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(A) :: Os rankings de Messi, as conversas com Bruno e os segredos de MacPhee até ao “I'm back”: o outro lado do jogo histórico de Ronaldo

Os rankings de Messi, as conversas com Bruno e os segredos de MacPhee até ao “I'm back”: o outro lado do jogo histórico de Ronaldo

Ronaldo deixou de ser “problema” e volta à ribalta com dois golos e o prémio de melhor em campo. Como? Seguimos CR7 durante os 90 minutos. Vimos raiva, fome e alívio no regresso de quem nunca partiu.

Miguel Cordeiro
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Durante 90 minutos, as objetivas das câmaras, os ecrãs gigantes e os olhos de 68.777 espectadores no NRG Stadium, em Houston, ignoraram quase tudo o resto para se fixarem num único homem. Cristiano Ronaldo subiu ao relvado para a sua 230.ª internacionalização e carregou o peso de um sufocante debate mundial: seria ainda a solução ou passou a ser definitivamente um “problema” para a Seleção Nacional? Na cidade norte-americana que o mundo habitualmente associa à resolução de crises espaciais, o capitão português voltou a provar que é de outro planeta e operou um renascimento com uma exibição cirúrgica que começou a ganhar forma muito antes do apito inicial.

Analisado ao pormenor, este renascimento de CR7 frente ao Uzbequistão teve um gatilho emocional invisível para a maioria, disparado ainda durante o aquecimento, quando os ecrãs do estádio mostraram os rankings do Mundial, com Lionel Messi na liderança de várias categorias — criatividade, ataques e golos. O que se seguiu foi uma resposta em forma de lição: sete remates, dois golos de raiva pura e uma inteligência posicional desenhada ao milímetro com Bruno Fernandes e Nuno Mendes — incluindo um lance genial de bola parada onde Ronaldo nem precisou de tocar na bola para enganar toda a defesa adversária. Pelo caminho, superou Eusébio e isolou-se no Olimpo futebolístico ao tornar-se no primeiro jogador da História a marcar em seis Mundiais diferentes.

Mas esta não foi apenas a tarde em que o “titânio” de Portugal provou a sua imunidade à corrosão das críticas. Foi também a história de uma liderança silenciosa e de uma cumplicidade estratégica detalhada com o banco de suplentes. Entre conversas secretas com o especialista Austin MacPhee durante as paragens para hidratação e um trabalho defensivo precioso na área de Diogo Costa, Ronaldo jogou para o coletivo, antes de a equipa passar a jogar obsessivamente para ele na caça a um hat-trick que esteve por um triz no segundo final do encontro.

Quando o árbitro apitou para o fim da goleada por 5-0, o homem que muitos queriam ver no banco virou-se para as câmaras e gritou com alma:I’m back!. O Observador seguiu cada passo, cada toque, cada troca de palavras e as rotinas sagradas do capitão em Houston. Desmontamos à lupa os 90 minutos de uma tarde histórica: os segredos por trás da nova rotação ofensiva de Roberto Martínez, o pacto de união com o grupo e os detalhes do regresso daquele que, na verdade, nunca partiu.

A faísca que faltava na rotina que não muda

É Cristiano Ronaldo o primeiro a subir ao relvado do NRG Stadium. A rotina de entrada é sempre a mesma. Pisa o relvado, corre para o vértice da área oposta ao banco de suplentes, sente a bola e segue para a linha lateral. Aplaude para as bancadas e recebe o carinho dos adeptos. Depois, segue para o outro lado, para a outra linha lateral, e faz exatamente o mesmo. Recebe uma enorme ovação. É uma rotina de entrada que se cumpre há anos. No NRG Stadium não foi diferente.

O capitão português sabe que é centro das atenções em qualquer palco que pise e abraça isso com normalidade. Nos primeiros minutos do aquecimento, antes do jogo frente ao Uzbequistão, ensaia dribles à entrada da área, olha para a baliza e fixa depois as atenções nas bancadas. Sente o peso da responsabilidade. Está prestes a representar Portugal pela 230.ª vez, mas sente a camisola como se fosse a estreia. Focado, remata à baliza para descarregar a ansiedade. Marca e o estádio celebra.

