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(A) :: O fatal desencontro

O fatal desencontro

Talvez que a política tenha sido trocada pela instalação no poder e em “lugares”. E desde que não dê grandes chatices, fica-se “assim”: no “ir-se andando”, sem andar.

Maria João Avillez
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1 Não durou muito, alguns meses, nem me era uma realidade desconhecida, mas ter lidado directamente com ela foi como estar em dois planetas ao mesmo tempo ou viver duas vidas em simultâneo. Numa, na vida “de todos os dias”, existe um país encavado em si mesmo, sem “anima”, motor e talvez sem conserto. Na outra – no mesmo mundo, no mesmo hemisfério, na mesma língua – há ambição, invenção, resultados, dinheiro. Em relevo.

Na primeira – brevíssimo resumo – anda-se às costas com uma lei laboral cujo arrasto pastoso começou por fazer dela um atamanco e hoje um instrumento sem serventia. Observa-se uma actividade governamental que mexe — quem nega? – mas não avança – quem nega? À vista desarmada, Luís Montenegro tem vencido todos os debates no hemiciclo – enorme talento parlamentar, jogo de cintura, resposta prontíssima, assertividade, ênfase, humor. Impossível negar. O Primeiro Ministro porém, e apesar de uma indiscutível resiliência – a sua melhor qualidade –, não tem ganho o governo: a política anda-lhe sumida. Não o vemos “ocupá-la” em cheio, cuidar politicamente as grandes causas e coisas. Como se coubesse exclusivamente aos ministros o todo e o tudo das respectivas pastas. Não cabe: o maestro é que – interpretando a importância e a relevância das obras – rege os seus músicos, escolhendo qual a ressonância, o tom, o ritmo para os diversos andamentos da partitura. Não se julga ser o caso (de resto, onde está inscrita no país a hegemonia, ou uma grande relevância – política, económica, social, cultural – da AD e do seu executivo? )

Claro que há o resto que não é pouco e pesa muito: em cinquenta anos nunca Portugal esteve tão polarizado, amargo, fragmentado nem a sociedade tão deslassada. Lidar com isto é novo e duro. Ensurdece-se com a mentirosa mas não inócua gritaria do Chega; pasma-se com a soma de erros no PS, afogado na debilidade da sua liderança; foge-se da inclassificável hipocrisia das extremas esquerdas com os seus eleitos e as suas flotilhas. E lamenta-se a surpreendente impreparação presidencial a quem outros preferem chamar “sonsice”. O clima é baço e desesperançoso e os golos da selecção — que, tal como Ronaldo, passou de besta a bestial em dias – são um consolo magnificamente festivo, mas a bola rolou num relvado e não a mesa do Conselho de Ministros e nenhum jogador é do governo.

Talvez que a política tenha simplesmente sido trocada pela instalação no poder e em “lugares”. E desde que não dê grandes chatices, fica-se “assim”: no “ir-se andando”, sem andar (e não é um Congresso e mais medidas que mudam, como não mudaram até aqui). Foi o que não aconteceu – mas era suposto acontecer – nos últimos dois anos que (me) impede um olhar menos toldado pela descrença.

2 Por razões profissionais competiu-me fazer alguns intervalos no visionamento da novela nacional supra. Passando de um país para outro sem sair do meu, como se tivesse ocorrido um “deslizamento” do real para o irreal. Ou mais rigorosamente, o deslize para uma realidade paralela: o território da excelência. O desse Portugal em relevo onde tudo funciona bem e do qual erradamente se dirá “como que por encanto”. Mas não: não houve especial encanto, houve iniciativa, esforço, trabalho, suor, perseverança, mérito. Um conjunto de “instrumentos” a que normalmente se chama “vontade” e que também normalmente ocorre quando se substitui a semi-dormente instalação no onde “se está”, pela ambição no onde se poderá vir a estar.

Ainda há dias conversando com uma mulher, principal responsável por uma enorme e very sucessfull instituição, a ouvi dizer-me: “nunca achei que nada fosse impossível”. Como ponto de partida, estava tudo dito. Sem surpresa: nunca ouço nada de muito diferente quando me cruzo com os habitantes deste território. E se obviamente os “preocupa” o estado de saúde do país – magreza da economia, persistente “increscimento”, flagelo da habitação, irremovível burocracia, decadência das instituições, vacilante autoridade do Estado — não desistem porque nunca se instalaram. Não se queixam, fazem. Vencem e convencem, dentro e fora de portas. Ou seja: é possível, foi possível. E conversar com eles e elas, fazer-lhes perguntas, ouvi-los pensar alto, contar vidas e discorrer, como me aconteceu nos últimos meses foi uma fertilíssima viagem por vários “departamentos” da vida: ciência, enologia, economia, humor, banca, academia, musica, gastronomia e eis um leque aberto com assinatura em cada uma das folhas do leque.

Mas há muitos mais leques abertos.

3 Assim contado parece uma trivialidade, uma história comezinha, sempre houve bons e maus, e sempre houve “melhores”. La Palisse, etc. Claro. Sucede que a excelência portuguesa – cada vez melhor e mais qualificada – é excelentíssima. Vai ser preciso contá-la, aprendê-la e segui-la cada vez mais: conversar com António Coutinho, ouvir Paulo Macedo, discorrer com Vítor Gaspar, seguir António Feijó na Gulbenkian, ver Diogo Infante num palco, Laginha ao piano, Sobrinho Simões a “contar” uma vida, destoa muito dos dias que nos servem. E porque os últimos serão as primeiras, estar com Isabel Guerreiro, presidente do Banco Santander e primeira mulher a dirigir um banco entre nós – não se parece nada com levar com o histrionismo exaltado de Ventura ao café ou com apreciar José Luís Carneiro num ecrã a comover-se com a má saúde do país tendo o PS contribuído generosissimamente para a sua debilidade durante uma década. São mundos inequiparáveis.

Onde – com pouco ou muito pouco a ver com o dinheiro – uns ligam o motor da vontade e outros o preferem desligado.

Vivem melhor “assim”. O país é que não, fatal desencontro.