A nova Associação para os gases renováveis (ATMAS) defende acelerar a integração do biometano na rede nacional, apresentando-o como complemento à eletricidade e alternativa para conter custos da transição energética.
Em entrevista à Lusa, o diretor-executivo da recém criada associação, Gonçalo Salazar Leite, afirmou que a rede de gás existente deve ser aproveitada na descarbonização, por estar preparada para receber biometano “sem qualquer alteração”, podendo este gás substituir, a prazo, 60% do gás natural injetado no sistema.
“Nós estimamos que aproveitar a redistribuição de gás e potenciar a produção de biometano custará ao contribuinte um terço do que significaria eletrificar toda esta energia final”, afirmou.
Para Gonçalo Salazar Leite, a integração dos gases renováveis na rede deve ser vista numa lógica de complementaridade entre vetores energéticos, e não como substituição da eletricidade.
“A eletricidade é e será cada vez mais o principal vetor energético do nosso país”, referiu. Contudo, advertiu: “Não podemos eletrificar tudo” sem considerar os custos “para o contribuinte, para o consumidor, para a indústria e para a economia”.
“A rede de gás está paga, funciona bem. O sistema nacional de gás não tem um euro de défice tarifário e nós não somos tão ricos que se possa desaproveitar um ativo energético que já existe, que está a funcionar bem e está preparado para o futuro”, sustentou o diretor-executivo da ATMAS que foi dinamizada inicialmente por operadores das redes de distribuição de gás e conta atualmente com 10 associados e até ao final do ano “espera vir a integrar pelo menos outros tantos”.
Segundo Gonçalo Salazar Leite, o biometano pode ser dirigido à indústria, em particular aos setores intensivos em energia térmica, mas também aos serviços e aos consumidores domésticos.
“Claro que a indústria é prioritária”, afirmou, apontando os casos da cerâmica e do vidro como exemplos de setores em que a eletrificação teria custos de investimento elevados e poderia tornar a energia “muito mais cara no futuro”.
O responsável defendeu ainda que o consumo doméstico deve fazer parte da discussão sobre os gases renováveis, num contexto de preocupação com a acessibilidade da energia.
“O consumo doméstico de gás é francamente mais barato do que o consumo equivalente de eletricidade. E vamos impor esse ónus aos consumidores finais?”, questionou.
“Acreditamos que o biometano pode, e deve, ser dirigido tanto à indústria como aos serviços ou aos consumidores finais”, reforçou.
Questionado sobre os motivos da criação da associação, explicou que “foi lançada neste momento porque o momento assim o exige”, justificando a criação da estrutura com o debate em curso sobre o futuro do sistema energético europeu e nacional.
Segundo o responsável, estão atualmente em discussão leis, planos de financiamento e regulamentos, tanto no contexto europeu como nacional, e as decisões tomadas agora vão condicionar o setor “para as próximas décadas”.
Sobre o Plano de Ação para o Biometano, que aponta para uma meta de 2,7 TWh em 2030, Gonçalo Salazar Leite considerou o objetivo “perfeitamente realista”, mas dependente de maior rapidez na implementação.
Entre as prioridades, apontou a simplificação normativa, a construção de mecanismos de mercado e o reforço do diálogo entre os vários intervenientes.
“O que precisamos é de acelerar a construção de legislação e a implementação que leve a integrar os gases renováveis nas políticas públicas e que permita a aceleração do processo de construção desta indústria”, afirmou.
Atualmente existem três unidades de biometano em funcionamento em Portugal, mais de 50 potenciais projetos identificados pelo LNEG e mais de 70 unidades sinalizadas pela associação que poderão ser construídas “a muito curto prazo”.
“Uma só unidade de todas as que temos neste momento em produção já abastece um terço dos concelhos de Évora, Beja, Olhão e Portimão com gás renovável”, afirmou.