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(A) :: Há um fantasma que os persegue, mas eles continuam a fugir dos sustos (a crónica do Marrocos-Haiti)

Há um fantasma que os persegue, mas eles continuam a fugir dos sustos (a crónica do Marrocos-Haiti)

Numa altura em que o julgamento de Achraf Hakimi paira sobre a equipa, Marrocos soube responder à vantagem embrionária do Haiti, venceu e confirmou o apuramento para os 16 avos do Mundial (4-2).

Mariana Fernandes
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Como até já era expectável, Marrocos é uma das belas lufadas de ar fresco no Mundial 2026. Com uma seleção que parece jogar feliz, um empate que até poderia ter sido algo mais contra o Brasil na jornada inicial e a memória fresca das meias-finais no Qatar, os africanos são até dados como candidatos a uma presença na final pelos mais entendidos que optem por palpites menos óbvios. Nada disso, porém, faz esquecer o fantasma que acompanha os marroquinos.

Na última sexta-feira, Achraf Hakimi soube que vai mesmo a julgamento depois de ter sido acusado de violação por uma jovem francesa já em março de 2023, com a mulher em questão a alegar que o lateral do PSG a convidou para a sua própria casa antes de a forçar a ter relações sexuais não consentidas. Hakimi sempre negou, apresentou recurso, mas a justiça francesa confirmou que terá mesmo de responder em tribunal.

https://twitter.com/AchrafHakimi/status/2067868374042829027

Através das redes sociais, enquanto está no Campeonato do Mundo, o jogador de 27 anos mostrou-se confiante. “A justiça olhou-me nos olhos e disse-me: ‘Se não fosses famoso não havia qualquer caso’. Escolhi ficar em silêncio durante anos. Pensei que ser digno, ser paciente e confiar na justiça iria permitir que as decisões certas fossem tomadas. Hoje, uma história que não é minha está a ser contada às custas da minha família, da minha vida e, acima de tudo, da verdade. Às vezes sinto que me tornei um alvo fácil. Estou à espera deste julgamento desde o primeiro dia. E agora estou ansioso. Vou finalmente poder falar”, escreveu.

Certo é que, com ou sem ânsias, o julgamento de Achraf Hakimi está a ensombrar Marrocos — e a obrigar os colegas de equipa a saírem em defesa do próprio capitão. “Todos apoiam o Achraf. Ele é o nosso exemplo, o nosso modelo. Estaremos sempre ao lado dele, aconteça o que acontecer”, disse o guarda-redes Munir El Kajoui, o habitual suplente do titular Yassine Bounou que é dos mais experientes dos marroquinos, com 37 anos.

E era neste contexto que, esta quarta-feira, Marrocos defrontava o Haiti em Atlanta e na última jornada do grupo C — sabendo que os haitianos estavam já eliminados do Mundial 2026 e que o Brasil cruzava com a Escócia à mesma hora, ou seja, que estava obrigado a ganhar não só para carimbar mesmo o apuramento para os 16 avos de final como também para ter uma possibilidade de ficar no primeiro lugar do grupo e potencialmente evitar os Países Baixos já na próxima ronda.

https://twitter.com/sporttvportugal/status/2069910179072676025

https://twitter.com/sporttvportugal/status/2069919792132202704

A primeira parte foi dos 45 minutos de futebol mais entusiasmantes deste Campeonato do Mundo. O Haiti abriu o marcador ainda muito cedo, com Lenny Joseph a desviar de calcanhar na área e a beneficiar de um toque decisivo de Bounou para fazer o primeiro golo do país na competição (10′). Ayoub El Khaabi poderia ter empatado logo a seguir, com um remate quase sem ângulo que Johny Placide defendeu junto ao poste (12′), Achraf Hakimi ainda permitiu uma defesa enorme do guarda-redes haitiano (30′), mas acabou mesmo por conseguir marcar pouco depois e de cabeça na sequência de um desequilíbrio de El Khannouss na esquerda (39′).

A partir daí e até ao fim da primeira parte lançou-se o caos. Wilson Isidor recuperou a vantagem haitiana com um pontapé brutal de fora de área que não deu qualquer hipótese a Bounou (43′) e Ismael Saibari, já nos descontos, recuperou a igualdade com um remate rasteiro após assistência de Hakimi (45+1′). Ao intervalo, Marrocos e Haiti estavam empatados e parecia impossível antecipar um resultado final em Atlanta.

A segunda parte, porém, desiludiu. As oportunidades de golo escassearam, o ritmo caiu e a intensidade foi outra, com El Khannouss a ser o único em muito tempo a ficar perto de marcar com um pontapé de longe que Johny Placide defendeu (59′). A reviravolta apareceu já perto do fim: canto na direita, desvio ao primeiro poste e Soufiane Rahimi, que tinha entrado pouco antes, rematou cruzado para marcar (78′), com Gessime Yassine a fechar as contas nos primeiros minutos que cumpriu na prova (89′). Marrocos venceu o Haiti e garantiu o segundo lugar do Grupo C, carimbando desde já o apuramento para os 16 avos de final do Mundial 2026.

A estrela

  • Não marcou o golo decisivo, mas voltou a fazer aquilo que lhe é pedido. Ismael Saibari, que vai deixar o PSV e assinar pelo Bayern Munique por cerca de 60 milhões de euros, voltou a marcar e somou o terceiro golo no Mundial 2026. O avançado marroquino tem sido o grande destaque ofensivo da equipa de Mohamed Ouahbi e já é mesmo o primeiro africano de sempre a marcar nos três primeiros jogos de um Campeonato do Mundo depois de ferir Brasil, Escócia e Haiti.

O joker

  • Entrou aos 70′, marcou aos 78′. Soufiane Rahimi foi lançado durante a segunda parte e acabou por fazer o golo que garantiu a segunda vitória de Marrocos no Mundial 2026, acabando por não conter a emoção e as lágrimas durante os festejos. Aos 30 anos, o jogador do Al Ain dos EAU é um dos mais experientes dos marroquinos, tendo estado também na conquista da CAN em 2020, e mostrou que é uma opção válida para Mohamed Ouahbi num Campeonato do Mundo que se adivinha longo.

A sentença

  • Com este resultado e a vitória do Brasil contra a Escócia à mesma hora, Marrocos fechou o Grupo C com sete pontos e no segundo lugar — em igualdade pontual com os brasileiros, mas em desvantagem quanto à diferença de golos. Os marroquinos asseguraram desde já o apuramento para os 16 avos de final do Mundial 2026, ultrapassando a fase de grupos de um Campeonato do Mundo apenas pela terceira vez na história, e já sabem que na próxima ronda defrontam o vencedor do Grupo F, que ainda pode ser Países Baixos, Japão ou Suécia.

A mentira

  • O Haiti não entrou mesmo para a última jornada de braços caídos e sem objetivos. Apesar de já eliminados e sem intenções práticas, os haitianos foram a jogo, marcaram os dois primeiros e únicos golos no Mundial 2026 e chegaram a sonhar com o empate ou até com a vitória. O destino acabou por entregar o triunfo ao elo mais forte, mas o elo mais fraco nunca fugiu aos sonhos.