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(A) :: Que caixa era a que Olise tinha no balneário antes do jogo com o Iraque?

Que caixa era a que Olise tinha no balneário antes do jogo com o Iraque?

É mais comum do que se pensa e já pôs o Manchester City a sensibilizar os jogadores sobre o produto. "Almofadas de nicotina" já fazem "quase parte do kit básico de um futebolista", revelou treinador.

Manuel Conceição Carvalho
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Uma fotografia do cacifo de Michael Olise, tirada no balneário da seleção francesa antes do encontro com a seleção do Iraque, gerou debate nas redes sociais. A imagem revelava uma pequena caixa circular que levou muitos a concluir que o internacional francês consumia snus — uma cápsula de tabaco e nicotina que se introduz debaixo da gengiva, prática comum nos balneários do futebol europeu. A confusão foi quase imediata: a imagem propagou-se rapidamente em diversas plataformas e colocou Olise no centro das atenções por razões que nada tinham a ver com o seu desempenho em campo.

https://twitter.com/infobae/status/2069726728000246093

A conclusão estava, no entanto, errada. O produto em questão é da marca VELO e não contém tabaco — distinção que o afasta tecnicamente do snus, embora o modo de consumo seja idêntico: a cápsula é colocada sob a gengiva da mesma forma. O erro é frequente: um estudo da Universidade de Loughborough em parceria com a Associação de Futebolistas Profissionais (PFA, na sigla em inglês), em 2024, confirmou que a maioria dos jogadores que diz usar snus está, na verdade, a usar cápsulas de nicotina sem tabaco — os termos são usados dessa forma nos balneários e na cobertura mediática, mas referem-se a produtos diferentes. Muitos dos jogadores referem-se a este produto como “almofadas de nicotina”.

O fenómeno está longe de ser marginal. O mesmo estudo, que envolveu 628 jogadores do futebol inglês masculino e feminino, revelou que “18% dos jogadores masculinos e 22% dos femininos inquiridos consomem snus ou cápsulas de nicotina”, e que 42% dos homens já experimentaram pelo menos uma vez.

A prática propagou-se no futebol inglês sobretudo através de jogadores escandinavos — Henrik Larsson usava snus antes das grandes penalidades no Mundial de 1994, Jamie Vardy admitiu o consumo na sua autobiografia de 2016. “Quando me juntei ao Leicester comecei a usar snus. Um dos rapazes apresentou-me ao produto e descobri que me ajudava a relaxar. Muito mais futebolistas usam do que as pessoas imaginam, e alguns rapazes até jogam com eles durante os jogos”, escreveu. Mais tarde, em 2018, o Manchester City convocou o seu médico para falar com o plantel sobre os riscos do produto.

A PFA reconheceu em 2023 a dimensão da questão. “Através das nossas conversas com jogadores e clubes, temos consciência de que há um aumento no uso de snus na modalidade. Queremos usar investigação como esta para compreender melhor essa tendência, as motivações dos jogadores e o grau de consciência que têm sobre os riscos. Podemos depois usar esse conhecimento para garantir que os nossos membros estão cientes dos impactos negativos que podem estar associados ao uso de snus“, disse Michael Bennett, responsável pelo bem-estar dos jogadores da PFA, à Sky News.

As razões do consumo são maioritariamente recreativas. Lee Johnson, antigo treinador do Sunderland, foi mais longe na sua crítica: “É tão viciante que passa para o primeiro plano da nossa mente, o que se torna perigoso. Estás a mexer com o equilíbrio do corpo e da mente — esse é, para mim, o maior problema”, disse ao talkSPORT. “Já faz quase parte do kit básico de um futebolista – estão na bolsa de higiene”, acrescentou.

A WADA (Agência Mundial de Antidopagem) não proíbe o snus como substância dopante, embora a nicotina esteja no programa de monitorização da organização para uso em competição.

Nem toda a gente chegou ao produto dentro de um balneário. O antigo avançado inglês Gary Lineker experimentou-o numa noite antes da abertura do Euro 2020, depois de alguns copos e de ter aceite uma versão descrita como “fraca”. O que se seguiu foram sete horas que o apresentador do Match of the Day descreveu no podcast The Rest is Football como “tortura absoluta”.

“Tirei a coisa imediatamente da boca e atirei-a para o lixo. Comecei a suar, mas estava cheio de frio”, contou. Lineker recuperou a tempo de apresentar o jogo de abertura — mas nunca mais experimentou.

https://twitter.com/RestIsFootball/status/1722303791746191711

Os jogadores relatam que usam snus e cápsulas de nicotina sobretudo para relaxar e conviver com os colegas, e a maioria não reporta qualquer benefício ao nível do desempenho desportivo — embora alguns refiram uma melhoria na preparação mental. Do ponto de vista da saúde, os riscos existem: o snus com tabaco está associado a cancro oral e doenças periodontais em uso prolongado, embora as cápsulas sem tabaco — como a VELO — apresentem um perfil de risco diferente.