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(A) :: Em Vancouver, os milagres acontecem. Não é, Manzambi? (a crónica do Suíça-Canadá)

Em Vancouver, os milagres acontecem. Não é, Manzambi? (a crónica do Suíça-Canadá)

BC Place, que já recebeu o Papa, os Jogos e uma Feira do Mundo, acreditava que o sonho do Canadá podia não ter fim. Todavia, aquilo que assistiu foi a confirmação do nascimento de uma estrela (2-1).

Bruno Roseiro
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Dentro dos outsiders e possíveis surpresas, o Canadá era uma espécie de outsider dentro dos outsiders. Ou melhor, para facilitar: entre os três países que organizam este Mundial de 2026, era aquele que partia atrás dos outros. Pelos jogadores e respetivas maturidades competitivas, pela experiência em grandes provas, por aquilo que contam no currículo. Quase se podia fazer uma comparação com os recintos que acolhem jogos da competição, onde os canadianos, tendo todas as condições, eram os mais modestos. No entanto, aquilo que se viu mostrou que as histórias de superação sempre existiram e sempre vão existir. Depois do empate na estreia frente à Bósnia que soube a pouco, a goleada diante do Qatar que praticamente carimbou a passagem à fase seguinte num ambiente eletrizante de quem vive de forma particular o futebol reforçou a confiança.

https://twitter.com/Concacaf/status/2069833420960682493

Traçando o paralelismo com o BC Place, em Vancouver, que recebia este encontro da última ronda do grupo B, tudo podia acontecer neste palco criado para receber a Feira do Mundo de 1986. Porque por ali já foram feitas séries, já foram gravados filmes, já se viram recordes do maior tecto insuflável do mundo (que depois deu lugar ao maior teto retrátil da altura, neste caso em 2008), já houve uma “Celebração da Vida” liderada pelo Papa João Paulo II, já se realizaram cerimónias dos Jogos Olímpicos de Inverno. Um pouco de tudo. Até mesmo descobrir figuras do nada nas bancadas: o que seria de Pamela Anderson, a atriz que ficou conhecida com o papel como C.J. Parker na série Baywatch antes de fazer carreira em Hollywood, se não tivesse sido apanhada pelas câmaras a ver um jogo dos BC Lions quando tinha 22 anos e era uma instrutora de fitness? Às vezes, do nada, os “milagres” acontecem. O Canadá procurava outro. Mas tinha dois obstáculos.

Por um lado, e olhando para dentro, a grave lesão contraída por Ismäel Koné frente ao Qatar, com a fratura da perna que o deixará de fora vários meses. A identidade de jogo do Canadá tem tanto de simples de perceber como de complicado para tentar travar, sobretudo pela intensidade e pela agressividade com que encaram todos os momentos num 4x4x2 puro que não dá um minuto de sossego aos adversários. Contudo, o médio do Sassuolo era uma pedra basilar em toda a dinâmica da equipa, como o próprio Jesse Marsch veio admitir após o infortúnio. E o técnico dos canadianos foi à procura de novas fórmulas, deixando também de fora Eustáquio, antigo médio do FC Porto, para lançar Nathan Saliba e Mathieu Choinière no meio (e com a boa notícia de contar com Alphonso Davies, a grande figura desta seleção, no banco pronto para entrar).

https://twitter.com/CANMNT_Official/status/2069848298169786631

Por outro, e olhando para fora, a Suíça. O Globoesporte levantava a hipótese de haver aquilo que chamou de “jogo de compadres”, tendo em conta que um empate garantia a qualificação automática a ambos. No entanto, os helvéticos queriam mais. Queriam mais porque não esqueceram a forma como se deixaram empatar na estreia com o Qatar numa partida que tinham na mão, queriam mais porque era importante dar continuidade ao que aconteceu nos últimos 20 minutos da partida com a Bósnia (daí que Manzambi e Rúben Vargas tenham saltado para a titularidade), queriam mais porque o primeiro lugar no grupo B era muito mais vantajoso do que passar como segundo classificado ou mesmo como um dos melhores terceiros da fase de grupos. Nesse sentido, o encontro não dava margem para poupanças, muitas gestões ou grandes cálculos.

