A visita aos espaços intervencionados do D. Maria II, em Lisboa, cujas obras de requalificação decorriam desde 2023 com recurso a fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), e que antecedeu, esta quarta-feira, a apresentação da programação da nova temporada do teatro nacional, a acontecer entre setembro de 2026 e julho de 2027, terminou com direito a comes e bebes no Salão Nobre do edifício, que tem as caras das atrizes Amélia Rey Colaço, Beatriz Costa, Laura Alves e Palmira Bastos esculpidas nas paredes pelo street artist Vhils. As portas abertas do terraço faziam entrar uma brisa, que convidava a sair para o exterior.
Deste balcão, vê-se o edifício onde na esquina já não existe o centenário Beira-Gare, um restaurante-cervejaria junto à estação de comboios do Rossio, icónico pelas bifanas ensopadas no molho de frigideira à vista na montra, onde se comia também uma sopa de legumes e uns croquetes se se estivesse com pressa. Muitos artistas, funcionários e espectadores de peças do D. Maria II passaram por lá, antes ou depois dos espectáculos. Hoje, esse edifício tem um franchise que vende fornadas de pastéis de nata na outra esquina, a que dá para a praça do Rossio, e diz-se que vai ser mais um hotel.
A visita ao remodelado D. Maria II começou, não pela porta lateral, onde fica a bilheteira — e também a livraria, remodelada a madeira de nogueira de alto a baixo, com um rendilhado de quadrados embutidos nas paredes e até no tecto —, mas pelas portas frontais do edifício, inseridas no “pórtico hexastilo em forma de templete” (diz-nos o site dos Monumentos de Portugal), que dá para a praça D. Pedro IV, vulgo Rossio. Este Rossio que funcionários, artistas e públicos do D. Maria II vêm encontrar diferente, passados três anos, tem agora as duas fontes na parte central da praça engolidas pelas muitas barracas de madeira do mais variado comércio, que eram típicas da época do Natal e se vulgarizaram a pretexto de toda e qualquer ocasião ao longo do resto do ano.




Otimizar a relação do edifício com o exterior foi uma das prerrogativas que o conselho de administração deu ao ateliê encarregado das obras de requalificação, revelou, durante a visita, o arquiteto Francisco Amaral Pólvora, da BFJ. O edifício neoclássico, desenhado pelo italiano Fortunato Lodi e inaugurado em 1846, sofreu um grande incêndio em dezembro de 1964, de que restaram apenas as paredes exteriores e as colunas, e só voltou a abrir passados 14 anos. Muitos dos melhoramentos efetuados no teatro são, explicou Amaral Pólvora neste início da visita, invisíveis, ao nível de revestimentos, materiais e cores, e vieram proporcionar uma maior eficiência energética, melhores acessibilidades e maior conforto na utilização o espaço, quer por trabalhadores quer por públicos. “A ideia foi não entrar em conflito, mas dar uma leitura contemporânea ao espaço”, complementou Sofia Campos, vogal do conselho de administração e gestora do projeto, que acompanhou Francisco Amaral Pólvora na apresentação dos diversos espaços remodelados do teatro.
Isso mesmo pôde perceber-se na sala Garrett, a sala de espectáculos principal do teatro. Os tecidos, dos assentos às alcatifas, foram substituídos e vieram de Itália. As cores das paredes e tecto foram mantidas mas escuradas com 10% de preto, de modo a fazer realçar mais os dourados ornamentais das paredes e dos balcões. O grande lustre central, ladeado pelos anjos da Comédia, Farsa, Tragédia e Drama, apresenta uma novidade: passou a ser mecanizado, já não é subido ou descido manualmente. As tubagens existentes no tecto para o ar condicionado, que fazia com que massas de ar frio recaíssem diretamente sobre os espectadores, como explicou Francisco Amaral Pólvora, foram retiradas e substituídas por um sistema de ventilação no soalho, umas tampinhas circulares vermelhas por cima da carpete. “Foram feitas mudanças técnicas de fundo”, explicou o arquitecto da BFJ Arquitectos. “Existem agora 15 quilómetros de cabos de som escondidos nas paredes.”
Aquando do início das obras de requalificação, em que se descamaram as paredes da sala Garrett, encontrou-se escrito no segundo balcão a sigla M.D.P./C.D.E. — Movimento Democrático Português/Comissão Democrática Eleitoral, que se pensa ter sido pintada durante as obras de reconstrução do teatro após o incêndio de 1964. Sofia Campos fez agora questão de assinalar que essa inscrição foi mantida, por debaixo dos novos revestimentos de têxteis naquela parede. A cara mais limpa da sala Garrett deve-se ainda ao sistema de grelhas para pendurar os projectores que apontam para o palco, que passaram a estar escondidas num veio côncavo que acompanha a linha inferior dos vários balcões da sala.