A ativação com os colegas de equipa acontece enquanto troca palavras e gestos de motivação. Ronaldo fala e acena também para alguns repórteres na linha lateral e para os adeptos mais jovens que ficam radiantes por estarem a ver o ídolo a poucos metros. É nesse momento que aperta os punhos com força, levanta os braços para as bancadas e pede apoio. O homem que passou uma carreira inteira a silenciar os críticos sente que, neste Mundial, o apoio é fundamental para a equipa portuguesa.

No pulso esquerdo, a fita branca protege a pulseira oferecida por Luís Montenegro. Tem o nome de toda a equipa naquele pulso, incluíndo o de Diogo Jota. É essa fita que vai ajeitando durante o aquecimento. Se há alguém que tem pulso firme é ele, e é isso que vai provar na cidade que recebe os problemas, mas que também os resolve.

É durante o aquecimento que surge o gatilho que faltava. Ronaldo escuta várias estatísticas apresentadas nos gigantescos ecrãs do NRG Stadium. Olha para cima e vê o nome de Messi em vários rankings: criatividade, ataques e golos. Foi a faísca. Ronaldo olhou fixamente para aqueles números. Depois procurou a bola mais próxima, fixou a baliza e rematou com raiva. Entrou. O estádio gritou de pé. É no topo daqueles rankings que Ronaldo quer estar e tinha chegado o momento de fazer por isso.

Nos treinos de finalização, conversa várias vezes com Bruno Fernandes e Cancelo. Explica onde quer a bola e ensaia com os colegas. Mais do que o remate, quer ensaiar a receção enquadrada. Pede bolas para o pé esquerdo e para o direito. Quer ter a pontaria afinada com os dois pés.

No fim, abraça todos os colegas de equipa. Não falha um. Lidera a corrida que finaliza o aquecimento e segue para o balneário com o olhar fechado. Nas imagens dos ecrãs gigantes do NRG Stadium vê-se o rosto de um homem focado.

Um hino de frente para o país

A 10 minutos do pontapé de saída, a primeira grande ovação no NRG Stadium. De fato de treino, a liderar a comitiva portuguesa, Cristiano Ronaldo não perde a compostura quando o estádio grita assim que aparece nos ecrãs. Concentração máxima.

A equipa sobe ao relvado sob a liderança de CR7 e todo o plantel se reúne no centro do relvado. O hino de Portugal é o primeiro a ser entoado no estádio de Houston. Ronaldo vira as costas à equipa de arbitragem e coloca-se de frente para a bandeira. Abraçado a Diogo Costa, canta o hino. É a 230.ª vez que o faz com a camisola principal de Portugal. Mais do que qualquer outro jogador português.

Depois de cumprimentar os árbitros e os jovens que estão no centro do relvado, tira o casaco e cumpre mais uma rotina: bebe água junto ao banco de suplentes, refresca o rosto e o pescoço, acerta o penteado e só depois segue para escolher bola ou campo com o capitão da equipa adversária. No potente sistema de som do NRG Stadium, grita-se Titanium — uma mistura de David Guetta e Morten. É a canção ideal. Seria difícil encontrar um melhor metal para descrever o que aí viria. Ronaldo, como o titânio, é conhecido pela sua alta resistência mecânica, força e extraordinária resistência à corrosão. O jogo desta terça-feira iria provar isso mesmo. Ronaldo quer ser o titânio de Portugal, e tal como o metal, procura a imortalidade.

Focado, conversa com Cancelo, Bruno Fernandes e Félix. Vão ser os grandes parceiros de Ronaldo neste jogo. O capitão sabe disso. Tem a lição estudada, sabe de onde podem vir a oportunidades. O grupo reúne-se uma última vez no centro do meio campo que defende na primeira parte. Ronaldo não fala. Deixa para Bruno e Félix. Depois dos aplausos, CR7 deixa o grupo com um sorriso. Entusiasmado, está pronto para atacar o desafio que o irá colocar novamente no Olimpo.

“Guess Uzbeque”

Assim que o Uzbequistão dá o pontapé de saída, Ronaldo ataca a área dos asiáticos. Não vai sair do ataque. Quer estar lá em todos os momentos de distração e quer estar pronto para atacar qualquer situação criada pela equipa portuguesa.