E a Suíça não demorou a mostrar ao que vinha, beneficiando da primeira grande oportunidade a abrir com Embolo a receber um passe fantástico de Rúben Vargas para surgir isolado na área mas permitir a defesa de Maxime Crépeau, que viu de seguida Manzambi acertar num adversário na recarga que ia para a baliza (11′). No entanto, e apesar de dar sempre a sensação de estar a “jogar melhor” (com tudo o que isso depois pode ou não ter de resultados práticos), não voltou a criar oportunidades ao contrário do Canadá, que sem ter uma chance flagrante teve remates com algum perigo de Larin (32′) e Aly Ahmed (40′), ambos defendidos pelo guarda-redes Gregor Kobel. Pelo meio, num jogo com mais momentos de tensão entre duas equipas que estão longe de liderar os rankings de cartões, houve episódios como um em que Larin deu um pequeno toque na bola para Xhaka não marcar logo uma falta e o médio suíço deu um pontapé no avançado…

https://twitter.com/sporttvportugal/status/2069866891884048459

https://twitter.com/_Goalpoint/status/2069871791468654661

Estava complicado marcar mas, à semelhança do que se tinha visto na ronda anterior, a maior coqueluche helvética, Manzambi, necessitou de menos de 15 minutos para virar o encontro ao contrário: primeiro fez a desmarcação de rutura pela direita, ganhou espaço e cruzou ao segundo poste para o golo de Rúben Vargas com todo o tempo para parar a bola, escolher o lado e bater na baliza (46′, aos 40 segundos…), depois viu o movimento de Embolo no meio, recebeu do avançado e atirou cruzado na área para o 2-0 com Maxime Crépeau não ficar propriamente isento de culpas (57′). A história parecia escrita mas a paragem para hidratação e as alterações promovidas por Jesse Marsch, com as entradas de Eustáquio, Liam Miller, Tani Oluwaseyi e depois Promise David, mexeram nas dinâmicas da equipa, que reduziu num cruzamento de Saliba para a conclusão ao segundo poste de Promise David (76′) e insistiu até ao fim para chegar ainda ao empate, com as bancadas que incluíam de novo o primeiro-ministro ao rubro, mas sem sucesso.

https://twitter.com/sporttvportugal/status/2069876877565509876

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https://twitter.com/_Goalpoint/status/2069890564170879387

A estrela

  • Tem apenas 20 anos, fez uma época fantástica nos alemães do Friburgo onde os sete golos com mais seis assistências são números curtos para o que fez nos 47 jogos em que foi aposta, não deverá ficar muito mais tempo naqueles palcos (ficando ou não na Bundesliga). Depois de ter bisado diante da Bósnia, Johan Manzambi foi opção inicial de Yakin para o encontro que decidia o primeiro lugar do grupo B e tornou-se a chave para desbloquear a partida, necessitando de menos de 15 minutos após o intervalo para sentenciar o vencedor com uma assistência para Vargas e um golo. Há muito tempo que os suíços não tinham um jovem tão promissor como Manzambi, que joga bem e desequilibra onde for preciso, e o BC Place acabou por ser o palco que confirmou o nascimento de uma estrela para o futebol mundial.

https://twitter.com/playmaker_PT/status/2069882410041254354

O joker

  • Não tem propriamente um portento técnico do outro mundo, compensa isso com uma estampa física e uma vontade daquelas que não se conseguem comprar ou trabalhar. Promise David, avançado de 24 anos dos belgas do Union Saint-Gilloise, tem vivido muito na sombra de Jonathan David e Larin neste Mundial mas, quando é chamado, mostra que tem argumentos para andar nestes palcos. As mexidas de Jesse Marsch conseguiram trazer uma versão melhor da Suíça mas foi quando o dianteiro chegou ao ataque que o encontro ganhou sentido único, com os helvéticos a terminarem por segurar o 2-1.

https://twitter.com/HarJournalist/status/2069894050472493077

A sentença

  • Com este resultado, a Suíça conquista várias “vitórias”: termina no primeiro lugar do grupo B, vai jogar com um adversário teoricamente mais acessível que sairá entre os terceiros melhores classificados dos grupos E, F, G, I e J, tem mais tempo de descanso e continua em Vancouver não só nos 16 avos mas também nos oitavos, em caso de vitória. Já o Canadá, que sofreu a primeira derrota no Mundial, fechou o apuramento na segunda posição, tendo agora de esperar pelo segundo classificado do grupo A, uma equipa que vai sair do lote entre Coreia do Sul, Rep. Checa e África do Sul (todos com hipóteses).

A mentira

  • A grave lesão de Koné iria sempre ter impacto naquilo que era a dinâmica coletiva do Canadá com e sem bola. Não havia volta a dar, o médio do Sassuolo era uma peça vital, a equipa ia sentir a ausência. No entanto, e quando Jesse Marsch decidiu não só render Koné mas também tirar Eustáquio do onze inicial para lançar uma nova dupla de médios, Nathan Saliba (que teve bons momentos na partida mas sobretudo quando assumiu outras funções com Eustáquio em campo) e Choinière, meteu-se num caminho apertado que só conseguiu remediar com as substituições quando passou a jogar mais direto com toda a artilharia na frente. Apesar disso, houve uma “mentira” ainda maior: achar que o Suíça-Canadá podia ser um “jogo de compadres” como aconteceu no passado é não conhecer as equipas.

https://twitter.com/TheAthleticFC/status/2069856710018179563