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Aquilo que o país tem a menos, a seleção tem a mais – se é que isso pode existir. Apenas uns dias depois da estreia a ganhar dos cafeteros frente ao Uzbequistão, numa entrada a vencer que só tinha acontecido até aqui em 1990 (EAU, 2-0) e em 2014 (Grécia, 3-0), a Colômbia ficou praticamente dividida ao meio nas eleições presidenciais que deram a vitória a Abelardo de la Espriella, um candidato de extrema-direita apoiado por Donald Trump e Javier Milei que venceu Iván Cepeda, um senador de esquerda da linha do líder Gustavo Petro, por menos de 1%, com uma diferença abaixo dos 250.000 votos. Houve dúvidas, acusações de fraude e muita contestação aos resultados, sobrou o retrato de uma sociedade que sofreu uma viragem ao mesmo tempo que acentuou as suas diferenças. Ou seja, um retrato que é a perfeita antítese do que se passa em torno da seleção. E a antítese de uma unanimidade crescente em torno da grande figura: Luis Díaz.
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Há dois anos e meio, o então jogador do Liverpool vivia um momento pessoal dramático quando viu o pai ser raptado e ficar em cativeiro durante quase duas semanas. O grupo guerrilheiro ELN (Exército de Libertação Nacional), que esteve por trás de tudo, assumiu mais tarde o “lapso” do movimento, dizendo que, a partir do momento em que soube a identidade da pessoas em causa, preparou logo a sua libertação “por ser alguém próximo de uma figura do país”. No entanto, e com o passar dos dias, o drama aconteceu. O avançado não esqueceu mas, aquilo que não o “matou”, deu-lhe ainda mais força – e após um reencontro com muitas lágrimas pelo meio com o progenitor, bisou frente ao Brasil numa vitória histórica com dedicatória especial. Agora, esse caso foi recordado depois de um vídeo que rapidamente se tornou viral onde Luis Mane Díaz, pai do agora jogador do Bayern, orava de joelhos pelo filho e pelos cafeteros. Aqui, ao contrário do que se passa no cenário político desenhado no passado fim de semana, todos estão unidos e com fé na história.
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“Desde o aquecimento que senti que algo especial iria acontecer. Muitas coisas do passado voltaram à tona porque lutei por estes momentos. Cumpri o sonho de criança com a minha seleção e o meu país. O que poderia ser melhor do que concretizá-lo com um golo e uma assistência? Tenho de me sentir orgulhoso, feliz e desfrutar destes momentos lindos que a vida e o futebol me dão. Se posso sonhar com a conquista da Bola de Ouro? Estou concentrado na seleção e em fazer um bomMundial. Se fizermos um bom trabalho, o lado individual vai sobressair. Só quero trabalhar para a equipa”, comentou o jogador que passou pelo FC Porto e que voltava a ser aposta inicial a par de outros nomes bem conhecidos dos adeptos nacionais como James Rodríguez ou Luis Suárez (Richard Ríos e Santiago Arias voltavam a começar a partida no banco).
Do lado da RD Congo, havia dois fatores adicionais de motivação para esta segunda jornada. Por um lado, o empate conseguido diante de Portugal na ronda inicial em Houston. Por outro, a presença de Michel Nkuka Mboladinga, o adepto mais conhecido do país que não chegou a tempo para ver o jogo inaugural mas estava agora no México, mais concretamente em Guadalajara, para confirmar (ou não) que quando está atrás da baliza tem a força para conseguir evitar golos – entre a homenagem que faz em todos os encontros a Patrice Lumumba, primeiro líder de governo eleito livremente no país assassinado na década de 60. Era novamente um duelo entre David e Golias nas bancadas, era novamente um duelo que os africanos queriam que não se transformasse numa luta entre David e Golias dentro de campo… como aconteceu com Portugal.
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Kayembe, logo no primeiro minuto, deixou um aviso à baliza colombiana mas a reação dos cafeteros chegou com toda a força, tendo três grandes oportunidades em dez minutos: Daniel Muñoz apareceu na área para fazer a recarga após defesa de Mpasi a remate de Jhon Arias mas a bola bateu no poste (4′), o mesmo Muñoz surgiu de rompante da direita para o meio pouco depois para marcar na sequência de nova defesa do guarda-redes da RD Congo mas o lance foi invalidado por fora de jogo (6′), James Rodríguez teve um fantástico tiro de fora da área para uma defesa ainda melhor de Mpasi (10′). O “homem estátua” já era filmado pela TV com a habitual posição nas bancadas mas eram os sul-americanos que estavam por cima, sempre com ordem para rematar de qualquer lado como aconteceria por Johan Mojica para nova intervenção do número 1 congolês (15′) e por Luis Díaz, num trabalho individual na área, para Mpasi defender com as pernas (16′).
