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A imagem não esteve o tempo suficiente parada para se perceber se havia mais alguém ali naquela tribuna, um espaço reservado para deuses que tinha aquele que para muitos se tornou um “diabo” chamado Gianni Infantino, presidente da FIFA que anda num jato privado cedido pela Qatar Airways de um lado para o outro para tentar ver dois jogos por dia quando o calendário permite. Havia Roberto Carlos, Rivaldo, Bebeto, Cafú, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Kaká. Pelo menos estes estavam – sendo que, apesar de serem oito, jogarem por bem mais do que 11. Um luxo que, ao mesmo tempo, funcionava também como espelho para aquele que é hoje o maior problema do Brasil. Pode dizer-se que A é melhor que B, que o esquema tático X funciona de outra maneira do que o Z, mas quando se comparam essas gerações que foram campeãs mundiais da canarinha com a atual percebe-se à primeira vista a maior diferença que se encontra em 2026.
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O Brasil tem bons jogadores, tem grandes jogadores, tem jogadores acima da média mas já não é uma equipa temível como foi um dia nem tem os craques que brilharam em campo um dia. Ninguém pode colocar em causa a valia de Alisson, a competência da dupla Marquinhos e Gabriel Magalhães, a enciclopédia de como gerir momentos que é Casemiro ou o virtuosismo de Vinícius Jr. (quando está mais virado para o jogo do que para outras coisas). Mas é comparável com o que os brasileiros viram antes, naquele país onde muitas vezes basta dar um pontapé numa pedra e sai um artista da bola? Não. A contratação de Carlo Ancelotti, que era há muito um sonho proibido até deixar de ser quando decidiu deixar o Real, visou isso mesmo: não existindo essa geração capaz de resolver tudo sozinha pela técnica, a ideia passava por dar ordem com a tática.
Era também à luz dessa ideia que, quando um vulto fez sombra no calor de Miami, todos viram o sol. Com o andar gingão de um predestinado, Neymar é aquele rasgo de saudosismo que agarra os adeptos brasileiros ao passado. Sim, não é o que foi, teve pouco impacto no regresso ao Brasil para atuar no Santos por continuar preso ao adversário mais complicado que defrontou que é o seu corpo frágil e não reúne as condições com que encarou os últimos Mundiais mas é ele, o Ney. Todos percebem que existe uma aura diferente quando o jogador que passou pelo Barcelona e pelo PSG está em campo, seja do lado de dentro ou de fora da linha como aconteceu diante da Escócia. Vinícius Jr., que levava dois golos nos dois primeiros jogos neste Mundial, era um deles. No Brasil ou no Real, há sempre um fenómeno talhado a impedir de ser o número 1.
Agora, começava a ser hora de “alguém” aparecer. Os quatro pontos nos dois primeiros encontros davam uma almofada de conforto demasiado grande para sobressaltos de última hora na qualificação para a fase a eliminar da competição mas o duelo com a Escócia prometia ser mais um bom teste ao momento que o Brasil atravessa, entre a entrada titubeante com Marrocos e o triunfo claro diante do Haiti. Mais: seria decisivo para garantir a primeira posição do grupo C, com tudo aquilo que isso poderia trazer de benefícios no caminho até à final. Mas, mais uma vez, havia uma Escócia que venceu a primeira partida com o Haiti e que, depois da entrada em falso diante de Marrocos, mostrou ser capaz de apresentar uma versão competitiva mesmo que jogar bem e bonito sejam predicados secundários. Por tudo isso, era hora de “alguém” aparecer.
Esse “alguém” voltou a ter Júnior no nome a ser gigante em campo. Houve muito demérito escocês na forma como o Brasil chegou à vantagem, com Scott McKenna a adormecer perante a pressão de Rayan que acabou por ser uma assistência para Vinícius Jr., mas o avançado do Real Madrid aproveitou para marcar aquele que era o seu terceiro golo numa competição onde o Brasil mexe no ataque, por opção ou necessidade, em todos os jogos (7′). O espetáculo estava apenas a começar, entre um remate de trivela que saiu ao lado (20′), um golo anulado pelo pequeno toque no pé de Jack Hendry que desequilibrou o central antes do roubo de bola (22′) e o bis em período de descontos da primeira parte numa jogada que começou num carrinho de Matheus Cunha a roubar a bola, teve um cruzamento largo de Casemiro e acabou com um desvio de cabeça ao segundo poste para o 2-0 (45+3′). Rayan ainda tentou um remate em arco que saiu ao lado (38′), Matheus Cunha também teve o mesmo destino quando visou a baliza (42′) mas Vinícius Jr. ganhava por 2-0 à Escócia.
