O deflagrar de dois grandes incêndios no espaço de três dias na Gronelândia está a preocupar os cientistas, refere uma reportagem do The Guardian. Os incêndios em questão surgiram nas cidades de Sisimiut — segunda maior cidade da ilha — a 14 e 15 de junho, segundo imagens da Copernicus, e em Kujalleq, no dia 17, de acordo com o Facebook do município. É algo anormal para o mês em questão, numa região do globo que fica tão a norte, refere o jornal britânico.
A paisagem gronelandesa é caracterizada por gelos e glaciares, mas também por tundra. É raro arder, mas as alterações climáticas tornaram cada vez mais frequente isso acontecer.
“Incêndios rurais em latitudes muito a norte são mais comuns em julho e agosto”, explica ao The Guardian Mark Parrington, cientista sénior do Serviço de Monitorização da Atmosfera Copernicus, com a cientista Sonja Diaz, da Universidade de Helsínquia a acrescentar que, para haver um incêndio, “é necessário que as condições [atmosféricas] sejam suficientemente quentes e secas“.
A humidade e a neve “não favorecem a ignição e a propagação do fogo”, sublinha Diaz.
A causa do incêndio de Sisimiut foi o uso “imprudente” de fogo, segundo Inunnguaq Eigil Lundblad, responsável pelas emergências de Qeqqata, que inclui Sisimiut, enquanto o fogo que deflagrou em Kujalleq ainda não tem uma causa atribuída. No entanto, em ambos os casos, sublinha-se a falta de chuva este ano, que fez com que o solo se tornasse mais seco.
“Não tivemos muita neve neste inverno e depois muito pouca chuva, por isso temos o solo muito seco”, explica Inunnguaq Eigil Lundblad.
As condições climáticas na região têm sido excecionalmente secas este ano e não tivemos chuvas significativas desde maio, o que deixou a vegetação muito seca e altamente inflamável”, refere Miki Sikemsen, gestor de emergências de Kujalleq.
Entre 1995 e 2007, não foram detetados focos de incêndio na Gronelândia, mas entre 2008 e 2020 foram registados 21, com grandes fogos nos anos de 2017 e 2019, perto de Sisimiut, segundo um estudo da revista científica International Journal of Wildland Fire. O incêndio de 2019, por exemplo, só foi dado como extinto mais de um mês após a sua ignição, refere o Copernicus, tendo consumido 634,6 hectares.
Ao contrário dos incêndios mais comuns, que consomem árvores, estes ocorrem no subsolo de turfa, uma camada composta por musgos e plantas, que, quando acontece o degelo do permafrost, pode tornar-se altamente inflamável, sobretudo se o clima estiver seco. Quando arde, pode demorar longos períodos de tempo para dominar o fogo, de acordo com o Instituto Norueguês de Investigação do Ar (NILU, sigla inglesa), e emitir grandes quantidades de carbono negro para a atmosfera.
Carbono negro
De acordo com a Coligação Clima e Ar Limpo, das Nações Unidas, o carbono negro “é uma componente da poluição do ar por partículas finas”, formado através da “combustão incompleta” de materiais como madeira ou combustíveis fósseis.
Esta componente contribui para o aquecimento da atmosfera devido à capacidade de absorção da luz, o que altera as temperaturas e os ciclos dos ecossistemas, e impacta direta ou indiretamente o ambiente e na saúde humana. Apesar disto, apenas permanece na atmosfera durante alguns dias ou semanas.
Coligação Clima e Ar Limpo, do Programa das Nações Unidas para o Ambiente
De acordo com a investigadora Sonja Diaz, apesar de os incêndios na Gronelândia serem “pequenos em comparação com os padrões globais“, o carbono — armazenado no solo por centenas ou milhares de anos — libertado por metro quadrado é “muito maior do que o registado anteriormente para outros incêndios na tundra”.