Depois dos 40 °C dos últimos dias em grande parte do país chegam o granizo e os relâmpagos com as trovoadas e a descida significativa das temperaturas. Portugal prepara-se para uma alteração brusca do estado do tempo, com uma mudança de massas de ar, mas os climatólogos avisam que o país escapou por pouco à parte mais violenta da cúpula de calor que está a sufocar a Europa. O regresso das trovoadas ao norte e centro do território, depois de vários dias de calor, pode parecer contraditório, mas os dois fenómenos estão intimamente ligados.
Quando o ar muito quente e húmido acumulado junto ao solo sobe rapidamente para níveis mais elevados da atmosfera, encontra temperaturas muito mais baixas. O vapor de água condensa, formam-se nuvens de grande desenvolvimento vertical e começam a surgir cristais de gelo. “Formam-se cristais de gelo e se tivermos movimentos ascendentes muito violentos, por atrito entre os pedaços de gelo, vão gerar-se cargas elétricas”, explica Carlos da Câmara, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e especialista em climatologia e alterações climáticas.
É esse processo que produz relâmpagos, trovões, chuva intensa e, por vezes, granizo. Aquele que estraga as uvas e faz cair as cerejas, entre outros estragos. Porque as trovoadas são características destes meses. “Maio é mês das trovoadas”, sempre se ouviu no Alentejo e no Douro, diz Carlos da Câmara, “sempre se rezou a Santa Bárbara” por esta altura. “Este tipo de trovoadas é típico desta estação do ano e muito comum quando temos ar muito quente associado a ar húmido.” O ar húmido, é preciso relembrar, chega esta quarta-feira à tarde e fica até sábado (quando as temperaturas voltam a começar a subir) devido à depressão em altitude situada a oeste da Península Ibérica que trouxe o vento fresco que afastou a cúpula de calor 200 ou 300 quilómetros para o interior da Europa e agora entrará pelo continente com alguns aguaceiros e a descida acentuada das temperaturas. É uma troca de massas de ar, a de calor por uma húmida e bem mais fria.
https://twitter.com/bestweather_/status/2069393403368911146
https://twitter.com/Independent/status/2069444680383615318
O IPMA colocou os distritos do Porto, Braga, Vila Real e Viana do Castelo sob aviso amarelo para quarta e quinta-feira devido à possibilidade de aguaceiros, granizo e trovoadas. Mas estas tempestades não serão exclusivas do país: no Reino Unido, uma tempestade associada à onda de calor produziu um fenómeno pouco habitual para os padrões britânicos. Segundo o Met Office, foram registadas 29.074 descargas elétricas nas 24 horas anteriores às 9 horas da manhã desta terça-feira, enquanto uma linha de trovoadas atravessava o sul de Inglaterra. Imagens de relâmpagos a iluminar os céus de Londres tornaram-se virais nas redes sociais. “Com uma atmosfera mais energética, posso ter tempestades mais energéticas”, resume Carlos da Câmara.

Mas enquanto Portugal já arrefece, França ainda vive os dias mais quentes da sua história (esta terça bateu recordes), Espanha mantém alertas por calor extremo e o Reino Unido enfrenta temperaturas próximas dos 39 graus. Resumindo: enquanto o calor está a perder força em Portugal, a anomalia atmosférica que o provocou continua bem viva sobre a Europa. Na ótica de Carlos da Câmara, a mudança do estado do tempo não significa que o episódio tenha terminado. “O facto de as previsões terem melhorado em nada altera a gravidade do fenómeno”, alerta. “Visto integralmente, é uma anomalia brutal.”
https://twitter.com/MeteoredPT/status/2069461504550641787
https://observador.pt/programas/resposta-pronta/metade-da-franca-esta-em-alerta-vermelho/
Portugal escapou por pouco. A Europa não
Apesar da descida das temperaturas prevista para os próximos dias, Carlos da Câmara considera que Portugal ficou apenas na periferia da situação mais grave da cúpula de calor: “Portugal escapou.” Segundo o climatólogo, bastaria um pequeno desvio da posição dos sistemas atmosféricos para que o cenário fosse muito diferente. “Não é nada de especial um sistema destes deslocar-se 200 quilómetros para leste e 300 para norte.”

