seja um patógeno antropológico ou étnico, uma maldição de Montezuma – afinal, a terra dos excelsos Goethe e Beethoven elegeu Hitler. Enquanto isso, Machu Picchu, num pico majestoso nos Andes peruanos, é um dos sítios arqueológicos mais empolgantes do mundo. Pizarro nunca lá pôs os pezinhos, pois os próprios incas já tinham esquecido a cidade – que ficou 500 anos deserta e só foi descoberta em 1911 pelo norte-americano Hiram Bingham (que não, não era um agente da CIA nem de Trump).

Se os latino-americanos parassem de perpetuar o passado como eterno bode expiatório, de deitar todas as culpas para os outros e se olhassem ao espelho, quem sabe finalmente conseguissem aplicar pelo menos um penso rápido nas suas veias abertas de par em par. Depois logo se via.