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Quando o resultado não corresponde ao esforço: o lado invisível dos exames (e da ansiedade)

Os exames avaliam desempenho num momento específico, sob pressão. E isso introduz uma variável emocional que não pode ser ignorada.

Mafalda Leitão
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Começou a fase dos exames nacionais do ensino secundário e, com ela, inicia-se também um período de elevada exigência emocional para muitos estudantes. É um momento em que se acumulam ansiedade, expetativas, pressões (internas e externas), e a sensação de que “tudo conta” parece ganhar ainda mais peso. E, inevitavelmente, surge uma questão: o que acontece quando o resultado não corresponde ao esforço investido?

Há um grupo de estudantes que merece particular atenção: os estudantes que estudam muito, mas que não conseguem alcançar os resultados esperados. Permitam-me que vos conte uma história.

Chegou-me uma vez à consulta uma jovem, vamos chamar-lhe Maria, que estudava incessantemente sem conseguir melhorar as notas. Com o tempo, percebemos que não estudava apenas muito: estudava em excesso, de forma desorganizada e sob níveis elevados de ansiedade. Achava que se não estudasse assim, não iria ter boas notas e, consequentemente, não iria para o curso que queria. O estudo tinha deixado de ser uma ferramenta de aprendizagem para se tornar uma fonte de stress constante.

Passava horas intermináveis sentada à secretária, muitas vezes até às quatro da manhã, e no dia seguinte repetia o mesmo padrão. Não descansava adequadamente, alimentava-se mal e não tinha pausas estruturadas. Com o tempo,  começou a acreditar que “não era capaz” e que “nunca seria suficiente” para entrar no curso que queria. Mas o problema não era falta de capacidade: era excesso de pressão, falta de descanso e uma ansiedade que bloqueava a aprendizagem.

O que se observava era simples do ponto de vista psicológico: quando o nível de stress/ansiedade ultrapassa um determinado limiar, o cérebro deixa de conseguir consolidar informação de forma eficaz. A atenção diminui, a memória de trabalho fica comprometida e a retenção do conteúdo torna-se muito mais difícil. Ou seja, quanto mais ela estudava naquele estado, menos aprendia, e mais frustrada se sentia, a achar que o problema era dela e não do comportamento em si.

Quando reorganizámos a rotina, com horários equilibrados, pausas, sono adequado, caminhadas e estratégias de estudo mais eficazes, algo mudou. À medida que a ansiedade diminuiu, a concentração aumentou. Progressivamente, surgiram melhores resultados e maior confiança.

Esta é a história da Maria, mas pode ser a história de muitas outras “Marias”. Recentemente, o Observatório de Saúde Psicológica e Bem-Estar elaborou o relatório “Saúde psicológica e bem-estar”, salientando que cada 4 em cada 10 alunos (42,7%) ficam muito tensos quando estudam para um teste, e que cerca de um terço dos alunos experiencia indicadores de sofrimento psicológico, incluindo ansiedade perante avaliações, com maior intensidade nos alunos do 12.º ano.

Este relatório refere também que os estudantes com mais competências socioemocionais (como por exemplo, otimismo, confiança, sociabilidade, autocontrolo/ autorregulação) têm menos ansiedade nos testes, maior satisfação com a vida e menos sintomas de mal-estar psicológico.

Isto mostra algo fundamental: muitas vezes não é o conhecimento que falha, mas sim o contexto psicológico em que esse conhecimento tem de ser mobilizado. Os exames avaliam desempenho num momento específico, sob pressão. E isso introduz uma variável emocional que não pode ser ignorada.

Neste sentido, importa cuidar da forma como se estuda: manter horários de sono consistentes, estruturar pausas, recorrer a métodos ativos de aprendizagem (como exercícios, esquemas, resumos, ou ainda o uso de ferramentas como a inteligência artificial de forma crítica e orientada) e incluir atividade física regular.

E talvez seja essencial reforçar uma ideia: um exame é uma medida de desempenho num momento específico, não uma medida do valor, da inteligência ou do potencial de uma pessoa.

Que venham os exames! Que venha o esforço! E que venha também a serenidade de perceber que a vida não se esgota num resultado!