Todos temos pelo menos um amigo populista: é aquele que, em viagem, acha que sabe o caminho. Nunca esteve naquele sítio, ou então não vai lá desde que é ele a pagar a conta, mas está convencido de que sabe, intuitivamente, ir do ponto A ao ponto B. Sabe porque sabe, porque sim, porque tem um grande “sentido de orientação”. Recusa olhar para um mapa, um GPS, um guia – genericamente, abrir um livro – acha que é por ali e pronto.
Quando se espantar com o sucesso galopante que os populistas conhecem hoje por todo o mundo ocidental, lembre-se de que você mesmo já foi, durante alguns quarteirões, atrás deste amigo. Porquê? Porque ele parecia mesmo saber para onde ia. Falava com imensa convicção. Tinha, provavelmente, “carisma” (ao contrário daquele outro que sabia o guia de cor e salteado e até já tinha vivido no sítio, mas que era tímido como um pangolim). O populista nunca esteve nesta cidade nem neste tempo políticos, não faz ideia de como chegar ao destino, mas, depois de se desculpar com o vento, a chuva, o autocarro, a placa, a língua, a obra, a semelhança, a diferença, o que quer que o tenha sucessivamente induzido em erro, há-de simplesmente dizer, quando tiverem enfim chegado aonde queriam, três horas depois, numa distância que poderiam ter percorrido em 15 minutos: “Eu não disse que era por aqui?”
O populista não é a causa dos nossos problemas; é a consequência. Numa Europa que já não tem as pessoas, nem a tecnologia, nem a energia, nem sequer as armas, para manter, quanto mais melhorar, o estilo de vida com que fez inveja ao mundo durante séculos, o populista é, simplesmente, o tipo que acha que sabe o caminho. Não admira, portanto, que esse caminho seja voltar ao passado, com os olhos postos no futuro. Recuperar as tradições, sem esquecer a inovação. Defender a lei do mais forte e proteger os mais fracos. Mudar tudo sem romper com coisa nenhuma. Ser a nova direita com os votos da esquerda. Descobrir como ser grande outra vez, agora como novo herói da classe operária.
O populista é o comunista sem o mesmo jeito para a música. A utopia que vende não é muito diferente daquela URSS que era o Sol da Terra, com a diferença de que esta ainda nem vem no mapa. Quer um país mais produtivo trabalhando menos anos, menos dias por ano e menos horas por dia. Horas essas mais bem pagas e tributadas com menos impostos. Isto enquanto corre com os imigrantes, que já pagam um quinto dessas reformas que o populista quer aumentar, e elogia os nossos emigrantes, porque esses sim, por graça divina, vão lá para fora para trabalhar. O populista parece mauzão, mas é o mais lírico dos líricos. Quer sol na eira e chuva no nabal. Sonha com fadas e unicórnios – e o regresso a um paraíso perdido na infância. Quem nunca? Ele não quer a ditadura; quer um milagre. Se, um dia destes, se cruzar na internet com um folheto do Maio de 68, vai achar aquilo uma maravilha – “Sejamos realistas: exijamos o impossível!” Bem dito, camarada.
O populista, portanto, só quer ser amado. Cortar a direito não mudando coisa alguma. Dar o murro na mesa sem desagradar a ninguém. Acha que paga isto tudo poupando uns trocos em subsídios e apoios sociais, que só aumentariam a fome, a miséria nas ruas, as necessidades de assistência, no limite, a insegurança. Mas, no fim, ele nunca estará errado. Tal como o nosso amigo que acha que sabe o caminho para um lugar aonde nunca foi, a partir de certo momento, o que o move já não é qualquer convicção; é a vaidade de estar a ser seguido. É ver a turba na bancada à espera para saber se é para se levantar ou não… O grande timoneiro é um catavento – mas vejam com que força gira! Com que velocidade! Com que astúcia!
Que culpa tem ele? Praticamente nenhuma. Os problemas que aponta estão aí, são reais – ele, simplesmente, não tem solução alguma. Que o centro se deixe encurralar pelos dois lados por isto é que já é um pouco mais exasperante.