O que impressiona os especialistas não é apenas a temperatura atingida em determinadas cidades, mas a dimensão e persistência da situação. “Estamos a ter uma anomalia, um anticiclone extremamente intenso e que parece que não quer sair de lá”, explica Carlos da Câmara. O sistema está estacionário devido a um bloqueio atmosférico em forma de ómega. Alimentado por ar muito quente vindo do Norte de África, manteve temperaturas excecionalmente elevadas desde a Península Ibérica até França, Reino Unido, Bélgica, Países Baixos e parte da Europa Central.
Para Carlos da Câmara, o mais impressionante não é o que aconteceu em Portugal, mas a dimensão continental do fenómeno. “É a intensidade da área sob influência do anticiclone em ómega e do bloqueio que lhe está associado que impressiona.” Em França, o Le Monde descreve a situação como uma das mais severas alguma vez observadas em junho. Mais de 90% da população esteve sob alertas de calor e dezenas de departamentos entraram em alerta vermelho. Esta terça-feira foi mesmo descrita como o dia mais quente alguma vez registado em junho.
Segundo o jornal francês, o país prepara-se para somar quatro dias que poderão ficar entre os mais quentes alguma vez observados. Em várias regiões houve temperaturas próximas dos 40 graus ou até superiores e a duração do episódio preocupa tanto quanto os valores absolutos. As mortes já vão em 40, a maioria por afogamento.
https://twitter.com/metoffice/status/2069400744453697725
https://twitter.com/TF1Info/status/2069483447853142503
Em Espanha, o El País acompanha diariamente os alertas de saúde associados ao calor extremo e lembra que as ondas de calor estão a começar cada vez mais cedo. Entre 2000 e 2025, Espanha registou dez ondas de calor iniciadas em junho; entre 1975 e 2000 tinham sido apenas duas.
https://observador.pt/2026/06/23/onda-de-calor-espanha-com-avisos-vermelhos-durante-s-joao-franca-regista-40-mortos-e-reino-unido-tem-escolas-encerradas/
No Reino Unido, o Met Office admite que poderão ser batidos recordes históricos de temperatura máxima e mínima para junho. O recorde atual para o mês é de 35,6 graus, registado em 1976. As previsões apontam agora para valores próximos dos 39 graus na região de Londres e no sudeste britânico.
Mais preocupante do que as máximas são as mínimas. O próprio Met Office alertou para a possibilidade de ser batido o recorde de temperatura mínima para junho, atualmente de 22,7 graus. A humidade elevada dificulta o arrefecimento do corpo durante a noite e aumenta os riscos para a saúde.
A Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho já avisou que o calor extremo pode tornar-se rapidamente “uma questão de vida ou morte” para milhares de pessoas vulneráveis em toda a Europa.
Mas para Carlos da Câmara, os recordes não são o mais importante. “O climatólogo é uma espécie de sociólogo do tempo. Os recordes para um climatólogo não são muito importantes.” O que preocupa é outra coisa. “O problema é ver que estes fenómenos estão a tornar-se mais frequentes, mais intensos e mais extensos.” E acrescenta: “Termos três situações destas em 20 anos é preocupante.”
Segundo o especialista, existe hoje uma evidência clara de que os episódios de calor persistente estão a mudar de escala. “Há uma evidência tremenda de que os dias quentes seguidos, sejam dois, três ou cinco, estão a tornar-se muito mais frequentes e a afetar áreas cada vez mais extensas.” Com consequências graves: “Do ponto de vista da saúde, basta haver dois ou três dias acima do percentil 95 para começar a haver mortalidade por excesso de calor.”
