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1622, Annus horribilis: Ormuz e outras perdas

No tempo de Vieira, o período áureo luso no Oriente era já passado: “Os títulos de Senhores da Conquista, Navegação, e Comércio, mais dizem o que éramos, do que o que somos”.

Porfírio Pinto
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Na história da expansão portuguesa, o ano de 1622 constitui verdadeiramente um annus horribilis. António da Silva Rego, em estudo de 1977, designa-o como o “ano dramático” na história da expansão. Com efeito, nesse ano ocorreram três episódios marcantes da história nacional: a 12 de maio, a perda de Ormuz para os persas (com apoio inglês); a 22 de junho, o ataque holandês a Macau, que se saldou, felizmente, numa vitória portuguesa em dia de S. João; e, a 10 de setembro, o famigerado “Grande Martírio de Nagasáqui”. Estes três acontecimentos vieram pôr em causa a presença portuguesa no Oriente nas suas duas dimensões fundamentais: a económica e a religiosa.

O mencionado texto de Silva Rego foi elaborado no contexto da edição dos Documentos Remetidos da Índia ou Livros das Monções, dando continuidade à iniciativa de Raimundo António de Bulhão Pato, que, no final do século xix, já havia publicado cinco tomos. Nesta documentação, em duas cartas de fevereiro de 1622, o governador do Estado da Índia, Fernão de Albuquerque, dá conta da presença de naus estrangeiras na região de Surate e da crescente pressão sobre Ormuz (carta de 15 de fevereiro), bem como de notícias provenientes de Macau, onde também se refere que aqueles mares se encontravam infestados de navios inimigos (carta de 18 de fevereiro). Para seu desespero, o que escasseava eram as naus portuguesas.

Desde o início do século xvii, ingleses e holandeses – então em guerra contra a Monarquia Hispânica – moviam-se com grande liberdade nos mares orientais, procurando apropriar-se do comércio até aí dominado pelos portugueses. Os holandeses – da Companhia Holandesa das Índias Orientais (a VOC), criada em 1602 – tentaram, por várias vezes, tomar Macau (em 1601, 1603 e 1607), estabelecendo posteriormente a sua base em Amboíno, conquistada em 1605, e na Batávia (atual Jacarta), tomada em 1619. Os ingleses – da Companhia das Índias Orientais (a EIC), criada em 1600 – frequentavam as costas indianas e, desde 1614, dispunham de uma base em Jasques, à beira do estreito de Ormuz.

Ruínas do forte fundado pelos portugueses em Ormuz.

A perda do estreito de Ormuz resultou, em parte, de uma imprudência do capitão Rui Freire de Andrade. Enviado ao Oriente para combater os ingleses, levava ordens do rei para, após a sua derrota, erguer uma fortaleza na ilha de Queixome, em frente de Ormuz, sendo-lhe expressamente recomendado que evitasse qualquer hostilidade contra as autoridades persas. O experiente capitão D. Francisco de Sousa, governador da fortaleza de Ormuz, opôs-se a tal instrução, receando que a sua execução desencadeasse um conflito com os persas. Apesar disso, com o apoio do rei de Ormuz, Rui Freire de Andrade ocupou Queixome sem resistência. Confirmaram-se, porém, os receios de D. Francisco de Sousa: os persas, com o auxílio inglês, atacaram a ilha em fevereiro e cercaram Ormuz, que capitulou a 12 de maio. Perdia-se assim o primeiro grande ponto estratégico do Estado da Índia. Embora o comércio português no Golfo Pérsico viesse a ser retomado algum tempo depois, já não era controlado pelos portugueses. Mais grave ainda, menos de vinte anos depois, em 1641, também se perderia – o outro grande ponto estratégico – para os holandeses.

No mesmo ano, os holandeses, precisamente, voltaram a tentar a conquista de Macau, com o objetivo de controlar o comércio com a China, ainda largamente monopolizado pelos portugueses, sobretudo na ligação sino-japonesa. Na década anterior, holandeses e ingleses já tinham estabelecido feitorias no porto japonês de Hirado, comercializando com o sudeste asiático e com a Indonésia. Ainda assim, os holandeses ambicionavam mais. A 22 de junho de 1622, aproximaram-se de Macau e iniciaram um persistente duelo de artilharia com o forte de São Francisco, desembarcando apenas no dia 24. As forças portuguesas eram extremamente reduzidas: cerca de cinquenta mosqueteiros e uma centena de residentes armados! Foi sobretudo a capacidade de luta dos escravos africanos que salvou a cidade. No rescaldo da vitória, e em reconhecimento pela sua coragem, os seus senhores concederam-lhes liberdade imediata. Apesar deste sucesso, os holandeses lograriam, poucos anos depois, conquistar a confiança das autoridades japonesas, substituindo-se aos portugueses a partir de 1638, quando estes foram proibidos de regressar ao Japão.

No arquipélago nipónico, o cristianismo encontrava-se proibido desde 1614 pelos governantes Tokugawa. Todavia, apesar da perseguição, a cristandade continuava a expandir-se. A 10 de setembro de 1622, as autoridades decidiram criar um acontecimento exemplar que intimidasse a população e desencorajasse novas conversões: cinquenta e cinco pessoas – missionários estrangeiros e cristãos japoneses – foram executadas em Nagasáqui, algumas decapitadas, outras queimadas, perante milhares de testemunhas. O valor simbólico deste “grande martírio”, como sublinhou Silva Rego, reside no facto de constituir um prenúncio da progressiva extinção do cristianismo no Japão. Do ponto de vista da evangelização portuguesa, o Japão, a par da China, figurava entre os territórios promissores do Padroado. A perda desta cristandade foi um duro golpe não apenas para o Padroado, mas para toda a Igreja, como evidenciam as primeiras iniciativas da recém-criada Congregação da Propaganda Fide.

Colectânea de sermões do Padre António Vieira, Xavier dormindo, e Xavier acordado.

Num notável conjunto de sermões redigidos a pedido da rainha D. Maria Sofia Isabel, consorte de D. Pedro II, reunidos sob o título Xavier dormindo, e Xavier acordado (1694), o Padre António Vieira ecoa estas realidades. Evoca o período áureo do “império” luso no Oriente, no qual Francisco Xavier atuou como grande “Apóstolo do Oriente”, quando “os Portugueses éramos Senhores daqueles mares”. O domínio dos mares constituía, de facto, a pedra angular do Estado da Índia edificado pelo grande Afonso de Albuquerque. Contudo, no tempo de Vieira, essa realidade era já passado: “Os títulos de Senhores da Conquista, Navegação, e Comércio, mais dizem o que éramos, do que o que somos”. Essa perda deve-se, em parte, “[à] heresia, e pirataria do Norte” – referência a ingleses e holandeses – que infestou esses mares orientais. Mas só em parte. Para Vieira, há motivos mais importantes que explicam a transferência do “império” de um povo a outro. São eles: as injustiças no governo das conquistas, as injúrias no trato com o próximo, as calúnias dos mais valorosos em detrimento do favorecimento de oportunistas e, enfim, os dolos nos acontecimentos mais diversos (na paz e na guerra, nas promessas, nas obrigações, nas alianças, nos socorros, etc.). Claro está, o jesuíta inspira-se num trecho do livro de Ben Sira, atualizando-o na história recente de Portugal. É certamente uma expressão da exegese nacionalista vieiriana, de que falava Margarida Vieira Mendes, mas é sobretudo uma defesa do ideal de moralidade política à maneira erasmiana. Mais importante do que encontrar causas externas, é preciso refletir nos comportamentos próprios.

[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]