Estamos a viver um momento em que muitos católicos esperavam que o novo Papa conseguisse unir uma pastoral mais aberta com o pragmatismo que os tempos atuais exigem. No entanto, o discurso continua muito centrado na ideia de acolhimento sem condições, repetindo insistentemente “acolher, acolher, acolher”.
Esta mensagem começa a soar desconexa perante a realidade que as populações europeias / ocidentais vivem no dia a dia. Em Portugal, a população residente já ultrapassou os 11,4 milhões de habitantes, dos quais cerca de 1,6 milhões são estrangeiros — mais de 14% do total. Este aumento rápido faz-se sentir na saúde, na habitação e nos serviços públicos, gerando crescente fadiga social.
Um dos pontos mais criticáveis é o facto de a Igreja falar quase exclusivamente para quem tem de acolher, mas raramente dirigir palavras exigentes e firmes aos governantes dos países de origem, muitos deles responsáveis pela corrupção, má governação e falta de condições que obrigam as pessoas a emigrar em massa.
A compaixão cristã é essencial, mas sem distinguir claramente entre quem realmente precisa de proteção e quem explora o sistema, e sem exigir responsabilidades aos países de emigração, o discurso perde credibilidade junto daqueles que todos os dias pagam a conta com mais tempo de espera e menor qualidade de vida.
No final, a Igreja tem o dever de recordar os valores evangélicos, mas precisa de o fazer com realismo. Sem essa síntese entre compaixão e verdade dos factos, o próprio apelo ao acolhimento acaba por gerar o efeito contrário: mais rejeição e mais afastamento.