Subimos de andar e onde era a antiga sala de cenografia passou a ser agora um espaço expositivo, aqui já a notar-se os elementos visíveis de contemporaneidade da decoração do interior do edifício. As duas pequenas janelas que dão para a frente do edifício e têm vista para a praça cheia de apontamentos multicolores de feira, estão ladeadas por galerias expositivas — para adereços, figurinos, etc, que contam a história do teatro — feitas de madeira de nogueira, acompanhada por um corredor em verde azeitona claro.
No mesmo piso, onde antes eram os escritórios da direcção de relações exteriores e frente de casa é agora uma sala de ensaio de apoio à Sala-Estúdio, que tem pormenores muito mignons. Existe uma namoradeira — assim se chama —, uma espécie de arco a contornar a pequena janela e que é rematado em baixo com um banco corrido de cada lado. É forrado a burel cor de vinho, assim como o tecto.
Onde houve a maior transformação foi na antiga sala de cenografia. Foi, como explicou Sofia Campos, a grande necessidade que levou a direção do teatro a concorrer ao PRR: proporcionar outras condições de trabalho aos funcionários. Imagine-se um espaço de coworking cosmopolita acabado de inaugurar: muito bom gosto, a estrutura de ferro que suporta os dois pisos (um deles mezanino) é pintada de verde água e tecto e chão são de madeira de nogueira. Para tirar proveito da vista com o exterior, que aqui já dá para as traseiras do edifício, foi aproveitado o espaço para um pequeno jardim de inverno. O mobiliário ainda não tinha sido colocado para as diferentes equipas trabalharem, mas já existem vasos grandes com plantas, que dão já uma ideia do quão agradável o espaço está para se trabalhar em condições — condições essas que Sofia Campos fez questão de salientar que era muito necessário serem melhoradas. O que pode perceber-se bem na sala agora reservada às costureiras, que passou a ter luz natural. Tanto no open space como nesta nova sala das costureiras existem igualmente pormenores de burel cor de vinho: na sala das costureiras, existe um biombo móvel modular para provas de roupa e, no open space, há aquilo a que Francisco Amaral Pólvora designou de phone booths, todas forradas a burel bordeaux, como que saídas de um filme futurista dos anos 60.




Depois dos antigos camarins e da antiga sala da equipa de comunicação do teatro, que passou a ser o espaço para a equipa de finanças e recursos humanos, porque fica mais recatada, passou-se, por último e antes do cocktail pré-apresentação da temporada 26/27 (ver caixa), pela sala da plataforma que faz girar o palco, situada precisamente por debaixo do mesmo. A plataforma encontra-se agora mais segura, porque está dotada de um sistema austríaco de rotação, via QR codes, que a faz rodar — e parar — com precisão milimétrica, além de que a maquinaria foi toda gradeada e reforçada com um piso intermédio de acesso à mesma. É um sistema mais silencioso e mais seguro, dizem os dois anfitriões. Ou, como disse ainda Sofia Campos em tom jocoso, agora já não há o risco de alguém perder um dedo aquando da rotação da plataforma giratória do palco.
Uma nova temporada “diversa e acessível”
Após o encerramento do edifício para obras de requalificação e de uma Odisseia Nacional que levou a atividade do Teatro a todo o país, a nova temporada acontece já de regresso ao Rossio, com uma programação que se estende pelas salas Garrett, Estúdio, Salão Nobre e outros espaços do edifício, continuando também a marcar presença em diferentes pontos do território nacional.
Entre 18 e 20 de setembro haverá programação gratuita, mediante levantamento de bilhete, sendo o espetáculo Macbeth, de William Shakespeare, com encenação de Pedro Penim, diretor artístico do TNDM, um dos destaques. No exterior, a Praça D. Pedro IV transforma-se numa plateia e a fachada do teatro num palco para projeção do espetáculo de ‘videomapping’ “Hélice do Tempo”, que conta a história do teatro ao longo de 180 anos, com projeções, som e arquivo histórico. A programação inclui atuações dos DJs ZenGxrl, Beatbombers e Marfox.
O D.Maria II apresenta uma programação que se estende ao longo de vários meses e que aposta na “diversidade artística e na acessibilidade”. Haverá clássicos revisitados, como Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, e As Suplicantes, de Ésquilo; teatro documental, de que é exemplo Habitar, de André Amálio e Tereza Havlícková (do Hotel Europa); e teatro do absurdo, como A Cantora Careca, de Eugène Ionesco, com encenação de Beatriz Batarda.