É no primeiro minuto que todo o estádio canta pela primeira vez o nome de Cristiano Ronaldo. E é pouco depois que Bruno Fernandes ensaia o primeiro passe para o capitão português. Ronaldo não ataca o primeiro poste e perde-se o lance. Portugal entra a todo o gás. Bruno remata para corte dos uzbeques e aos três minutos e meio surge a primeira grande oportunidade para CR7. Cruzamento de Nuno Mendes, Ronaldo, praticamente sozinho no centro da área, ainda toca, mas chegou atrasado. O estádio volta a cantar por ele.

Seguem-se jogadas pelos corredores, até que volta a funcionar a numerologia de Martínez. O mágico 6 funcionou também para o gigante 7. Vitinha desmarca Cancelo na direita, o lateral ataca a linha final, cruza e Ronaldo chuta ao primeiro toque. Explosão nas bancadas. Golo de Ronaldo. Sente-se a descarga de ansiedade, veem-se sorrisos de alívio e emoção. Ronaldo corre para o banco e todos querem abraçar o capitão. CR7 agarra-se a Diogo Dalot e depois a todos os outros jogadores. Como uma família em torno de um “pai”, que ultrapassa um obstáculo. Como uma família orgulhosa de um menino que cumpre um sonho. Naquele momento, em frente ao banco de Portugal, a comunhão transbordou.

Com este golo, Ronaldo tornou-se o primeiro a marcar em seis mundiais diferentes — mais um 6 para a numerologia de Martinez. Com este golo, CR7 voltou a sorrir. Com este golo, toda a equipa libertou-se da pressão.

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Ao contrário do que aconteceu com a  República Democrática do Congo, Portugal não recuou depois do golo. Manteve a mira na baliza adversária e Ronaldo foi peça-chave na pressão sobre a equipa asiática. Mas fez mais do que isso. Ronaldo ajudou a construir entre linhas, como aconteceu aos 12 minutos, para ajudar na construção de uma jogada ainda no grande círculo. Para além disso, conversou constantemente com os colegas de equipa, principalmente em situações de bola parada.

Terá sido precisamente uma boa conversa entre Ronaldo e Nuno Mendes que aos 18 minutos resultou no segundo golo de Portugal. Aos 14 minutos, Pedro Neto cai à entrada da área e Portugal fica com um livre em zona perigosa. É nesse momento que se reunem seis jogadores portugueses: João Neves, Bruno, Vitinha, Pedro Neto, Nuno Mendes e Ronaldo. Quatro afastam-se, ficam apenas os últimos dois. O arbitro demora a autorizar, há jogadores portugueses que se queixam do posicionamento da barreira. Nematov, o guarda redes uzbeque, não tira os olhos de Ronaldo. O capitão português não tira os olhos da bola. Dá inicio à rotina habitual. Inspira, expira, arranca lentamente para a bola e… Nuno Mendes remata. Golo de Portugal!

O remate certeiro de Nuno Mendes surpreendeu os uzbeques e colocou Portugal com dois golos de vantagem. Todas as câmaras que focavam Ronaldo viraram-se para Mendes, que foi abraçado pela equipa. CR7 espera e fica para o fim. Quando vê o defesa lateral sozinho, abraça-o e aplaude o golo.

Portugal não desarma. Os primeiro minutos ficam marcados por muitas faltas dos asiáticos e Ronaldo procura sempre a posição ideal para atacar a baliza adversária. Fica várias vezes para lá do último defesa uzbeque, mas sabe que o importante não é correr muito para trás e para a frente. O que importa, é correr no momento certo e vai provar isso mesmo ainda na primeira parte

Na pausa para hidratação, ao minuto 22, Ronaldo recebe indicações, juntamente com Bruno Fernandes. Bebe água, ajusta o penteado, fala com Dalot e João Cancelo. A um minuto do fim da pausa, está pronto. Começa a encaminhar-se para o relvado e percebe que os uzbeques já estão todos em posição. É um sinal do que está para vir. CR7 percebe e chama a equipa.

