A indústria eletrodigital sempre foi uma infraestrutura silenciosa da economia. Hoje, é uma das forças mais decisivas da transformação económica do país.
A eletrificação da economia, a digitalização das infraestruturas, a transição energética e a modernização industrial deixaram de ser tendências futuras. Estão já a redesenhar o investimento, o emprego e a competitividade nacional.
Os dados do Estudo Anual do Mercado de Material Elétrico em Portugal da AGEFE, apresentados no Encontro Setorial que promovemos recentemente em Ílhavo, ilustram bem esta realidade. O material elétrico — um dos pilares da indústria Eletrodigital — num ano pautado por desafios macroeconómicos globais, registou um crescimento próximo dos 13%, muito acima da média da economia nacional.
O dinamismo verificado reflete-se de forma clara em duas frentes complementares: a solidez do mercado interno e a competitividade além-fronteiras. No panorama doméstico, as vendas ultrapassaram a barreira histórica dos 1,4 mil milhões de euros. Este valor reflete uma prioridade cada vez mais evidente no país: qualificar infraestruturas e preparar edifícios, redes e sistemas industriais para uma economia mais eletrificada, eficiente e digital.
Simultaneamente, as exportações cresceram 11,5%, demonstrando a resiliência e a qualidade das empresas portuguesas, que conquistam cada vez mais espaço nas cadeias de valor globais.
Esta afirmação internacional ganha ainda mais relevância num momento em que Portugal reencontra uma nova centralidade estratégica. A posição atlântica, a afirmação como hub digital e as condições naturais para a produção de energia renovável — da exposição solar ao potencial eólico da costa — dão ao país ativos decisivos numa economia cada vez mais eletrificada, digital e descarbonizada.
O crescimento foi particularmente forte nas áreas ligadas à eletrificação e à inteligência das infraestruturas. A distribuição de energia cresceu quase 20%, os cabos e condutores, cerca de 14%, e a área de intercomunicação, segurança e domótica registou um crescimento expressivo de 22%. Estes números mostram que a transformação já começou: as infraestruturas portuguesas estão a tornar-se mais eficientes, mais conectadas, mais seguras e mais inteligentes.
Também no capital humano, os sinais são particularmente encorajadores. O emprego cresceu 4,6%, acima da média nacional, acompanhando a forte expansão da atividade.
Num mundo em que a inteligência artificial redefine profissões e levanta dúvidas legítimas sobre o futuro do emprego, as competências técnicas especializadas voltaram a ganhar uma atratividade que há muito não tinham. A capacidade de instalar, operar e manter infraestruturas físicas complexas — das redes elétricas aos centros de dados, da automação industrial às soluções de eficiência energética — é, por natureza, resistente à substituição algorítmica. O setor em Portugal já acompanha esta evolução, estando hoje mais jovem, mais qualificado e mais paritário. A transição eletrodigital não é apenas uma oportunidade económica, é também uma resposta concreta a uma das maiores ansiedades do nosso tempo.
Mas existe uma dimensão ainda mais estratégica: esta indústria atrai investimento e emprego qualificado para as suas atividades diretas e, simultaneamente, reforça a competitividade de todas as restantes. Poucos setores têm hoje um efeito multiplicador tão transversal sobre a competitividade do país.
E no entanto, quando se fala de transição energética, de descarbonização ou de soberania digital, raramente é esta indústria que ocupa o centro do debate. Celebram-se os parques solares, anunciam-se os centros de dados, definem-se metas climáticas, mas a indústria eletrodigital, que na sua dimensão infraestruturante torna tudo isso possível, continua tão presente quanto implícita, tão necessária quanto invisível. É tempo de mudar. Não por reconhecimento simbólico, mas como ato político de lucidez estratégica: um país que não identifica claramente os motores da sua transformação dificilmente os pode aproveitar, desenvolver e projetar para o futuro.
O presente já é eletrodigital.
E o futuro será ainda mais.