Boas, quando os jogos precisam de ajustes. Más, quando as partidas têm ritmo e não pedem interrupções. As pausas para hidratação não são novas, mas são uma das marcas deste Mundial: uma a meio da primeira parte e outra a meio da segunda, mesmo em estádios cobertos e isolados do calor que se poderá fazer sentir lá fora e dividem não só os jogos como opiniões.
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, saiu, uma vez mais, em defesa da medida e garantiu que as interrupções de três minutos não geram qualquer receita adicional para a FIFA e que a decisão foi tomada, exclusivamente, para proteger os jogadores. Mais do que isso, deixou a porta aberta para que a prática se mantenha em torneios futuros, com base na experiência deste Mundial.
Não há receitas adicionais para a FIFA, uma vez que todos os acordos comerciais foram assinados com bastante antecedência. Para nós, é uma questão puramente desportiva”, garantiu.
As críticas de jogadores e adeptos centram-se sobretudo na quebra de ritmo, com três minutos de interrupção em cada pausa. Infantino não as ignora, mas contrapõe com dois argumentos.
O primeiro é tático: “Talvez o treinador possa reavaliar certas situações, corrigir certos erros. Os jogadores descansam um pouco e voltam à velocidade máxima. Bem, isso é necessariamente mau? Talvez seja bom”. O segundo é físico: a intensidade que se tem visto neste Mundial, até ao último segundo, pode dever-se, em parte, a essa pequena pausa.
Nem todos concordam. Marcelo Bielsa, selecionador do Uruguai, foi direto: “Jogar quatro partes em vez de duas altera a conceção que tinha sido culturalmente construída para interpretar o futebol. Não acrescenta nada e retira muito“.
O argentino foi mais longe e deixou no ar uma suspeita: segundo Bielsa, há outra intenção por detrás das pausas, e as conclusões que tira não são apenas suas — faz eco do que ouve no meio.
Do lado dos jogadores, Virgil van Dijk, capitão da Holanda, levantou outro problema: “As pausas para hidratação são um pouco curiosas. Sempre que o jogo é interrompido para publicidade, não é algo de que goste. Para quem acompanha pela televisão, também não é muito agradável. Se estiver realmente muito calor, faz sentido, mas penso que é preciso analisar cada jogo individualmente”.
Entre os treinadores, a divisão é clara. Mauricio Pochettino, selecionador dos Estados Unidos, um dos países anfitriões, foi lacónico: “Não gosto disso. Só acho válido quando as condições são extremas”. Já Didier Deschamps, selecionador francês, encarou a novidade de forma pragmática: para o técnico francês, a pausa foi uma oportunidade para conversar com os jogadores e ajustar algumas coisas antes do recomeço, reconhecendo que, na prática, o jogo passou a ter quatro períodos — e os treinadores adaptam-se.
Carlo Ancelotti, no banco do Brasil, foi na mesma linha: “Podemos explicar um problema aos jogadores ou fazer um ajuste tático que pode ser muito útil“.
Uma das críticas mais recorrentes prende-se com a aplicação universal da medida — o facto de as pausas acontecerem mesmo em estádios com ar condicionado, onde o calor não é fator. Infantino tem resposta para isso: “Se utilizássemos as pausas de hidratação apenas nos jogos em que estivesse demasiado calor e não nos outros jogos, daríamos uma vantagem ou desvantagem a alguns dos treinadores ou a algumas das equipas”.
A experiência deste Mundial dirá se estes argumentos convencem os adeptos e os protagonistas. Por enquanto, as pausas continuam a dividir — dentro e fora de campo.