As cooling breaks mudaram o futebol. O jogo tem agora quatro partes e isso é notório em quase todos os jogos deste Mundial. No Portugal-Uzbequistão aconteceu o mesmo. Depois da paragem da primeira parte, Portugal ficou quase nove minutos sem criar situações de perigo e foi aí que os asiáticos tiveram mais atrevimento. Ao minuto 30, festejaram mesmo. Ronaldo está a acenar no meio campo, a pedir bola, quando João Cancelo perde em zona proibida e Ganiev remata em força e ao ângulo da baliza portuguesa. Loucura no banco do Uzbequistao, mas não contou. O VAR cancelou a festa. Fayzullaev fez falta sobre Cancelo antes do remate de Ganiev.

https://twitter.com/Cleverlydey4u/status/2069503530533007621

Portugal acordou e Ronaldo continuava com fome, como sempre. Aos 39 minutos, o capitão voltou a morder. Jogada de contra-ataque conduzida de forma magistral por Bruno Fernandes, que desmarcou na perfeição Cristiano Ronaldo. O capitão português teve tempo de olhar para a baliza, enquadrar-se e rematar de forma colocada para o 3-0. Dois golos de Cristiano Ronaldo ainda antes do intervalo. Sozinho, corre para a linha lateral e entrega aos fâs o que mais querem: salto, pose e “siu”!

Com este golo, Cristiano supera definitivamente Eusébio na lista de melhores marcadores de Portugal em campeonatos do mundo. É também com este golo que Ronaldo entra no top 10 dos melhores marcadores de sempre em Mundiais: tem agora 10 — um golo em 2006, um em 2010, um em 2014, quatro em 2018 e um em 2022. Em 2026 já leva dois golos.

O estádio volta a cantar por Cristiano Ronaldo. A primeira parte mostra um domínio completo do avançado português. Os milhares de fãs que vieram a Houston para ver CR7 podem guardar o bilhete e a memória de uma tarde histórica para o capitão da Seleção portuguesa.

https://twitter.com/WorldCupMedia/status/2069477406390604128

Ainda antes do intervalo, Ronaldo falha por pouco o hat-trick. Já com cinco minutos para lá dos 45 minutos, o cruzamento de Cancelo procurava CR7 na área, sozinho, que tenta meter a bola por cima do guarda-redes. Não consegue. Foi por pouco. A primeira parte termina com uma sensação de alívio em quase todo o estádio. Os problemas de Houston parecem desfeitos de vez.

45 minutos à procura de um hat-trick

Enquanto os jogadores se preparavam para regressar ao relvado para o segundo tempo, o DJ que animou as bancadas durante o intervalo atreveu-se a passar os primeiros acordes da canção dos White Stripes, Seven Nation Army. É esta canção que dá origem ao cântico de Ronaldo. Foi editada no mesmo ano em que CR7 se estreou pela Seleção Nacional. Naturalmente, o “exército” de adeptos, de bem mais que sete nações, cantou em plenos pulmões o nome do capitão português.

No regresso ao relvado, Cancelo e Pedro Neto foram substituídos por Nélson Semedo e Francisco Conceição. Ronaldo cumprimentou os dois e apontou para a cabeça, como quem pede concentração.

6

Com o primeiro golo logo nos minutos iniciais, Ronaldo tornou-se o primeiro jogador de sempre a marcar em seis fases finais do Campeonato do Mundo

10

Com o bis frente ao Uzbequistão, Ronaldo tornou-se o melhor marcador de sempre de Portugal em Mundiais, superando o registo de Eusébio em 1966 (nove)

145

Com os dois golos na segunda jornada do grupo K, Ronaldo leva um total de 145 golos por Portugal, reforçando o registo de melhor marcador de sempre por uma seleção (em 230 internacionalizações)

975

Depois de uma temporada onde marcou 30 golos pelo Al Nassr mais cinco por Portugal até ao Mundial, Ronaldo ficou apenas a 25 dos 1.000 contando com um total de 1.328 jogos oficiais na carreira

Portugal entra como saiu para os balneários. Pressão alta, rapidez no ataque e posse de bola dominadora. Foi a jogar assim que aos 47 minutos Cristiano levou as mãos à cabeça. Jogada associativa do lado esquerdo e, depois de ressaltos, Félix remata de fora da área. Passou por cima. Foi por pouco.

Logo depois, é por centimetros  que Ronaldo não consegue tirar a bola ao guarda-redes adversário. Na pressão constante que fez na saída de jogo dos uzbeques, faltaram várias vezes poucos centímetros a Ronaldo para conseguir chegar novamente ao golo.

Este trabalho para o coletivo não aconteceu apenas em zona adiantada no terreno. Ronaldo foi sempre uma peça-chave no trabalho defensivo da equipa durante as bolas paradas dos uzbeques. Aos 55, na área controlada por Diogo Costa, é ele que resolve de cabeça uma situação de ataque dos asiáticos e com isso dá início a um contra-ataque português.

