Portugal construiu um Estado digital de referência europeia, assente em infraestruturas de conectividade de topo e em serviços públicos online entre os melhores da UE. O desafio da próxima década é outro: transformar essa solidez institucional numa economia igualmente digital, em que as empresas adotem na mesma medida as tecnologias que já servem os cidadãos. É aqui que reside o nosso maior atraso, mas também a nossa maior oportunidade.
Enquanto parte integrante do bloco europeu, Portugal enfrenta o mesmo desafio de transformar objetivos estratégicos em resultados concretos. A Estratégia Digital Nacional, alinhada com o Programa de Política para a Década Digital 2030, demonstra a ambição do país em acompanhar os desígnios dos seus parceiros europeus. Importa, porém, refletir sobre onde envidar maiores esforços para acompanhar o progresso coletivo.
O relatório publicado este mês pela Comissão Europeia — o State of the Digital Decade 2026 — permite comparar a evolução da transformação digital nacional com a dos restantes 26 Estados-Membros em quatro dimensões fundamentais: Competências Digitais, Infraestruturas Digitais, Digitalização das Empresas e Serviços Públicos Digitais. Percorramo-las das nossas forças às nossas fragilidades.
Competências digitais
No capítulo das competências, o retrato é mais matizado. Portugal atingiu a marca dos 59,15% de indivíduos entre os 16 e os 74 anos com, pelo menos, competências digitais básicas, representando um aumento de 2,8% face à última avaliação, realizada em 2023. Este resultado coloca Portugal ligeiramente abaixo da média da UE (60,4%) que, por sua vez, registou um crescimento de 4,3% face a 2023, porém muito abaixo de países como a Irlanda (82,8%) ou Espanha (66,5%).
Há, contudo, um sinal animador: os jovens portugueses entre os 16 e os 24 anos apresentam uma taxa de competência digital de 83,37%, claramente acima da média da UE (74,55%) e a par da Irlanda (85,5%) e da Espanha (82,5%). O desafio geracional está sobretudo nas faixas mais velhas e com menor escolaridade.
Quanto aos especialistas em TIC, representam 5,4% da população empregada em 2025, ligeiramente acima da média da UE (5,0%), com um crescimento anual superior ao europeu. É um ativo estratégico que importa reforçar, sobretudo no equilíbrio de género e na atração de jovens para carreiras tecnológicas.
Digitalização das empresas
Portugal apresenta 63,9% das PME com um índice de intensidade digital básica, o que representa uma progressão de 9,2% face a 2023, ficando abaixo da média da UE (71,3%). Podemos verificar que, embora as PME portuguesas tenham demonstrado melhorias, a taxa de crescimento de 9,2% ao ano é ligeiramente inferior à taxa de crescimento anual da UE (11,0%), o que significa que Portugal não está a acompanhar o ritmo europeu nesta matéria. Se compararmos o resultado português com países como a Dinamarca (92,5%) ou a Suécia (86,5%), que se apresentam como referências entre os 27 Estados-Membros nesta matéria, facilmente percebemos que o país ainda tem um longo caminho pela frente na transformação digital do seu tecido empresarial.
De igual forma, Portugal precisa de acelerar os seus esforços na adoção de tecnologias emergentes por parte das empresas e, assim, reduzir a diferença face aos seus pares. Se analisarmos o relatório agora publicado, esta é uma das recomendações mais importantes que a Comissão emite para o país. Portugal apresenta uma taxa de adoção de tecnologias cloud de 34,1%, situando-se abaixo da média da UE (46,6%). Se compararmos o desempenho nacional com precisamente os mesmos países-referência, a Dinamarca regista um total de 67,6% de empresas a utilizarem estas tecnologias, um patamar partilhado pela Suécia. No que diz respeito à utilização de ferramentas de inteligência artificial, Portugal apresenta uma taxa de adoção de 11,5%, situando-se abaixo da média da UE (20%) e muito longe dos países anteriormente mencionados: Dinamarca (42%) e Suécia (35%).
Infraestruturas digitais
É na dimensão das infraestruturas que o país apresenta os melhores resultados. A Comissão considera muito bom o desempenho nacional em termos de conectividade, com níveis muito elevados de cobertura de banda larga, particularmente em redes de capacidade muito elevada (VHCN), fibra até à residência (FTTP) e 5G, obtendo resultados consistentemente melhores do que as médias da UE nestas áreas.
