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A abertura do Babell fez-se entre protestos pelo atraso e aplausos para Byung-Chul Han

A conferência inaugural do novo festival literário portuense, protagonizada pelo filósofo germano-coreano, ficou marcada por um atraso de mais de uma hora e problemas com a tradução.

Carina Fonseca
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A sessão com o autor de obras como A Sociedade do Cansaço ou Vida Contemplativa, com lotação há muito esgotada, tinha como foco o abrandamento e a reaproximação à natureza, ou não fosse Byung-Chul Han apadrinhar o novo Jardim do Pensamento, em Leça do Balio, Matosinhos. Mas os ânimos exaltaram-se face ao atraso com que a conferência arrancou, mais de uma hora após o que constava do programa, nesta tarde de quarta-feira, dia de São João e feriado municipal no Porto.

Pouco depois das 16h30 (a conferência estava agendada para as 15h30), um membro da organização dirigiu-se ao público para pedir desculpa pelo atraso e mais dez minutos de espera. “Acho inadmissível, não cabe na cabeça de ninguém”, comentava uma espectadora entre as centenas de pessoas que aguardavam, muitas procurando refrescar-se abanando leques ou mesmo livros. Ao fim desse tempo, nova intervenção, para pedir mais oito minutos, com a audiência a impacientar-se. Houve apupos e quem gritasse: “Tragam água”.

Só praticamente dez minutos antes das 17 horas é que a apresentadora Catarina Furtado subiu ao palco para anunciar o início da sessão, a cargo do “mais citado filósofo da atualidade”, capaz de “identificar os paradoxos do nosso tempo”. Os protestos subiram de tom quando a moderadora informou que o também professor iria falar em alemão, com interpretação simultânea através de auscultadores – que ainda não haviam sido distribuídos. Byung-Chul Han, transportando um recipiente com uma flor, chegou a dar início à conferência, num momento em que o público ainda não tinha auscultadores. “Quem precisar, faça o favor de pôr o dedo no ar”, disse Catarina Furtado. Houve risos e muitos dedos erguidos. Mais uma vez, um elemento da equipa organizadora pediu desculpa e “um bocadinho de paciência”.

Enquanto os espectadores formavam fila para aceder aos aparelhos, Cidália Teixeira caminhava em direção ao filósofo, que aguardava de pé, fora do palco, para lhe comunicar a admiração pela obra. “Já li praticamente os livros todos, identifico-me com o pensamento dele”, referiu ela, portuguesa que estudara na Alemanha, onde todos “são extremamente rigorosos”, assumindo sentir alguma vergonha diante daquele cenário. “Tenho este bilhete desde 12 de abril e esperava uma organização mais eficaz”, lamentou ainda.

“Estamos a transformar-nos em gado de consumo”

Os ânimos serenaram quando Byung-Chul Han subiu ao palco pela segunda vez, sem interrupções e sob fortes aplausos. Na sua intervenção, falou de música (toca piano); de jardins (faz jardinagem); de espiritualidade (“Deus não é poder, Deus é atenção”); da importância de voltar à terra e dar espaço ao pensamento; da armadilha do autocuidado (palavra que detesta); da escravatura da digitalização; dos perigos da inteligência artificial; do ghosting; do binge watching (“uma espécie de estado de coma”)… Mas também da sua visita ao Porto, três anos antes (embora não goste de viajar e pouco saia de Berlim, onde vive). Ou das magnólias com aroma a limão. Parece confuso, mas, pela sua boca, tudo se interliga.

Byung-Chul Han (satisfeito por estar a fazer uma intervenção, pela primeira vez, ao ar livre) começou por aludir à paisagem circundante, do verde da natureza à robustez do Mosteiro. “Eu era para ter sido padre, portanto, pertenço, realmente, aos mosteiros”, afirmou. Desenvolveu a ideia de jardim, “um lugar para nos determos demoradamente” e que, “se tivesse um verbo, seria, certamente, pensar” (ainda que tenhamos “cada vez menos tempo” para isso). E avisou: “Estamos a transformar-nos em gado de consumo”.

O filósofo desfez a convicção de que hoje vivemos numa sociedade mais livre do que nunca, com as redes sociais a permitirem a comunicação sem fronteiras, uma crescente euforia em torno da criatividade, a crença na liberdade individual. “Mas sentimos que no interior não somos livres”, antes caminhamos “de um vício para o outro”, continuou, para logo rematar: “Vivemos numa sociedade do vício. Exploramo-nos a nós próprios voluntariamente.” Mais: “Se a revolução não parece possível, talvez seja porque não temos tempo para pensar”. Com tantos estímulos e dependências, questiona, ”quem é que pode dizer que é livre?”.

O autor de Sem Respeito – Uma Crise Social, o seu mais recente livro, ainda por publicar em Portugal, falou também de “falta de respeito, ódio, ressentimento” e do crescimento dos extremismos. “Sem a contemplação e a espiritualidade, chegamos outra vez à barbárie”, enfatizou, salvaguardando que espiritualidade nada tem a ver com atenção plena (mindfulness) ou autocuidado, estratégias do mundo capitalista associadas ao desejo de aumento do desempenho, com vista à maior produtividade.

A conferência teve lugar no Jardim do Pensamento, junto ao Mosteiro de Leça do Balio, Monumento Nacional e sede da Fundação Livraria Lello, que organiza o festival tendo como parceira a Câmara Municipal do Porto. Trata-se de um espaço verde com perto de quatro hectares, na margem do rio Leça, que resulta de um projeto assinado pelo arquiteto Siza Vieira, distinguido com o Prémio Pritzker, e pelo arquiteto paisagista Sidónio Pardal. Pelo jardim há várias esculturas de Siza, que não esteve presente na sessão da tarde devido ao cansaço: afinal, celebra nesta quinta-feira 94 anos.

Dois prémios Nobel no fim de semana

O Babell decorre em espaços públicos do Porto até à próxima segunda-feira, 29 de junho. Ao longo dos dias, em ruas, praças, jardins e equipamentos do centro histórico do Porto, há atividades para todo o tipo de públicos, incluindo o infanto-juvenil.

Lászlo Krasznahorkai, da Hungria, e Olga Tokarczuk, da Polónia, distinguidos com o Nobel da Literatura em 2025 e 2018, respetivamente, são dois dos vultos confirmados nesta primeira edição (ainda não se sabe se a única). Ambos participam em sessões a decorrer na Praça Gomes Teixeira (vulgo Praça dos Leões): Olga Tokarczuk no sábado, às 18 horas; e Lászlo Krasznahorkai no domingo, às 18h30.

O programa conta ainda com a presença de escritores de renome mundial como o britânico Julian Barnes (que lançou recentemente Partida, anunciado como o seu último livro), o indiano-britânico Salman Rushdie, a canadiana Margaret Atwood, o espanhol David Uclés, a brasileira Conceição Evaristo ou o colombiano Héctor Abad Faciolince.

Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares, Dulce Maria Cardoso, Djaimilia Pereira de Almeida e Bruno Vieira Amaral são alguns dos autores nacionais que marcam presença em diferentes momentos do festival.

Para aceder às sessões e garantir lugar sentado, é necessário comprar um livro numa das dezenas de livrarias e alfarrabistas portuenses aderentes. Do livreiro recebe-se um vale com um código para inserir no site do festival e proceder à reserva da sessão desejada, sendo que para algumas delas já não há vagas.