Logo depois, já na frente, é ele que sofre a falta que vai dar origem ao primeiro grande lance de perigo de Portugal, também protagonizado pelo capitão. A 35 metros da baliza, Ronaldo e Bruno Fernandes afinam a estratégia. É em zona frontal, tal como CR7 gosta. Faz toda a rotina habitual. Seis passos para trás e um para a esquerda. Inspira e expira e agora parte com vontade para a bola. Mas volta a não rematar. Aliás, não chuta e passa pela bola como se nada fosse com ele. Parte para a barreira adversária e depois arranca em velocidade. Bruno Fernandes pica por cima da barreira para um Cristiano totalmente sozinho, mas Nematov sai da baliza a tempo e bloqueia o remate do capitão português.

A bola segue para canto e é desse quarto de circulo do lado direito que Portugal vai voltar a mostrar que tem um vasto livro de jogadas para as bolas paradas. Cruzamento de Bruno Fernandes, João Félix de calcanhar ao primeiro poste, bate num defesa uzbeque e depois no guarda redes que não consegue impedir o golo. É o quarto para Portugal. Auto-golo de Nematov aos 59 minutos.

Félix sai logo depois para entrar Trincão. Será o médio do Sporting a jogar perto do capitão nos minutos seguintes. Ronaldo, a olhar para o resultado que surge nos ecrãs, sorri. Percebe que o quarto golo deita completamente por terra as esperanças do adversário. O Uzbequistão deixa de conseguir dar resposta a tanto golo português. CR7 quer mais, mas não perde respeito pelo adversário. Aos 67 minutos, junto ao meio campo, fala com Khusanov, um dos melhores jogadores da equipa uzbeque. São poucos segundos de conversa, que terminam com uma palmada nas costas do  número 2 da equipa asiática.

Na pausa para hidratação, aos 69 minutos, Ronaldo conversa com Austin MacPhee. É um treinador escocês que integra a equipa de Martínez e é ele o responsável pelos lances de bola parada da Seleção portuguesa. Até este minuto, metade dos golos de Portugal neste jogo tinham sido de bola parada e foi também nesse tipo de situação que se criaram várias situações de perigo.

Martínez chama o capitão e reúne todos os jogadores junto ao banco de suplentes. Com um quadro negro na mão, dá indicações ao plantel. Aponta para vários jogadores e faz sinais para diferentes zonas do relvado. Quer acertar as posições e pede intensidade.

Ao contrário do que aconteceu na primeira parte, Portugal mantém o foco no regresso ao jogo depois da pausa de hidratação. Aliás, aos 72 minutos consegue construir bem pelo lado esquerdo, com um rendilhado de Nuno Mendes e Bruno Fernandes. A jogada perde-se e CR7 fica a falar vários segundos com o médio do Manchester United. Logo depois, ataca a pressão alta e consegue mesmo tirar a bola ao guarda-redes uzbeque. Foi por pouco que não conseguiu enquadrar-se para o fazer o terceiro golo. O estádio volta a cantar por Cristiano.

Martinez mexe novamente aos 75 minutos. Retira João Neves e dá minutos a Bernardo Silva. No estádio, um enorme número é anunciado: 68.777. Mais adeptos do que no jogo com a RD Congo. Três setes nos ecrãs é o que Ronaldo quer ver no final do jogo e por isso nunca desiste de atacar cada oportunidade.

Aos 81 minutos, o maior aplauso para um jogador português para lá de Ronaldo. Vitinha é substituído por Leão e recebe uma ovação de pé. Joga com perfume sempre que está em campo. Não marcou, nem assistiu, mas é por ele que passa todo o jogo de Portugal.

O ponteiros do relógio avançam rapidamente para o final do jogo e Ronaldo continua à procura do terceiro e mágico golo. Quer muito o hat-trick e a equipa começa a jogar para ele. Cruzamentos, passes, desmarcações. Mas nada dá resultado.

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O avançado também apresentou créditos sem bola, terminando a partida com os uzbeques com uma interceção e duas ações defensivas no meio-campo adversário

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O número de ocasiões consideradas flagrantes que Ronaldo não conseguiu converter apesar dos dois golos marcados

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O número de remates do capitão da Seleção contra o Uzbequistão, com cinco enquadrados com a baliza e dois golos

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Ronaldo terminou o encontro com um total de oito passes progressivos recebidos, algo que não acontecera frente à RD Congo

Aos 86 minutos, Ronaldo estava na área e festejou. Jogada de contra-ataque com Nélson Semedo a cruzar para a zona de CR7, mas é Leão que chuta e marca depois de um remate poderoso para o fundo da baliza uzbeque. É o quinto de Portugal.

