A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, desvalorizou esta quarta-feira a polémica em torno da demolição do antigo Cinema Paris, em Lisboa, defendendo que a prioridade deve estar na revitalização das salas de cinema que continuam em atividade.
Esta segunda-feira, a Academia Portuguesa de Cinema veio criticar a decisão da Câmara Municipal de Lisboa de aprovar a demolição do edifício histórico, encerrado desde 1985, para dar lugar a um prédio habitacional com 19 fogos. Questionada sobre as críticas da Academia, a ministra recusou comentar diretamente a posição da instituição.
“Não vou comentar a reação da Academia Portuguesa de Cinema. O que eu gostaria era que nos focássemos naquilo que temos que fazer em relação às salas que estão abertas e em como é que conseguimos levar pessoas a essas salas. É essa a minha preocupação, é esse o meu foco”, afirmou em resposta à pergunta do Observador, à margem da abertura do festival literário Babell — Cidade Livro, na cidade do Porto.
Margarida Balseiro Lopes recordou que o antigo Cinema Paris deixou de funcionar há mais de quatro décadas e que o processo de desafetação da atividade cinematográfica foi concluído em 2019. “Já foi desafetado há anos”, disse a responsável pela tutela. “A desafetação foi em 2019. Não foi isso que procurámos tratar nem é sobretudo essa a emergência que nós sinalizámos”, afirmou.
A governante lembrou também que o Governo alterou recentemente as regras para a desafetação de salas de cinema, reforçando a intervenção de entidades do setor e dos municípios nestes processos. O Cinema Paris já tinha sido desafetado em 2019, vários anos antes da entrada em vigor destas alterações.
O Ministério da Cultura tem vindo a responder à crise da exibição cinematográfica em Portugal com uma série de medidas, entre elas um estudo do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) para identificar os hábitos e preferências dos portugueses em matéria de consumo cinematográfico. “O ICA vai realizar um estudo de diagnóstico das preferências dos portugueses, para percebermos o gosto dos portugueses, para conseguirmos alinhar os programas de incentivo em função daqueles que são os gostos”, disse, sublinhando o que pretende: “o meu objetivo é incrementar os hábitos culturais dos portugueses, que vão mais às salas de cinema, que leiam mais livros, que vão a mais exposições”.
A controvérsia em torno do Cinema Paris surgiu depois de a Academia Portuguesa de Cinema acusar a Câmara Municipal de Lisboa de falta de visão estratégica para a preservação dos cinemas de proximidade e lamentar a perda de um edifício com valor histórico, cultural e identitário para a cidade.
Inaugurado em 1931, na Rua Domingos Sequeira, na freguesia da Estrela, em Lisboa, o Cinema Paris encerrou definitivamente em 1985 e encontra-se devoluto há mais de quatro décadas. A demolição foi aprovada pela autarquia com base no avançado estado de degradação do imóvel e em pareceres favoráveis das entidades competentes, incluindo a Inspeção-Geral das Atividades Culturais, que em 2019 autorizou a desafetação do espaço da sua utilização como equipamento cultural. Em reunião privada do executivo municipal, o desfecho conhecido partiu de uma proposta do vereador do Urbanismo, Vasco Moreira Rato (independente indicado pelo PSD), que foi aprovada com os votos contra de PS, Livre, BE e PCP, e os votos favoráveis do Chega e da governação PSD/CDS-PP/IL.
O edifício é propriedade da Sociedade Geral de Cinema, que pretende construir no local um novo prédio de habitação com 19 fogos de habitação e uma fração de comércio.