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Cerveja a 13 dólares, calor, ecrãs gigantes e peladinhas. Uma tarde dentro das Fan Zone do Mundial

Mundial tem 13 Fan Zone oficiais. Há milhares de adeptos, jogos ao vivo, música e até um campo de futebol. O Observador passou uma tarde no FIFA Fan Festival e encontrámos preços altos e muito calor.

Miguel Cordeiro
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O desporto de seleções é um dos principais dinamizadores da multiculturidade. É assim nos Jogos Olímpicos, é assim nos Europeus, e é assim no Mundial. Mas, no Campeonato do Mundo, a dimensão torna-se gigantesca. A paixão pelo futebol e a curiosidade de quem não quer ficar de fora de um grande evento, juntam-se ao longo de várias semanas, em diferentes cidades do país – ou países – que organizam a grande competição.

O FIFA Fan Festival quer aproveitar isso mesmo. É um autentico festival de verão dedicado ao futebol. Tem tudo o que podemos encontrar num festival: calor, espaços abertos, filas, grandes palcos e preços altos. Para além disso, neste festival futebolístico há também campos de futebol, sessões de autógrafos com ex-jogadores, transmissão de jogos ao vivo e actividades ligadas ao desporto rei.

Apesar de se parecer com um festival de música, aqui, o dress code não é repleto de glitter. Também não há camisas florais, nem t-shirts pretas com nomes da bandas. Em vez disso, há camisolas de futebol de todo o mundo. Camisolas clássicas, outras mais recentes, umas de seleções, outras de clubes. Da cintura para baixo, os calções, as saias, os chinelos, as sandálias e as sapatilhas confortáveis, mantém-se, mas por vezes encontramos umas chuteiras – principalmente nas crianças.

Estes eventos foram criados pela FIFA em 2006, no Mundial da Alemanha e têm vindo a crescer a cada edição que passa. Nos EUA, México e Canadá, a expectativa é superar todos os recordes de visitantes e de lucro, porque nada é barato nestes recintos.

Até agora, os números já apontam para um autêntico sucesso. De acordo com a FIFA, nos primeiros 8 dias do Mundial, mais de dois milhões de pessoas passaram pelo FIFA FAN Festival. Há cidades com mais lotação que outras, mas todos os recintos são enormes e em média têm capacidade para cerca de 10 mil pessoas em simultâneo, mas como a entrada é livre há um rotação constante dos adeptos dentro dos recintos, e há algumas cidades que apontam para mais de 40 mil visitantes por dia.

O Observador visitou o FIFA Fan Festival de Houston, que tem capacidade para 7.500 pessoas e que, de acordo com os números transmitidos pela organização, nos primeiros 12 dias do Mundial foi visitado por 150 mil adeptos. Encontramos, muito calor, animação, futebol em cada canto e preços altos em tudo o que se vende.

Cerveja a $12,99 e gelados a $8,99

Para chegar ao FIFA Fan Festival é preciso andar a pé cerca de dez minutos. Todas as ruas que dão acesso ao recinto estão cortadas e há forte controlo policial. A cerca de 800 metros da porta principal há parques especificos para que os condutores de TVDE e de táxis deixem os passageiros. Quem levar o próprio carro tem de procurar outro local para estacionar e não há parques gratuitos por perto. No caminho encontramos vários cartazes que apontam para parques pagos, os preços variam entre os 30 e os 50 dólares para todo o dia.

Entrar no festival não é difícil, nem caro. A entrada é gratuita e não há longas filas, até porque as portas abrem logo de manhã, às 10h30 e encerram pelas 21h00. É proibido entrar com mochilas, apenas pequenas bolsas. Garrafas de água também não entram, mas é possível levar um copo pequeno. Em todas as casas de banho há pontos de água fresca gratuita.

Mas a entrada e a água são as únicas coisas que não se pagam. Comer e beber nestes festivais não é propriamente barato. Uma garrafa de água com 50 cl custa 5,99 dólares, um refrigerante com a mesma quantidade vende-se por $7,99. Quanto às bebidas alcoólicas, a cerveja mais barata custa 12,99 dólares. Uma rodada para quatro pessoas fica a cerca de $52 – são cerca de 46 euros. Algumas cervejas são ainda mais caras, e um copo com 50 cl pode custar $14,99. Uma Margarita custa exatamente o mesmo, mas tem menos quantidade de bebida e leva gelo. A todos este preços é preciso ainda adicionar os impostos – nos EUA os preços são anunciados sem as taxas que são cobradas apenas no momento do pagamento.

Comer nestes festivais é também um esforço para a carteira. Oito peças de Sushi custam $19,99, dois pequenos tacos com carne compram-se por 15,99 e um dose da batatas fritas com pedaços de frango e molho está no menu por $17,99. Os gelados estão entre os produtos mais baratos que encontrámos. Uma pequena porção de popsicels – água congelada com com sabor a fruta – vende-se pela módica quantia de $8,99. Um pequeno pacote de batatas fritas vende-se por $5,99. Mais uma vez, a tudo isto é preciso adicionar impostos.

Quem quiser comprar produtos oficiais do Mundial vai ter de fazer um investimento ainda maior. Aqui é onde a carteira mais sofre. As camisolas de jogo deste Mundial vendem-se por $130. É o mesmo preço para as camisolas de todas as seleções. Uma t-shirt preta com logo do Mundial custa $39,99 e chapéu de palha com o mesmo símbolo vende-se por $50. Um top com a frase We are 26 custa $40 e uma camisola de manga comprida e com capuz com a mesma frase sai a $80. Sim, é preciso também adicionar os impostos no momento de pagar.

