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(A) :: A crise ucraniano‑polaca em torno do passado pode tornar‑se um problema sério para o futuro da Europa

A crise ucraniano‑polaca em torno do passado pode tornar‑se um problema sério para o futuro da Europa

Porque deicidu agora o Presidente da Polónia apresentar aos ucranianos exigências que visam humilhar a sua dignidade?

Pavlo Sadokha
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Em 2023, o então diretor  do Instituto da Memória Nacional da Polónia declarava:«Reconheço que os ucranianos têm o direito de escolher os seus próprios heróis. Se para eles o herói é Stepan Bandera ou Roman Shukhevych, então os polacos não escolherão os nomes  das ruas ucranianas.»
O que é que mudou hoje? Mudou o facto de Karol Nawrocki se ter tornado presidente do país.

Ao longo de mais de um milénio de história das relações polaco‑ucranianas, os dois povos vizinhos viveram muitos momentos dolorosos e muitos momentos de amizade. Guerras, ocupações, lutas comuns de libertação, pertença a outros impérios, e assim por diante. Tanto polacos como ucranianos combateram em exércitos diferentes e também ombro a ombro contra inimigos comuns. Sobretudo contra a Rússia, que nunca quis ver nem a Polónia nem a Ucrânia como Estados independentes.

Na Segunda Guerra Mundial, de facto, aconteceram muitas coisas terríveis entre polacos e ucranianos, que ainda precisam de ser analisadas em detalhe, não a partir da perspetiva da propaganda soviética (estalinista), mas a partir da perspetiva de historiadores, peritos forenses e especialistas independentes. Depois da obtenção da independência da Ucrânia (que a Polónia foi a primeira a reconhecer) já houve iniciativas nesse sentido, e os presidentes dos dois países pediram perdão, em nome dos seus povos, pelas perseguições e pelos assassínios do passado, em nome de um futuro pacífico.

A este propósito fez referência também o Papa polaco João Paulo II, quando, em 2001, visitou a Ucrânia:
«Graças à purificação da memória histórica, todos estarão preparados para colocar acima de tudo aquilo que une, e não aquilo que divide, para juntos construírem um futuro baseado no respeito mútuo, na cooperação fraterna e na verdadeira solidariedade.»

Porque é então que hoje, quando os ucranianos, de forma heróica e ao preço de grandes perdas, se defendem a si próprios, à Polónia e a toda a Europa da Rússia totalitária, que pretende alargar o seu império a todo o continente europeu, o presidente da Polónia apresenta aos ucranianos exigências que visam humilhar a sua dignidade?
Os ucranianos não renunciarão à sua história nem aos seus heróis!
Caso contrário, a Ucrânia deixará de existir.

O Exército Insurgente Ucraniano (UPA), criado em 1942, não tinha como objetivo combater os polacos ou outros povos, mas, antes de mais, proteger a população ucraniana, primeiro do terror nazi e depois do terror estalinista. Nas fileiras da UPA lutavam não só ucranianos, mas também representantes de outros povos que queriam conquistar para si a liberdade e a independência.

O objetivo maior dos combatentes da UPA era alcançar a condição de Estado para a Ucrânia.
A maioria deles morreu em combates desiguais contra potências totalitárias extremamente fortes, em primeiro lugar contra a URSS; muitos acabaram nas câmaras de tortura. Não venceram então, mas venceu a sua ideia. Tornaram‑se o protótipo das atuais Forças Armadas da Ucrânia, e por isso uma das unidades das Forças Armadas teve a grande honra de querer chamar‑se com o nome dos heróis da UPA. Esta não foi uma iniciativa do presidente Zelensky. Foi a vontade dos soldados ucranianos, que todos os dias arriscam a própria vida, também para que a guerra não se estenda à vizinha Polónia. Esta decisão foi apoiada por todos os ucranianos, porque sabem que a UPA não é contra outras nações, é pela defesa do seu próprio país.

Não é adequado, agora, em plena e terrível guerra, que os ucranianos analisem as razões pelas quais o presidente da Polónia tomou a decisão de indicar aos ucranianos quem devem escolher como heróis. Essa é uma questão interna da sociedade polaca.

Agradecemos a cada polaco por todo o apoio prestado à Ucrânia. Mas este precedente mostra também a fragilidade da política atual, quando certos interesses políticos ou económicos podem «tirar do armário» antigas dores, capazes de provocar consequências irreparáveis. A pertença a uma nação, à sua história, aos seus heróis é parte integrante da identidade de cada pessoa. Este sentimento é transmitido pelos pais, é cultivado pela sociedade, é orientado pelos políticos. Este direito e estes sentimentos de cada pessoa não podem ser ignorados e, sobretudo, não se devem repetir os erros do passado!