(c) 2023 am|dev

(A) :: “Supergirl”: um super-zero para a jovem prima do Super-Homem

“Supergirl”: um super-zero para a jovem prima do Super-Homem

Depois de Helen Slater no filme original de 1984, Supergirl é agora interpretada por Milly Alcock nesta nova versão realizada por Craig Gillespie. Eurico de Barros dá-lhe uma estrela.

Eurico de Barros
text

Em 1984, e na senda do sucesso dos filmes de Super-Homem interpretados por Christopher Reeve e produzidos pela dupla Alexander e Ilya Salkind, que pretendia desta forma capitalizar nos bons resultados comerciais daqueles, estreou-se a primeira adaptação ao cinema de Supergirl, realizada por Jeannot Szwarc. Uma Helen Slater muito clean e compostinha, e exemplarmente heróica, fazia o papel de Kara Zor-El, ou Supergirl, ou Linda Lee à civil, a prima do Homem de Aço, também ela sobrevivente da catástrofe que aniquilou Krypton, o planeta natal de ambos, salvos pelos respectivos pais, que os enviaram para a Terra em cápsulas individuais.

[Veja o “trailer” do “Supergirl” original:]

https://www.youtube.com/watch?v=sxXbvzOdj-Q

Além de Slater, este Supergirl tinha no elenco nomes de peso como Faye Dunaway, Peter O’Toole, Mia Farrow, Branda Vaccaro e Peter Cook, e uma história em que a jovem super-heroína combate uma poderosa feiticeira, Selena (Dunaway), que se apodera, na Terra, de uma tecnologia avançadíssima, o Omegahedron, que lhe foi parar às mãos por descuido daquela. A fita, nada inspirada, deu um valente trambolhão nas bilheteiras, o que levaria os Salkind a venderem, em 1986, os direitos dos filmes do Super-Homem à entretanto desaparecida Cannon.

Mais de 40 anos depois, eis uma nova versão de Supergirl pela mão dos DC Studios e realizada por Craig Gillespie. A personagem havia já aparecido brevemente (tal como o super-cão Krypto) no filme anterior de Super-Homem, o Superman realizado em 2025 por James Gunn, e tem agora uma fita só para si. E que diferença abissal para o original de 1984. Tendo a australiana Milly Alcock no papel principal, o novo Supergirl é tão mau, mas tão mau, que ao pé dele, o filme com Helen Slater parece agora muito bom, revelando qualidades que à época tinham passado em branco.

[Veja o “trailer” do novo “Supergirl”:]

https://www.youtube.com/watch?v=PI9e89dyLt4

O desastre começa logo pela própria personagem de Supergirl, que se não fossem os seus superpoderes, poderia ser confundida com uma daquelas miúdas desmazelada e desregradas das comédias juvenis boçais e primárias que Hollywood deita cá para fora de vez em quando. Frustrada porque o seu primo Super-Homem parece não precisar dela, Supergirl sente-se inadaptada à vida na Terra, e em Metropolis, e inútil, e foi para outro planeta.  Ela bebe demais, não se cuida, tem o discurso de uma adolescente média americana e vive com Krypto numa nave suja e desarrumadíssima, estacionada no equivalente espacial de um parque de rulotes e casas motorizadas.   

No dia em que faz 23 anos e se sente pior que nunca, Supergirl é abordada por Ruthye Marye Knoll (Eve Ridley), uma menina cuja família foi massacrada pelo grupo de piratas espaciais liderado pelo impiedoso Krem (Matthias Schoenaerts), que tem tantos ferros incrustados na cara que não convém passar pertos de imãs, e do qual ela se quer vingar. Supergirl começa por recusar, como mandam as convenções, mas as coisas tornam-se pessoais quando o bandido lhe rouba a nave (onde ela tem o seu uniforme de super-heroína) e atinge Krypto com um dardo envenenado, que faz efeito em três dias e cujo antídoto o pirata transporta ao pescoço.

[Veja uma entrevista com Milly Alcock e Eve Ridley:]

https://www.youtube.com/watch?v=CqR8RoPQTIs

E lá vão as duas num delapidado autocarro da Carris interplanetária, Supergirl em busca do antídoto e Ruthye de sangue vingador. Irão encontrar um aliado inesperado e relutante na pessoa de Wolf (Jason Momoa), um caçador de prémios imortal (embora o filme não se preocupe em explicar-nos como e porquê) que é um misto de motard do cosmos e de membro de uma banda de homenagem aos Kiss, e fuma uns charutos que se assemelham a mini-morteiros. Lá pelo meio, há flashbacks para a infância e a juventude de Supergirl em Krypton e em Argo City, e para a sua chegada à Terra, onde foi acolhida e albergada pelo primo.

Com um enredo que é, basicamente, o de um velho western de série B, e que mais parece ter sido produzido pela IA do que escrito por mão humana, e uma realização da modalidade “meia bola e força, e os efeitos especiais que façam o resto”, Supergirl é feio e sujo, cacofónico e estúpido, estereotipado e primário, grosseiro e brutinho, com tantos buracos de lógica que lhes perdemos a conta, e não se cansa de exaltar aquilo a que poderíamos chamar o “supergirl power”. Milly Alcock não possui um grão de talento e o filme existe num vácuo absoluto de originalidade, interesse, emoção e piada. Supergirl é um super-zero.