(c) 2023 am|dev

(A) :: A inovação no cancro está a avançar rapidamente. Portugal está pronto?

A inovação no cancro está a avançar rapidamente. Portugal está pronto?

A inovação, por si só, não melhora os resultados. Só o faz quando os países e os hospitais estão preparados para a receber.

Mourad Aboubakr
text

Há algumas semanas, na ASCO, a maior conferência mundial de oncologia, os médicos aplaudiram de pé a ciência. O aplauso foi real e a razão também. O tratamento do cancro está a avançar mais rapidamente do que em qualquer outro momento das nossas vidas.

Estamos a sair da era da medicina em que “o medicamento é igual para todos” para dar lugar a uma nova geração de terapêuticas, precisas, personalizadas e direcionadas. As terapêuticas com radioligandos (RLT) são um dos exemplos mais claros. Unem diagnóstico e tratamento numa só lógica: ver e tratar utilizando tecnologia avançada de imagiologia para identificar células tumorais e, em seguida, administrar radiação diretamente nessas células, destruindo-as a partir do interior.

Este não é um passo incremental, é uma mudança de paradigma. E apenas o início: estão em curso, a nível mundial, mais de 300 ensaios clínicos com radiofármacos, com indicações para múltiplos tipos de cancro.

Mas a inovação, por si só, não melhora os resultados. Só o faz quando os países e os hospitais estão preparados para a receber.

É aqui que Portugal, tal como grande parte da Europa, enfrenta um verdadeiro desafio. De acordo com o EFPIA WAIT Indicator 2025, os doentes portugueses aguardam, em média, mais de dois anos entre a aprovação europeia de um medicamento e a sua disponibilização efetiva. Estes atrasos não resultam da responsabilidade de um único interveniente: refletem a dificuldade natural de alinhar aspetos regulamentares, clínicos, organizacionais e financeiros num sistema que não foi originalmente desenhado para terapêuticas desta complexidade. O objetivo não é atribuir culpas, mas reconhecer que o próprio modelo precisa de evoluir, em conjunto.

As terapêuticas com radioligandos tornam esta realidade particularmente evidente. Estas terapêuticas não podem simplesmente ser incluídas no formulário de um hospital, isso depende de um verdadeiro ecossistema: capacidade em medicina nuclear, diagnóstico avançado, infraestruturas de radiofarmácia, equipas multidisciplinares, especialistas formados e circuitos de referenciação bem coordenados. Isto exige investimento em pessoas, infraestruturas e percursos assistenciais, antes da vaga de inovação chegar e não depois. Caso contrário, corremos o risco de uma “Europa a duas velocidades”: países onde os doentes acedem rapidamente a terapêuticas avançadas e outros onde esperam, não porque a ciência não exista, mas porque o sistema não está preparado para a integrar.

Portugal tem os ingredientes para fazer diferente: profissionais e instituições científicas de excelência, um SNS que já demonstrou capacidade quando os vários intervenientes se alinham em torno de um objetivo comum. O que precisamos agora é de antecipação partilhada: reguladores, financiadores, hospitais, clínicos, associações de doentes e indústria a trabalharem em conjunto, desde cedo, para desenhar os caminhos através dos quais a inovação chegará aos doentes.

A indústria tem aqui um papel e uma responsabilidade claros. Para além de entregar inovação, deve gerar evidência em vida real, apoiar a formação de profissionais, promover o diálogo multidisciplinar e colaborar de forma aberta com o sistema de saúde na construção de soluções. Na Novartis, vemos isto como parte do nosso compromisso de longo prazo com Portugal, não como uma transação, mas como uma parceria.

A questão já não é se a inovação vai chegar. Vai. A verdadeira questão é se seremos capazes de construir as condições para que essa inovação chegue atempadamente aos doentes.

A ciência continuará a merecer ovações de pé. Mas o aplauso só faz sentido quando a inovação chegar a quem dela precisa. Transformar inovação em acesso é, mais do que nunca, uma responsabilidade e, acima de tudo, uma oportunidade partilhada.