Se a Colômbia transformou o jogo numa espécie de “tiro ao boneco”, como voltou a acontecer num remate de longe de Puerta, Lionel Mpasi, guardião de 31 anos do Le Havre, mostrava que era o Homem de Plástico, mostrando de novo a sua elasticidade para desviar para o lado a tentativa (20′). O posicionamento de James Rodríguez mais por dentro para Muñoz dar a largura pela direita era o segredo para o ascendente da equipa da Colômbia mas a paragem para hidratação acabou por quebrar o ímpeto dos cafeteros, que sentiram mais dificuldades perante o melhor encaixe da organização defensiva dos africanos para criarem oportunidades.
A reentrada dos sul-americanos foi mais lenta mas nem por isso deixaram de aparecer as chances para o golo como sempre impedidas por Mpasi, que voltou a ter uma enorme intervenção a remate de Luis Díaz na área antes da recarga de Jhon Arias ao lado (50′). No entanto, esse momento não conheceria uma continuidade, num cenário que em nada melhorou com as saídas de James Rodríguez e Luis Suárez para as entradas de Juan Quintero e Jhon Cordoba. Pela primeira vez a hipótese de haver um nulo estava em cima da mesa mas a “sorte” protegeu os mais audazes, com um remate do lateral Muñoz a sofrer um desvio num defesa contrário e a inaugurar o marcador não dando hipóteses a Mpasi (76′). Luis Díaz viu dois grandes golos anulados, um por falta sobre Mbemba e outro por fora de jogo, e seria a RD Congo a reagir em cima dos 90′, com Camilo Vargas a fazer a primeira defesa do jogo a um grande remate de Mbuku de fora da área.
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A estrela
- A certa altura da primeira parte, era quase “tiro ao boneco”. A Colômbia de todas as maneiras e feitios mas, quando os remates eram enquadrados, havia sempre uma barreira a segurar o empate: Lionel Mpasi. O experiente guarda-redes de 31 anos dos franceses do Le Havre não chegou ao número de intervenções de Eloy Room de Curaçau, na partida diante do Equador, mas foi um autêntico Homem de Plástico a arranjar formas de manter o nulo entre defesas mais para a fotografia… que também contam. Entre uma RD Congo que tentava fazer prevalecer a organização defensiva, foi ele o herói da equipa até ao minuto 75, altura em que os colombianos conseguiram finalmente inaugurar o marcador num tiro que desviou num defesa congolês e acabou por enganar o guarda-redes que ia no sentido contrário.
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O joker
- Tinha sido o marcador do primeiro golo da Colômbia frente ao Uzbequistão, voltou a ser o herói da vitória dos cafeteros na segunda jornada do grupo K: depois de uma primeira parte com um pulmão de fazer inveja a qualquer atleta de fundo, Daniel Muñoz foi perdendo gás nessa dupla missão de fechar à direita como lateral mas atacar como um falso ala mas teve ainda o fôlego para aproveitar uma bola que parecia perdida na área após passe de Juan Quintero para rematar de pé esquerdo, ver a bola bater num adversário, mudar de trajetória e inaugurar o marcador já no último quarto de hora do encontro.
A sentença
- Com esta vitória, a Colômbia ascende ao primeiro lugar do grupo K com seis pontos, mais dois do que Portugal. Assim, a luta pela primeira posição é fácil de explicar: se os sul-americanos ganharem ou empatarem passam como líderes, a Seleção terá de vencer para seguir nesse posto para os 16 avos. Já para a RD Congo, nada começou mas também nada acabou neste Mundial: com um ponto, a formação africana pode garantir a qualificação via terceiro lugar caso vença na última ronda o Uzbequistão.
https://twitter.com/OptaAnalyst/status/2069634727318004177
A mentira
- Uma notícia boa: quando se pensava que este poderia ser mais um jogo a ter problemas de paragens por suspensão como o França-Iraque, ainda houve uma chuva mais forte no final da primeira parte mas tudo acabou por decorrer dentro da normalidade. Uma notícia má, pelo menos para a Colômbia: quando Néstor Lorenzo decidiu tirar James Rodríguez e Luis Suárez da equipa, com entradas de Juan Quintero e Jhon Cordoba, a equipa sul-americana baixou de rendimento, criou menos, tornou-se previsível e acabou por complicar ainda mais uma missão que já estava complicada desde o início do jogo.