Aos 90 minutos, Ronaldo ainda luta em todos os lances. No meio campo, tenta roubar a bola ao adversário e por pouco não consegue. Aos 94, depois não conseguir receber o passe de Conceição, já na área, luta por uma bola e faz falta junto à linha final. Também aos 94, sozinho no segundo poste, passe de Nuno Mendes, Ronaldo estica-se e falha por pouco. Seria a chave de ouro. Seria o hat-trick que desejava. Foi por um triz. Foi o último lance do jogo

Sozinho, já não recua e é desse local que escuta o apito do árbitro. Nesse momento, rodeado por câmaras, grita com raiva: “I’m back, I’m back!” — “Estou de volta”.

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O regresso de quem nunca partiu aconteceu em Houston, na cidade que se habituou a viver de problemas. Ronaldo não quer ser um. Quer sempre ser a solução. Fez dois golos, podia ter feito mais. Sabe que está de regresso à ribalta. De sorriso no rosto, rodeado por 5 câmaras e com todos os holofotes sobre ele, abraça os colegas de equipa e aplaude as bancadas.

Foi o melhor em campo, mais uma vez. Foi o líder da armada portuguesa. Deu início à goleada conquistada com “raiva” depois de dias de criticas e desânimo. Ronaldo is back. Que seja para ficar.

“Golos de Messi? Oh pá, quero lá saber…”: a passagem pela zona mista

Depois do encontro que fica na história do avançado e da Seleção, Ronaldo foi passando por vários pontos de entrevistas. “Resposta aos críticos? Sempre, são 23 anos assim… Recordes por Portugal? Estou muito feliz, mas para mim o mais importante é o trabalho que a equipa fez, a confiança que tivemos. Levámos muita porrada durante a semana, sabíamos que isso iria acontecer. A equipa trabalhou bem, melhorámos bastante. Há males que vêm por bem, como se costuma dizer. Falando de mim e dos recordes, é sempre bonito batê-los mas o meu objetivo é poder ajudar a Seleção a alcançar os seus objetivos. Nesta parte era passar a eliminatória, com quatro pontos acho que ja passámos”, comentou na SportTV.

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“Ketchup? Eu sabia, quem trabalha, Deus ajuda. Foi uma semana difícil, escura, parecia que já estava retirado do futebol, mas aguentei-me como me aguento sempre porque acredito mais no trabalho do que noutra coisa. Foi difícil, tenho que confessar, mas estamos de volta”, acrescentou, recuperando a expressão que veio dos anos 80 com Fernando Gomes e que marcou Ronaldo no Campeonato do Mundo de 2010.

“O objetivo era passar o grupo, já passámos. Obviamente, queremos ganhar o próximo jogo mas o objetivo principal era passar. Falo muitas vezes com os meus companheiros e tudo o que vem de fora é impossível de controlar. É uma grande virtude quem consegue controlar-se a si próprio, é o que eu tento fazer. Confesso que foi uma semana difícil em que a crítica foi muito forte, principalmente a mim. Mas isso, como vocês sabem, já tem 23 ou 24 anos. Consigo suportar bem. Existe sempre uma oportunidade de melhoria e foi o que aconteceu. Consegui fazer dois golos, que era um objetivo que desejava bastante, mas o importante foi a equipa. Jogámos bastante bem, com o bloco alto e os jogadores perto uns dos outros, que era o que nós queríamos porque sabemos que se jogarmos assim é muito difícil parar-nos”, frisou na TVI.

“Ia bater o livre mas disse ao Nuno ‘Vamos enganar o guarda-redes, ele vai pensar que sou eu. Chuta forte que vai ser golo’. Disse no princípio do jogo para estarmos unidos do início ao fim. O que nós controlamos é cá dentro, tudo o que venho do exterior é complicado controlar. Outros marcaram, era o objetivo. Hoje eu fui o melhor em campo, amanhã vai ser outro. Se estivermos unidos acho que podemos chegar bastante longe. Golos de Messi? Oh pá, quero lá saber…”, referiu depois na passagem pela zona mista.

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