Quanto a projetos internacionais, contam-se Barber Shop Chronicles, de Inua Ellams, um olhar sobre masculinidades negras contemporâneas através de seis barbearias; Quando vi o mar, de Ali Chahrour, dedicado a trabalhadoras domésticas migrantes no Líbano; e Al-Sirah Al-Hilaliyyah ou A Epopeia dos Bani Hilal, de Bashar Murkus e Khulood Basel, do Khashabi Theatre Palestine, uma lendária saga árabe, transmitida oralmente desde o século XIV.
Os espetáculos performativos Memorial, Cinderela, Romance e Dressing Room, de Lígia Soares, assim como Blackface, espetáculo a solo, escrito e encenado por Marco Mendonça, uma conferência musical, que se situa entre o stand up e a fantasia, a sátira e o teatro físico, o burlesco e o documental, são outras propostas. Grande parte destes espetáculos, que atravessam temas como identidade, racismo, migração, história colonial e experiências pessoais, será acompanhada por medidas de acessibilidade, incluindo Língua Gestual Portuguesa (LGP), audiodescrição (AD) e legendagem. As sessões decorrem em diferentes horários e formatos, incluindo matinés, sessões escolares e apresentações para público geral.
O programa inclui ainda iniciativas de inclusão social e participação comunitária, centradas principalmente em comunidades migrantes, jovens e públicos em situação de vulnerabilidade, como é o caso do ATOS, que promove práticas artísticas participativas em vários municípios, e o projeto “Ocupar o Centro”, que visa reforçar a presença de artistas com deficiência na criação contemporânea. A dimensão participativa estende-se ainda a residências artísticas, oficinas, debates e conversas com criadores, reforçando o papel do teatro enquanto espaço de mediação cultural.




Outro dos destaques da programação é a realização em Portugal da edição 2026 da École des Maîtres, um projeto internacional de formação teatral que reúne jovens artistas europeus entre os 24 e os 34 anos. A edição será orientada pela encenadora Nathalie Béasse, com o workshop “Epopeias íntimas”, centrado na experimentação teatral, no cruzamento de linguagens e na relação entre texto, corpo e língua.
O programa apresenta também exposições, projetos de arquivo e publicações que procuram revisitar a história do teatro e da cidade, de que é exemplo a mostra 180 anos do Teatro D. Maria II, que apresenta fotografias, documentos, figurinos, trajes, cartazes e programas de espetáculos, atravessando diferentes momentos da história do teatro até ao presente. Estão também previstas visitas guiadas ao edifício renovado, que incluem passagem pela exposição.
O Teatro Nacional D. Maria II vai ainda lançar publicações dedicadas a dramaturgos clássicos e contemporâneos, entre as quais novas traduções de Shakespeare e estudos sobre autores portugueses como Gil Vicente, bem como biografias e ensaios sobre o património teatral nacional. A vertente educativa assume igualmente um papel de relevo na programação, com espetáculos dirigidos a escolas e comunidades, como Auto da Barca do Inferno e Isto é o fim?, e oficinas e projetos de criação com jovens.
O Festival Panos está de volta, assim como outras iniciativas de dramaturgia juvenil, com a encomenda três textos originais a Alice Azevedo, Marco Mendonça e Ricardo Correia. Mantém-se a colaboração com os festivais de Almada e FIMFA LX – Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas.
Com Lusa