Portugal atinge 97% de cobertura de VHCN, após um aumento de 2,5 pontos percentuais em 2025, ficando acima da média da UE (85,5%) e um ponto percentual acima de Espanha (96%). Para os agregados familiares que vivem em zonas pouco povoadas de Portugal, a cobertura de VHCN em 2025 foi de 81,6%, superando a média da UE (66,6%) e apresentando uma taxa de crescimento anual de 11,5%, acima da taxa de crescimento da UE (7,7%). Em 2025, Portugal atinge os 95,5% de cobertura de Fibra até à Residência (FTTP), ficando acima da média da UE (74,1%).
A cobertura global de 5G em Portugal é de 99,1%, situando-se acima da média da UE (96,79%) e numa situação semelhante à verificada em Espanha (99,2%). No caso dos agregados familiares em zonas pouco povoadas, a cobertura do 5G em Portugal em 2025 foi de 95,2%, superando também a média da UE de 88,8%.
Serviços públicos digitais
A segunda força nacional está nos serviços públicos digitais. Em 2025, a pontuação total dos serviços públicos digitais para cidadãos em Portugal atingiu os 86,4 pontos num total de 100 pontos possíveis. Este valor é superior à média da UE (84,64), representando um aumento de 2,3% face a 2024 e colocando o país no top 10 europeu, à frente de países como a Dinamarca (82,2) e a Suécia (84,2).
Analisando especificamente os serviços públicos digitais para os cidadãos nacionais, ou seja, tirando da equação os serviços públicos digitais transfronteiriços, Portugal atingiu uns impressionantes 99,85 pontos em 2025, um valor acima da média da UE de 94,01 pontos.
A pontuação total dos serviços públicos digitais de Portugal para as empresas (abrangendo as empresas nacionais e transfronteiriças) foi de 90 pontos em 2025, situando-se acima da média da UE de 88,59 pontos, embora atrás de Espanha (95,3 pontos), representando um aumento de 6,8% face a 2024. A Comissão considera que o país está no bom caminho, de acordo com o seu percurso apresentado no roteiro nacional da Década Digital e salienta que a pontuação dos serviços públicos digitais transfronteiriços para as empresas no país atingiu os 80 pontos em 2025, acima da média da UE de 78,4 pontos. Destacam-se também os serviços públicos digitais para empresas disponíveis para utilizadores nacionais que obtiveram a pontuação máxima de 100 pontos e, naturalmente, coloca o país acima da média da UE de 98,8 pontos.
De sublinhar também a percentagem de utilizadores de governo eletrónico: 82,5% das pessoas utilizaram a internet para interagir com as autoridades públicas em sites ou aplicações móveis. Esta percentagem é superior à média da UE (76,0%). O país destaca-se no “apoio ao utilizador”, com uma pontuação máxima de 100 pontos, “formulários pré-preenchidos”, com 96,3%, e “transparência na prestação de serviços, design e dados pessoais”, com uma pontuação de 85,2 pontos.
A Europa entrou definitivamente numa fase decisiva da sua transformação digital. Esta deixou de ser apenas um vetor de inovação ou de modernização administrativa para se tornar num eixo central da soberania económica, da segurança, da competitividade e do poder geopolítico europeu. O mais recente relatório da Comissão sobre o estado da Década Digital confirma-o e, ao mesmo tempo, alerta para os desequilíbrios estruturais que ainda travam o coletivo europeu.
Para Portugal, o diagnóstico é claro e, em larga medida, encorajador. Construímos infraestruturas de conectividade de excelência e serviços públicos digitais entre os melhores da União, duas conquistas que são, em si mesmas, uma plataforma de lançamento. O Estado fez a sua parte e tem, hoje, condições para ser o primeiro grande cliente e catalisador da economia digital que queremos.
O próximo salto não se fará, porém, com mais cobertura de rede ou mais portais públicos: far-se-á na adoção. Adoção de cloud, de dados e de inteligência artificial pelas empresas, em particular pelas PME, onde se concentra o nosso maior défice competitivo. Isso exige incentivos dirigidos, articulação entre setor público, privado e academia, compras públicas que premeiem a utilização de tecnologias avançadas e, sobretudo, competências para que a digitalização chegue a todas as gerações e a todo o território, e não apenas aos polos de Lisboa e Porto.
O futuro de Portugal na economia digital depende menos do que já construímos e mais da nossa capacidade de transformar infraestrutura em utilização, utilização em produtividade e produtividade em resultados. Temos os alicerces. Falta dar o salto — e esse faz-se, como sempre, na execução.