Imagine-se que a humanidade nasceu no Polo Norte e que o gelo do Ártico esconde, afinal, o paraíso perdido de Adão e Eva. Embora a ciência tenha há muito descartado esta hipótese, houve um tempo em que académicos, reverendos e filósofos tentaram prová-la, entre a especulação científica e a crença religiosa. É também este o ponto de partida de Polo Norte, a nova criação da companhia Mala Voadora, em cena na Culturgest entre 26 de junho e 4 de julho. O espetáculo acompanha uma expedição de crentes que parte em busca desse lugar primordial, convencida de que ali se encontra a origem da humanidade.
A intriga inspira-se em Paradise Found: The Cradle of the Human Race at the North Pole – A Study of the Primitive World, obra publicada em 1885 pelo reverendo William Fairfield Warren e adaptada para palco pelo dramaturgo Seth Bockley. Em cena, este grupo de crentes reúne-se no Ártico para o seu encontro anual, equipado a rigor para enfrentar as condições meteorológicas mais difíceis. A missão é ambiciosa: demonstrar que foi ali que viveram Adão e Eva e que subsistem os vestígios de uma humanidade original que, mais tarde, se dispersou pelos quatro cantos do mundo. Entre o fervor religioso, o espírito aventureiro e a ambição de reescrever a História, a peça explora a forma como crença e ciência podem, por vezes, cruzar-se em territórios inesperados.
Mas voltemos, primeiro, à realidade. O livro de Warren data de 1885 e não se trata de um exercício de especulação literária — bem pelo contrário. Nesta obra, aquele que foi o primeiro presidente da Universidade de Boston reúne documentos, cruza dados e reflete sobre os estudos da época com o objetivo de provar uma tese. Se a ciência moderna aponta hoje África como o berço inequívoco da humanidade, estas teorias oitocentistas situavam a origem da vida humana no Polo Norte, cruzando elementos mitológicos, especulação religiosa e interpretações geológicas entretanto desacreditadas.
Warren não foi o único a defender esta teoria. Como explica Jorge Andrade, diretor da companhia Mala Voadora, “havia vários cientistas a quem fazemos referência na peça que, em determinado momento, admitiram a hipótese de ter existido vida no Polo Norte”. No caso de Warren, a perspetiva parte da ideia de que o paraíso descrito na Bíblia não teria desaparecido após a expulsão de Adão e Eva. Sendo um lugar físico, situado na Terra, teria continuado a existir mesmo depois de os primeiros humanos terem sido obrigados a abandoná-lo.
“Ele acreditava que teria existido um paraíso na Terra. Para Deus colocar ali Adão e Eva, tinha de ser um ambiente propício à vida deles. Depois, infelizmente, tiveram de ser expulsos porque se portaram mal. O que Warren tenta fazer com aqueles estudos, alguns dos quais já na altura não eram totalmente apoiados pela academia, é provar essa possibilidade. E, se foi ali que surgiu a vida, então também poderia ter sido ali o paraíso terreno de que fala a Bíblia. Não um paraíso celeste, mas um lugar real onde os nossos antepassados viveram antes de serem expulsos”, resume o encenador.
Em busca do Jardim do Éden
Acompanhados por um explorador que conhece o terreno, o grupo de aventureiros chega ao Ártico com malas de viagem. Nunca estiveram tão perto de cumprir o seu desígnio, asseguram. Até encontrarem a “terra prometida”, o trabalho de investigação continua. William, o principal mentor da missão, dá o mote para se compreender o que realmente procuram: “Porquê procurar o Paraíso? (…) Para vivermos todos juntos em paz. Sem desentendimentos”, defende.
Neste grupo interpretado por Albano Jerónimo, David Pereira Bastos, Hoji Fortuna, Jani Zhao, Jorge Andrade, José Mata, Maria Jorge, Sílvia Filipe, reúnem-se especialistas de várias áreas, da geologia ao interesse pelo oculto. Formam a Sociedade do Novo Éden e encontram-se em nome de Deus para provar aos céticos que estão errados. Embora a estrutura se assemelhe à de uma seita, os membros insistem que a sua presença ali obedece a um propósito científico. O aquecimento global e o degelo surgem, na sua leitura, como sinais de que o Jardim do Éden poderá estar, finalmente, prestes a tornar-se novamente acessível. Na narrativa que defendem, a deriva dos continentes e o Grande Dilúvio são apresentados como causas naturais que terão levado a espécie humana a afastar-se desse lugar primordial. Só o desfecho da expedição dirá se têm alguma razão.

No seu desenrolar, Polo Norte mantém uma tensão constante entre duas visões do mundo — o criacionismo e o evolucionismo. Nem sempre de costas voltadas, ambas as teorias são aqui convocadas e fundidas num enredo que empurra o espectador para uma ideia de utopia em construção. E é precisamente na fronteira entre a fé e o método científico que o espetáculo encontra o seu conflito central. “Interessa-me esta fricção entre o lado do fanatismo religioso e a confusão sobre onde acaba a ciência no mundo da religião e o inverso”, explica Jorge Andrade.
