Há duas medicinas.
Uma aprende-se na faculdade. A outra aprende-se em todo o lado.
A primeira exige anos de estudo, internato, exames, congressos e formação contínua.
A segunda não exige absolutamente nada.
Basta uma opinião, uma experiência pessoal e uma confiança inabalável.
É graças a ela que sabemos que as infeções urinárias se apanham nas casas de banho públicas.
A bactéria pode chamar-se Escherichia coli, mas nós preferimos acreditar que a verdadeira culpada é a tampa da sanita do centro comercial.
E, de vez em quando, aparece sempre alguém que leva a teoria um pouco mais longe e garante que quase saiu de lá grávida.
Confesso que tenho alguma admiração por esse hipotético espermatozoide. Sobrevive semanas escondido atrás do autoclismo, alimenta-se de esperança e humidade e aguarda pacientemente a próxima utilizadora. Darwin ficaria impressionado.
Mas a outra medicina vai muito além das casas de banho.
A gripe não é causada por vírus.
É causada por uma corrente de ar.
Os vírus passam o ano inteiro a circular entre nós, mas só se tornam verdadeiramente perigosos quando saímos de casa com o cabelo molhado.
Depois existe a febre interior.
Como médica, devo confessar que nunca a encontrei em nenhum livro, congresso ou artigo científico.
Não aparece no termómetro, nas análises nem na literatura médica.
Mas aparece em praticamente todas as famílias portuguesas.
Há sempre uma avó, uma vizinha ou um colega de trabalho capaz de a diagnosticar em menos de trinta segundos.
E depois há o endireita.
Uma personagem quase mítica que resolve dores nas costas, hérnias, ciáticas, ombros, joelhos e, se o dia correr bem, talvez até uma crise existencial.
A medicina fala em anatomia, fisiologia e reabilitação.
O endireita limita-se a dizer que “isto está fora do sítio”.
Estranhamente, parece uma explicação muito mais satisfatória.
Nos últimos anos surgiu, porém, um concorrente ainda mais poderoso.
O Dr. Google.
É o único médico capaz de fazer um diagnóstico em menos de quatro minutos.
Uma dor de cabeça transforma-se num tumor cerebral.
Um tremor na pálpebra anuncia uma doença neurológica raríssima.
Uma picada de mosquito faz-nos ponderar se não teremos contraído uma infeção tropical descrita apenas numa obscura revista científica de 1987.
Quando finalmente chegamos à consulta, muitas vezes já não procuramos uma resposta.
Procuramos apenas confirmação.
E é precisamente isso que torna a outra medicina tão fascinante.
Ela dá-nos aquilo de que mais gostamos: explicações simples para problemas complicados.
É mais confortável culpar uma corrente de ar do que um vírus invisível.
Mais tranquilizador culpar a sanita pública do que aceitar que, por vezes, as infeções simplesmente acontecem.
Mais reconfortante acreditar que alguém vai “endireitar” aquilo que a vida foi desalinhando aos poucos.
No fundo, todos gostamos de acreditar que o mundo é um bocadinho mais simples do que realmente é.
Mesmo nós, médicos.
Só que, enquanto a medicina aprende a conviver com a dúvida, a outra medicina vive da certeza.
E poucas coisas são tão sedutoras como alguém que tem sempre resposta para tudo.
Mesmo quando está completamente errado.