Para o Mundial de 2026, a Adidas criou a Trionda, um modelo de bola que carrega três anos e meio de trabalho intensivo e cerca de 300 testes de laboratório. Desenvolvida em colaboração com a Universidade de Loughborough, em Inglaterra, esta nova versão destaca-se por ter sofrido uma verdadeira revolução estrutural.
Composta por apenas quatro painéis colados termicamente — os blocos cosidos que compõem a bola –, a Trionda apresenta o menor número de painéis alguma vez utilizado no torneio, sendo cinco vezes inferior aos vinte painéis que constituíam a Al Rihla no Qatar, em 2022.

Além disso, a Trionda, como a bola de 2022, traz uma forte componente tecnológica ao conter um chip interno que ajuda a equipa de arbitragem nas decisões semiautomatizadas de fora de jogo e na determinação exata de quem deu o último toque na bola. A nível de materiais, a sua camada exterior é feita de poliuretano e a interior é composta por uma mistura predominantemente de poliéster, que envolve a câmara de ar responsável pela insuflação.
A engenharia por trás das bolas de futebol sofreu uma transformação radical nas últimas cinco décadas. O professor Andy Harland, que analisa as bolas da Adidas desde o Mundial de 2002, recordou o modelo Telstar do Mundial de 1970, no México, feito manualmente de couro, levando horas a ser fabricado. “Tínhamos, na altura, a bola costurada à mão de 32 painéis mais avançada do mundo a nível de elite. (…) Ainda hoje encontro pessoas que dizem que era a sua bola favorita”, contou Harland, citado pelo The Athletic. Doze dos pentágonos eram escuros e foram concebidos especificamente para que o público que assistia à televisão, ainda a preto e branco, conseguisse ver o efeito de rotação.
A grande rutura no fabrico aconteceu no Euro 2004 com a bola Roteiro, a primeira a abandonar as costuras manuais para introduzir a colagem térmica. Esta técnica aplica os painéis diretamente colados a uma carcaça interior tecida em redor da câmara de ar.

Segundo Harland, a decisão da Adidas de reduzir drasticamente o design da Trionda para apenas quatro painéis prende-se com fatores industriais e económicos. “Em geral, um número menor de painéis reduz os custos de montagem”, afirmou. Com uma produção mais direta, alcança-se uma fiabilidade e um controlo de qualidade muito superiores, garantindo que todas as bolas utilizadas no torneio sejam rigorosamente idênticas entre si, ao contrário do que acontecia na época das bolas feitas à mão, que apresentavam grandes discrepâncias.
Um dos desafios mais complexos no desenvolvimento da Trionda foi a própria geografia do Mundial de 2026, uma vez que o torneio conta com partidas disputadas tanto ao nível do mar como em altitudes extremas. Um exemplo disso é o Estádio Azteca, no México, situado a 2.200 metros de altitude. Neste local, a menor densidade do ar faz com que a bola sofra menos resistência, voando de forma mais retilínea e curvando muito menos quando pontapeada com efeito.
Esta física particular faz recordar as polémicas do Mundial de 2010, na África do Sul, onde a bola Jabulani dominou as manchetes dos jornais devido ao seu comportamento errático e imprevisível. O professor Harland esclareceu que a Jabulani foi pioneira na introdução de ranhuras nos painéis, mas que o seu grande problema residia no facto de ser demasiado lisa, o que gerava uma enorme instabilidade e oscilação em pleno voo. “É necessário um certo grau do que chamaríamos de rugosidade, o que o público geral reconheceria como costuras”, explicou.

Para afastar qualquer receio de um cenário semelhante ao da Jabulani, a Adidas anunciou que desenhou a Trionda com costuras intencionalmente profundas e linhas estrategicamente posicionadas. Além disso, os designers Solene Stoermann e Hannes Schaefke disseram à VERSUS que testaram a bola em sete das 16 cidades-sede do torneio para verificar a sua versatilidade.
Apesar da notoriedade tecnológica da bola, o seu simbolismo vai muito além da aerodinâmica de vanguarda. O nome Trionda traduz-se do espanhol como “três ondas”, uma escolha que, juntamente com o seu design inovador, celebra a junção histórica de três países para organizar o Mundial. Visualmente, a bola exibe um esquema de cores vibrante em vermelho, verde e azul com uma folha de ácer pelo Canadá, uma águia pelo México e uma estrela pelos EUA, como descreveu a FIFA.
Andy Harland assegura que a Trionda superou todos os ensaios sem apresentar quaisquer anomalias, definindo-a como uma evolução natural de todas as aprendizagens acumuladas pela ciência desportiva. O torneio de 2026 dita assim o início de uma nova era, onde a aerodinâmica e a pureza do talento humano se unem para ditar o destino dos novos campeões do mundo.