Além do material original do livro, a encenação da Mala Voadora introduz ainda uma componente importante no enredo: a manipulação através do medo, com uma derivação direta da atual crise climática. “Para convencer as pessoas a segui-los, eles precisavam de usar o medo. E aquilo de que eles se apropriam é do aquecimento global”, aponta o encenador. Na lógica da Sociedade do Novo Éden, Deus terá expulsado a humanidade do Paraíso e congelado o local para o preservar intacto, forçando os homens a dispersarem-se e a ocuparem o globo na sua diversidade. “Eles acreditam que, agora que Deus começou a derreter o gelo, é porque nos está a dar a oportunidade de voltar ao Paraíso”, acrescenta.
Mas é também no seu desenrolar que se vai deixando entrever o verdadeiro programa político por detrás desta expedição em busca do Jardim do Éden. “A princípio parece uma ideia bonita. Mas quando lá chegamos, percebemos que para eles a diversidade — termos diferentes línguas, culturas e deuses espalhados pelos continentes — é vista como um castigo divino. O objetivo deles ao regressar ao paraíso é anular a diferença e voltarmos a ser um só, sob uma única crença. Só que isso é uma coisa completamente fascista”, realça o encenador.
Paródia num tempo de pós-verdade
A peça da Mala Voadora sustenta-se assim numa ideia de paródia permanente, que acaba por ecoar no tempo presente, atravessado por discursos e tomadas de posição nem sempre baseados em factos, muitas vezes mentiras repetidas como verdades. É nesse contexto que surge, a título de exemplo, o paralelismo com a retórica populista associada ao movimento MAGA (Make America Great Again). Jorge Andrade lembra, a propósito, a cobiça geopolítica em torno do Ártico: “Veja-se a questão da Gronelândia, Trump quis logo comprá-la. Uma das poucas coisas que ainda não explorámos foi o fundo daquele mar; estão lá minérios que ninguém sabe quais as consequências de extrair, mas dizem logo ‘nem pensar, vamos lá buscar aquilo porque precisamos para os telemóveis e para os chips’.”
Esta lógica extrativista e pouco preocupada com as consequências ganha tradução visual no espetáculo. À medida que a ação avança, a obsessão por perfurar a terra em busca de recursos acaba por conduzir à ruína do grupo. Perante a ganância destas personagens, a própria natureza reverte o processo: “O gelo volta, o que os obriga a dizer ‘temos de ir embora’.” Uma das personagens antecipa esse desfecho como o prenúncio de um homem com fogo no coração e fome nas mãos, pronto a perfurar as entranhas da terra até à última gota.

Para Jorge Andrade, a facilidade com que discursos pseudocientíficos se propagam está ligada ao fosso entre a produção académica e o público em geral, algo visível na proliferação de documentários sobre seitas e teorias da conspiração nas plataformas de streaming. “Lembro-me de um documentário recente sobre os Flat Earth [Terraplanistas]”, exemplifica o encenador, sublinhando que muitas destas dinâmicas começam de forma quase elementar, como hipóteses de convicção coletiva. O problema de fundo, acrescenta, é que a ciência académica é frequentemente “fechada, partilhada por uns poucos”. Sem ferramentas para interpretar dados complexos, o público torna-se permeável a narrativas sedutoras pela sua aparente simplicidade. Perante o desconhecido, torna-se fácil e confortável aceitar o absurdo.
No fundo, a utopia proposta pela Sociedade do Novo Éden neste Polo Norte assenta num retrocesso ideológico e social. A ideia de que a emancipação humana, a autonomia e a criação de núcleos independentes foram uma espécie de maldição que gerou o caos. “É visto por eles como uma coisa negativa”, nota Jorge Andrade. “Saímos todos de casa do pai e fomos à procura da nossa própria forma de estar. Para eles, claro que isso só daria o caos. A utopia que eles têm é voltar para trás para ser apenas ‘um’ a mandar nisto tudo, porque senão as pessoas nem se entendem. Do ponto de vista científico, é de uma fragilidade extrema e, deliberadamente, é uma grande aldrabice.”
Mais do que uma paródia inofensiva, a peça expõe um tipo de retórica populista que vive hoje uma revivência perigosa. O bombardeamento de contradições consecutivas serve o propósito claro de minar a própria ideia de verdade e desacreditar a ciência. Mas o verdadeiro perigo não é a aparente tontice dessas personagens, mas sim o que se esconde nos bastidores. “Qual é o programa político deles? Não acredito que sejam tontos. O que esperam é chegar a um lugar de poder totalitário no meio da estrutura que se vai organizar depois de destruírem tudo. Há sempre está ideia muito salazarista de que o mundo está um caos e que é preciso organizá-lo”, realça.
Para a Mala Voadora, o espetáculo deve funcionar como um “ritual suficientemente bonito para ser apelativo”, mas onde fique claro que “é tudo ‘banha da cobra’ e um folclore”, assume o encenador. Um delírio coletivo que se vai desmoronando quando a própria ficção cede à realidade e se percebe que o caminho prometido, afinal, não passa de uma miragem totalitária. Haverá espaço para mais paraísos escondidos?