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Conseguiremos ainda reconhecer o humano?

A IA não está apenas a desafiar o direito de autor. Está a revelar que a sociedade talvez já valorize mais a intensidade da emoção do que a autenticidade da sua origem.

Carlos Moura-Carvalho
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O que nos perturba não é a possibilidade de sermos enganados. É a facilidade com que desejamos acreditar.

Em reuniões internacionais dedicadas à inteligência artificial, ao direito de autor e à criação artística, tornou-se evidente que a questão mais difícil já não é técnica nem apenas jurídica. É cultural.

A pergunta deixou de ser o que a IA consegue criar e passou a ser aquilo que estamos dispostos a reconhecer como humano.

Há uns meses, um vídeo emocionou as redes sociais. No America’s Got Talent, Ernesto, carpinteiro de 54 anos, subia ao palco e cantava “Still Waiting at the Door”, como quem transforma a vida em música. O público chorou. Os jurados comoveram-se. O vídeo somou milhões de visualizações. Só que Ernesto não existia: nem a voz, nem a memória familiar, nem a dor que julgáramos reconhecer. Existia apenas uma narrativa gerada por Inteligência Artificial (IA), uma ficção construída para comover.

E nós, espectadores experientes, deixámo-nos encantar — sem resistência, sem hesitação.

Mais recentemente, num canal de televisão português, Pedro Santana Lopes apresentou, no final da sua participação semanal, a canção “Nada Más Fuerte”, da cantora Rebecca Montt, elogiou o ritmo e a voz da intérprete e só depois revelou que a artista não existe no mundo real. Tanto a voz como a imagem são subprodutos de algoritmos avançados.

Um estudo da Deezer–Ipsos mostra que 97% dos inquiridos não distinguem música criada por IA da música criada por seres humanos. Se quase ninguém distingue a origem de uma obra, o desafio deixa de ser apenas técnico e torna-se estético e cultural. A autoria parece deixar de ser condição necessária para que uma obra nos emocione. A literatura, a música e as artes visuais, que durante séculos giraram em torno da autoria e da biografia do criador, são agora interpeladas por uma pergunta nova: importa que haja um autor ou basta a experiência emocional?

Durante séculos, autenticidade e autoria caminharam juntas. A assinatura do criador conferia contexto, responsabilidade e significado à obra. Começamos agora a descobrir que uma parte crescente do público está disposta a prescindir dessa relação, desde que a experiência emocional permaneça intacta. Talvez seja essa a verdadeira mudança.

O direito reage. Os tribunais são chamados a decidir se modelos de IA reproduzem obras protegidas; o AI Act europeu impõe deveres de transparência relativamente a determinados conteúdos gerados por inteligência artificial; e as plataformas digitais procuram identificar automaticamente música e imagens produzidas por algoritmos. A lei procura estabelecer regras num território em rápida transformação. Pode exigir transparência. Não consegue, porém, determinar aquilo que decidimos valorizar.

A IA não está apenas a desafiar o direito de autor. Está a revelar que a sociedade talvez já valorize mais a intensidade da emoção do que a autenticidade da sua origem.

Os episódios de Ernesto e de Rebecca não são curiosidades tecnológicas. São um fenómeno cultural com uma dimensão antropológica que nos deveria inquietar. Se vozes inexistentes nos arrancam lágrimas autênticas, talvez seja porque procuramos — e não apenas nas redes sociais — a comoção e o arrepio. O real torna-se secundário; o essencial é que nos toque.

Aprendemos a reconhecer o valor de uma obra na mão que a cria. Mas e se estivermos a entrar num tempo em que nos emocionamos com vozes que nunca respiraram, poemas sem autor ou rostos pintados a partir do nada? A IA não nos substitui: simula-nos, com uma precisão quase desconcertante. E nós colaboramos. Até com entusiasmo.

Talvez estejamos a assistir ao nascimento de uma nova estética, em que importa menos quem cria do que aquilo que sentimos. A verdadeira questão já não é saber se a inteligência artificial nos conseguirá substituir. É perceber se continuaremos a atribuir um valor próprio ao que sabemos ter sido criado por um ser humano. Suspeito que, por enquanto, caminhamos nessa direção. Não porque sejamos ingénuos ou negligentes, mas porque a emoção, mesmo quando nasce de uma ilusão, continua a ser autêntica.

Num tempo em que a tecnologia consegue simular quase tudo, reconhecer o humano tornou-se uma escolha ética antes de ser uma questão estética. E as escolhas éticas, ao contrário das emoções, não se delegam em algoritmos.