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Eram dois, podiam ser três, ainda houve uma oportunidade para mais um quando Vinícius Jr. foi lançado na profundidade para desviar com a ponta do pé e Angus Gunn conseguir defender no chão com a perna (51′). A Escócia também teve as suas finalizações, com Alisson a negar por duas ocasiões o golo a Scott McTominay, mas o Brasil controlava por completo a partida, construindo a melhor jogada coletiva com Bruno Guimarães a sair mais na frente e a assistir Matheus Cunha com classe para o 3-0 (60′). A questão da vitória estava arrumada, a do primeiro lugar também, era tempo de fazer a festa. Uma festa que, pelo que se ouvia nas bancadas, pedia o rei (com letra pequena, para que a letra grande fique reservada para sempre para uma lenda tricampeã mundial chamada Pelé). Ancelotti falava com os adjuntos para pensar quanto tempo iria dar ao avançado do Santos e o Hard Rock Stadium quase caiu quando Neymar entrou para o lugar de Matheus Cunha (76′). Com outra curiosidade ou simples coincidência: com o 10 em campo a jogar pela seleção quase 1.000 dias depois, Vinícius Jr. voltou a “acordar” para o jogo, tendo duas boas oportunidades para marcar.
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A estrela
- De forma inevitável, Vinícius Jr. O avançado do Real Madrid não está talhado nem é o tipo de jogador para entrar nas discussões com Lionel Messi, Erling Haaland, Kylian Mbappé, Cristiano Ronaldo ou Harry Kane a nível de golos mas fechou a fase de grupos com quatro remates certeiros em três jogos, mostrando sobretudo uma disponibilidade física que impressiona quando o Brasil procura mais a profundidade. Com outro ponto que parece secundário mas tem o seu peso neste contexto de Mundial: tendo Ancelotti no banco, Vini parece mais confortável, mais disponível e (muito) mais focado no jogo.
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O joker
- Matheus Cunha está cada vez mais consolidado naquilo que é a posição 9 neste Brasil, não só pelos golos que marca (e foi mais um, num total de três noutros tantos encontros) mas também, ou sobretudo, pela primeira linha de pressão sem bola que consegue condicionar por completo a saída a construir do adversário – e que pode gerar oportunidades, como aquela que valeu o 2-0 a Vinícius Jr. No entanto, a grande carta que saiu do baralho de Ancelotti foi Rayan, ala do Bournemouth que ocupou a posição do lesionado Raphinha. Em condições normais, aquele seria o lugar de Estêvão mas, mais uma vez, o ala formado no Vasco da Gama mostrou que é uma das maiores promessas do futebol brasileiro, não só pelo que faz 1×1 mas pelo que contribui para a organização coletiva e pela capacidade física com e sem bola.
A sentença
- Com esta vitória, e tendo em conta que Marrocos não conseguiu anular a diferença de golos marcados e sofridos, o Brasil fecha a fase de grupos como líder do grupo C com sete pontos em três jogos e 7-1 em golos, tendo agora pela frente o segundo classificado do grupo F que pode sair de um lote com Países Baixos, Suécia ou Japão. Já a Escócia terminou esta fase com apenas três pontos e uma diferença de golos de três negativos (1-4), ficando agora à espera de saber se será um dos oito melhores terceiros.
A mentira
- Steve Clarke não gostou da forma como a Escócia entrou no plano defensivo frente a Marrocos, não só pelo golo sofrido logo no segundo minuto mas também pela facilidade com que os africanos foram criando oportunidades muitas vezes a partir de erros próprios. Por isso, e mesmo tendo o Brasil pela frente, não teve dúvidas: era de apostar em Jack Hendry e Scott McKenna. Correu mal. Correu ainda pior do que contra Marrocos. Os escoceses não têm propriamente grandes soluções a não ser quando McTominay vai a zonas de finalização, quando Lewis Ferguson consegue pensar o jogo ou quando McGinn faz algo de diferente no jogo, mas foi pelo centro da defesa que mais claudicaram.