França registou esta terça-feira o dia mais quente desde que existem registos meteorológicos. Em Pissos, no sudoeste do país, os termómetros chegaram aos 44,3ºC, num episódio que levou as autoridades francesas a encerrar escolas, limitar atividades ao ar livre e ativar alertas de saúde pública. Do outro lado do Canal da Mancha, o Reino Unido registou 35,8ºC em West Sussex, estabelecendo um novo recorde nacional para um dia de junho e ultrapassando marcas que resistiam desde 1957 e 1976. Portugal escapou ao núcleo mais extremo desta cúpula de calor que se instalou sobre a Europa Ocidental. Ainda assim, várias regiões ultrapassaram os 40ºC, curiosamente na zona de Trás-os-Montes, e o país enfrentou vários dias de calor sucessivos, ainda que menos quentes do que na vaga de calor de maio.
Mas para os cientistas, a questão mais importante já não é constatar como esta onda de calor é excecional. É perceber porque é que estes episódios estão a tornar-se cada vez mais frequentes, mais demorados e mais quentes. A resposta surge repetidamente nos relatórios científicos mais recentes: a Europa é hoje o continente que aquece mais depressa em todo o planeta. Segundo o mais recente relatório sobre o Estado do Clima na Europa, elaborado pelo Copernicus e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), a temperatura do continente europeu aumentou aproximadamente duas vezes mais depressa do que a média global desde a década de 1980.
A Europa encontra-se atualmente cerca de 2,4ºC acima dos níveis pré-industriais, enquanto o aquecimento médio global ronda os 1,3ºC. O relatório da OMM conclui ainda que 2024 foi o ano mais quente na Europa, mas esse não foi apenas mais um novo recorde anual. Porque o continente registou também um dos maiores números de dias de stresse térmico desde que existem observações, um número excecionalmente elevado de noites tropicais e sucessivos recordes de temperatura do mar.

A secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial, Celeste Saulo, resumiu a situação de forma simples: “As consequências das alterações climáticas são cada vez mais evidentes na Europa.”
O Mediterrâneo está a transformar-se num ponto quente climático
Uma das conclusões mais preocupantes do relatório (publicado em 2025, mas referente a 2024 — ainda não existe deste ano) está, mais do que em terra, no mar. Em 2024, a temperatura média da superfície do Mediterrâneo atingiu o valor mais elevado desde que existem observações sistemáticas. Os dados mostram que o Mediterrâneo aqueceu cerca de 1,3ºC desde os anos 80, mais do dobro da subida média observada nos oceanos globais, que é de cerca de 0,6ºC.
Ora as águas mais quentes fornecem energia adicional à atmosfera, dificultam o arrefecimento noturno, aumentam a humidade disponível e potenciam fenómenos extremos, desde tempestades intensas (como a Kristin e outras) a períodos de calor persistente (como os que estamos a ter).
Também a região marítima europeia, no seu conjunto, registou um aumento próximo de 1ºC desde os anos 80.
O relatório europeu do Copernicus mostra ainda que algumas regiões já estão a viver situações que há poucas décadas seriam consideradas excecionais. No sudeste da Europa, 43 dos 97 dias compreendidos entre junho e setembro foram classificados como dias de onda de calor. Foi a mais longa sequência de calor extremo naquela região.
Ao mesmo tempo, o número de noites tropicais — quando a temperatura mínima não desce dos 20ºC — atingiu valores próximos dos máximos históricos em várias zonas do continente, com 23 temperaturas mínimas recorde. E as noites quentes preocupam particularmente os especialistas porque impedem o corpo humano de recuperar do stresse térmico acumulado durante o dia.
Por tudo isto, perante a atual vaga de calor, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, deixou um aviso pouco habitual. “Não pode haver mais atrasos na ação climática”, escreveu na rede social X. Segundo a OMS, o calor provocou mais de 200 mil mortes na Europa apenas nos últimos quatro anos. A organização estima ainda que a mortalidade associada ao calor tenha aumentado cerca de 30% nas últimas duas décadas.
https://twitter.com/DrTedros/status/2069698793935720897
Para Tedros Adhanom Ghebreyesus, os governos devem preparar-se para uma realidade em que o calor extremo deixa de ser uma exceção meteorológica. “Os líderes devem dar prioridade ao investimento em sistemas de saúde resilientes ao clima.” A OMS pede mais sombra nas cidades, mais acesso à água, acompanhamento das populações vulneráveis e sistemas de saúde preparados para responder antes de as temperaturas atingirem valores extremos. Numa das mensagens mais fortes divulgadas esta semana, a organização escreveu: “O calor deixou de ser apenas uma história sobre o tempo. É uma emergência de saúde.”
O problema não é apenas o calor
Outra investigação divulgada esta semana pela organização Climate Central concluiu que os dias de calor húmido perigoso mais do que duplicaram no mundo desde a década de 1970. A média passou de cerca de dez dias por ano para 23 dias por ano.
O fenómeno ocorre quando temperaturas elevadas se combinam com humidade elevada, dificultando a evaporação do suor e reduzindo a capacidade natural de arrefecimento do corpo humano. Segundo os investigadores, as alterações climáticas provocadas pela atividade humana são atualmente responsáveis por quase dois terços destes episódios. O relatório alerta que dias aparentemente suportáveis podem tornar-se perigosos quando a humidade aumenta, elevando o risco de desidratação, problemas cardiovasculares, exaustão térmica e insolação.
A Climate Central estima que o calor extremo tenha provocado mais de 250 mil mortes em todo o mundo desde o ano 2000.
Os recordes registados esta semana em França e no Reino Unido não significam que todas as ondas de calor sejam consequência direta das alterações climáticas. Mas os cientistas são claros ao afirmar que o aquecimento global está a aumentar a frequência, a intensidade e a duração destes episódios. A Europa aquece mais depressa do que qualquer outro continente. O Mediterrâneo está a bater recordes de temperatura. As ondas de calor tornam-se mais frequentes. As noites tropicais multiplicam-se. E as mortes associadas ao calor continuam a aumentar.
É por isso que os especialistas olham para os 44,3ºC registados em França ou para os 35,8ºC do Reino Unido não apenas como recordes meteorológicos, mas como sinais de uma transformação climática em curso com grandes repercussões na saúde.