A memória de 2003
As comparações com 2003 surgem inevitavelmente. A Europa viveu nesse ano uma das maiores catástrofes climáticas da sua história recente. As estimativas apontam para cerca de 70 mil mortes adicionais em todo o continente europeu. França terá registado cerca de 14.800 mortes associadas ao calor extremo, a Alemanha cerca de sete mil, a Espanha mais de seis mil, a Itália dezenas de milhares e o Reino Unido mais de duas mil.
Portugal também foi duramente atingido. Segundo o IPMA, 2003 foi o segundo verão mais quente desde 1931. Entre 29 de julho e 14 de agosto ocorreu uma onda de calor excecional, a mais longa registada em várias regiões do interior desde 1941. Na Amareleja registou-se a temperatura mais alta de sempre: 47,3 graus. As noites foram igualmente tórridas. Em várias regiões do país registaram-se temperaturas mínimas superiores a 25 graus e, em locais como Portalegre, Proença-a-Nova e Caramulo, ultrapassaram-se mesmo os 30 graus.
Entre 30 de julho e 15 de agosto houve 1.953 mortes, correspondendo a um aumento de 43% relativamente ao esperado para o período.
Foi também o ano com os incêndios mais devastadores até então registados no país. Arderam mais de 423 mil hectares, incluindo cerca de 280 mil hectares de floresta. O país registou 85 grandes incêndios com mais de 500 hectares e cerca de 70 mil pessoas ficaram sem eletricidade e telefone.
Porque é que as trovoadas (e a chuva) não resolvem o problema dos incêndios
A chegada da chuva e das trovoadas esta quarta e quinta-feira não significa necessariamente uma redução significativa do risco de incêndio, que está elevado em muitas zonas (nesta terça-feira, Loulé já motivou grandes preocupações). “A ideia de que as trovoadas vão amenizar a possibilidade de haver incêndios é um bocadinho ilusória”, diz Carlos da Câmara, que se mostra preocupado. “Quando há tempo quente prolongado, a água chega ao solo em grande quantidade, mas rapidamente o solo fica saturado à superfície e a água evapora.”
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Em alguns casos, as próprias trovoadas podem agravar o problema. “As trovoadas secas podem servir mesmo de ignições.” Foi precisamente isso que aconteceu num dos grandes incêndios do ano passado. O climatólogo lembra ainda que continuam a existir regiões particularmente vulneráveis devido ao combustível acumulado no terreno, incluindo zonas afetadas pela tempestade Kristin. “Temos o grande problema da quantidade de árvores caídas.” Para Carlos da Câmara, a mensagem principal continua a ser simples. “Os fogos não se combatem no verão. Os fogos combatem-se no inverno.” É durante os meses frios que se fazem limpezas, gestão de combustível, ordenamento da paisagem e planeamento da prevenção.
Quando chega o verão, a margem de manobra é muito menor. “A única coisa que podemos controlar são as ignições.” E insiste: “Tenho um estudo que mostra que controlar as ignições tem um impacto estatisticamente significativo na diminuição dos grandes incêndios.”
O oceano também está a aquecer
A preocupação dos cientistas não se limita à atmosfera. Também está no aquecimento dos oceanos. “O Atlântico está mais quente, o que é um sinal preocupante.” Durante décadas, os oceanos absorveram grande parte do excesso de calor acumulado pelo sistema climático. Mas essa capacidade não é infinita. “Os oceanos já não estão a ser tão eficazes como eram em absorver o excesso de radiação.”
Carlos da Câmara utiliza uma imagem simples para explicar o fenómeno. “Quando aquecemos um panelão de água no fogão demora muito tempo até aquecer. Mas também demora muito tempo a arrefecer.” É precisamente essa enorme capacidade térmica que torna particularmente preocupantes as anomalias observadas atualmente. “Uma anomalia de três ou quatro graus no oceano é uma brutalidade.” Porquê? Porque toda essa energia extra acaba por alimentar fenómenos extremos.
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“Com uma atmosfera mais energética, posso ter tempestades mais energéticas, posso ter furacões mais energéticos.” No fundo, conclui, o sistema climático está a funcionar com mais energia disponível. “Globalmente falando, a atmosfera tem mais energia e, portanto, promove movimentos mais intensos.”