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Novo estudo revela que cachalotes do Mediterrâneo têm "dialetos" diferentes conforme a região

Análise de quase duas décadas de gravações revelou diferenças nas vocalizações de cachalotes do Mediterrâneo oriental e ocidental. Animais apenas interagem com outros que pertençam ao mesmo clã vocal.

Margarida Vieira dos Santos
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Um novo estudo científico, publicado na revista Proceedings of the Royal Society B, concluiu que os cachalotes apresentam variações regionais nas suas vocalizações, semelhantes aos dialetos observados nas línguas humanas. As diferenças foram identificadas entre grupos que vivem nas bacias ocidental e oriental do Mar Mediterrâneo, sugerindo que estas populações desenvolvem tradições acústicas próprias ao longo do tempo.

Os cachalotes utilizam sequências de cliques curtos, conhecidas como codas, para comunicarem entre si, sendo que a estrutura rítmica destas sequências pode variar entre diferentes grupos sociais, originando aquilo que os investigadores descrevem como “dialetos vocais”. Estes animais organizam-se em grupos matriarcais e cada grupo tende a partilhar um dialeto próprio, sendo que os indivíduos apenas interagem socialmente com outros que pertencem ao mesmo “clã vocal”.

“O dialeto é utilizado para formar estruturas sociais, dentro das quais estes animais cooperam”, afirmou Luke Rendell, um dos autores do novo estudo, estabelecendo ainda um paralelo com a forma como os humanos tendem a sentir-se mais à vontade para iniciar uma conversa com alguém que soa de forma semelhante, relata o The Guardian.

A equipa de investigação analisou gravações, feitas através de hidrofones, recolhidas entre 2003 e 2021, na Fossa Helénica, perto da Grécia, no Mediterrâneo oriental, e em redor das ilhas Baleares, na costa de Espanha, na bacia ocidental.

Os resultados revelaram que, embora a maioria das codas seja composta por quatro cliques em ambas as regiões, existem diferenças significativas no seu ritmo. No Mediterrâneo ocidental predomina um padrão conhecido como 3+1, com três cliques espaçados seguidos de uma pausa e um quarto clique. Já no Mediterrâneo oriental, os cachalotes tendem a utilizar uma versão mais rápida do mesmo padrão.

Apesar destas diferenças, os investigadores observaram alguma sobreposição entre os grupos, com indivíduos do leste ocasionalmente a usar o dialeto típico do oeste. Segundo Luke Rendell, estes padrões sugerem que os cachalotes terão inicialmente ocupado a bacia ocidental do Mediterrâneo, expandindo-se posteriormente para leste, onde o dialeto terá evoluído e acelerado ao longo do tempo. “As baleias do leste lembram-se dos costumes antigos, mas estão a adaptar-se e desenvolveram uma versão ligeiramente diferente do que é claramente o mesmo [tipo geral de coda], mas evoluíram-na um pouco; modificaram-na”, disse, citado pelo The Guardian.

Rendell acrescentou ainda que os resultados do estudo mostraram que o processo de formação dos dialetos é lento, mas também que requer um certo nível de isolamento entre as populações. “Este é o primeiro exemplo que temos em que podemos olhar para um instantâneo e pensar: ‘Ah, isto parece estar a dizer-nos como surgem novos dialetos’”.

Os cientistas, segundo o jornal britânico, sabiam que existiam diferentes dialetos, mas nunca tinham compreendido a sua origem “nem tido quaisquer pistas, vendo aqui como um grupo de cachalotes que se separou de uma população principal começou agora a mudar também o seu dialeto”.