Matheus Luís, um português emigrado nos EUA, ri-se quando questionado sobre os preços do FIFA Fan Festival: “Estão altos!”. Rosa, sentada na mesma mesa, confessa que é a primeira vez que está numa fan zone e apesar de reconhecer o elevado custo dos produtos deste festival, assume que não estranha: “Faz parte, estão altos, mas é uma festa para fazer dinheiro, não é?”.

Ainda assim, tal como nos festivais de música, há algumas bancas com brindes. Em alguns locais oferecem-se pequenos cachecóis, outros têm copos temáticos, e o Bank of America ofereça pequenas pulseiras com o logo de cada um dos países que organizam o Mundial-2026. Ainda assim, para conseguir estes brindes será preciso paciência, algumas filas acumulam dezenas de pessoas e pode ser preciso esperar mais de uma hora.

Futebol em cada esquina com direito a “peladinhas”

A partir daqui entramos no que o FIFA Fan Festival tem para oferecer. Em cada uma das 13 cidades que organizam este evento é possível assistir aos jogos do Mundial em gigantes ecrãs. Estão instalados num palco onde artistas atuam durante os intervalos e entre jogos. Há também animação com DJ e um speaker que promove cânticos e danças. As colunas são potentes e a plateia está parcialmente à sombra. No chão um tapete de relvado sintético. Nas laterais de cada um dos palcos há também restaurantes fechados, com ar condicionado muito forte, e com mais ecrãs.

Dentro do festival há também um campo de futebol onde qualquer pessoa se pode inscrever para jogar, sem qualquer custo. Basta colocar o nome na lista e esperar pela sua vez para participar num jogo com a duração de 20 minutos. Não há distanção por género nem por idade. Todos podem jogar

Junto a esse campo, há várias atividades. Há uma baliza em que os adeptos podem tentar marcar a um guarda-redes mecânico. Há pequenas estruturas circulares com jogos de passe, em que é preciso acertar com a bola nos pontos indicados pelas luzes. E há ainda alguns locais com ranking de contagem de toques na bola sem a deixar cair no chão.

Em frente à baliza que tem o guarda-redes robot, há um Bernardo Silva pronto para rematar. Está descalço, com meia branca, calção de banho azul e a camisola de Portugal com o número 10 nas costas. Na verdade, chama-se Jason Medeiros e nasceu no Canadá, em Montreal. Rematou três vezes à baliza e o guarda-redes apanhou todas: “É do meu pé, faltou aqui um parafuso, deixei-o em casa e por isso dei mal na bola”. Entre o sorriso de quem queria ter marcado um golo para a câmara,  fala do FIFA Fan Festival como um evento “fenomenal” e elogia a organização: “Tem pessoas de todo o mundo, gente alegre, isto é um bom lugar para estar durante estes dias”.

Para lá do futebol, há uma atração diferente em cada cidade que recebe o Fifa Fan Festival. Em Houston, no recinto que o Observador visitou, há uma enorme tenda com atrações da NASA. É possível ver os fatos espaciais utilizados na recente missão Artemis II, que voltou a levar humanos à órbita da lua.

Nesse espaço está também a porta da cápsula Orion, a nave que transportou esses astronautas até à lua, e há ainda um modelo gigantesco do planeta terra e outro da lua. Aqui podemos conversar com alguns funcionários da NASA sobre tudo o que está exposto.

O FIFA Fan Festival é também um otimo local para encontrar velhas glórias do futebol mundial. Na tarde em que o Observador esteve neste festival em Houston, a estrela que tirou fotografias e distribuiu autógrafos pelos adeptos foi Clint Dempsey, antigo internacional pelos EUA. É o melhor marcador da história da seleção norte-americana. Tem 57 golos em 141 golos. É o quarto jogador com mais internacionalizações pela seleção dos Estados Unidos. Conquistou por três vezes a Gold Cup, jogou na Premier League, com passagem pelo Fulham e pelo Tottenham.

Calor que não trava a festa

Dentro do recinto, nas ruas que dão acesso a cada um destes espaços, há vários postos com sombra e água a ser libertada em goticuloas para ajudar a refrescar no calor húmido do Texas. Estavam 34º na tarde em que visitamos o FIFA Fan Festival. Nas casas de banho, que estão dispersas por vários locais do festival, há sempre água fresca gratuita em postos para encher garrafas, copos e bebedouros.

Bruno Marques, português a viver em Connecticut, queixa-se do calor. Está em Houston para viver e festejar o Mundial: “Estamos a falar de momentos mágicos que só existem durante um campeonato do mundo”. Veste uma camisola de Portugal, tem a bandeira às costas e na cabeça um chapéu de palha também com a bandeira. Ao peito carrega um pequeno djambé e um fio dourado com uma cruz e os contornos do território de Portugal. Sobre o festival fala numa grande festa e explica que para quem vive nos EUA os valores “não são astronómicos”, mas percebe que “para quem é de Portugal é um bocadinho caro.”

Neste festival o futebol é a língua universal. Há pessoas de todos os cantos do mundo e não só dos países que organizam ou participam no Mundial. Há um tom colorido em cada um dos pontos do FIFA Fan Festival com camisolas de futebol de diferentes nações. Vemos brasileiros a dançar com argentinos, portugueses a partilhar refeições com franceses, ingleses e alemães a tirarem fotografias de grupo e mexicanos com as camisolas dos EUA. Há também um gosto crescente pelo soccer por parte dos norte-americanos.

Rosery, natural de Houston, fala de um festival incrível e confessa que sente falta de eventos como este: “Temos de conseguir promover o futebol em Houston. Precisamos de mais coisas assim”. Numa análise ao panorama desportivo do país, Rosery assume que prefere o futebol a outros desportos e espera que o Mundial ajude ao crescimento da modalidade em território norte-americano: “Precisamos de mais futebol. Estou a adorar o Mundial, os jogos são ótimos”.