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(A) :: Da "histeria" de Netanyahu à chantagem do Irão. 6 pontos para perceber como o Líbano se tornou um entrave nas negociações

Da "histeria" de Netanyahu à chantagem do Irão. 6 pontos para perceber como o Líbano se tornou um entrave nas negociações

EUA tentam mediar assunto, mas o Irão quer manter presença do Hezbollah no Líbano contra a vontade israelita. Governo libanês quer reforçar a "autonomia e soberania", mas exige a retirada das IDF.

José Carlos Duarte
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O memorando de entendimento é claro: deverá existir uma “cessação imediata e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo no Líbano“. A referência ao país de seis milhões de habitantes não é acidental: tem sido o ponto que mais discórdia tem gerado durante as negociações. O Governo libanês, o Irão e Israel têm mantido acesas disputas sobre o futuro do Estado. Os Estados Unidos da América (EUA), a par dos mediadores Qatar e Paquistão, têm tentado encontrar consensos, mas a tarefa parece quase impossível.

O Irão pretende manter a influência do Hezbollah no país. Considerada terrorista pelo Ocidente, a milícia xiita tem funcionado quase como um Estado em certas partes do Líbano. Por sua vez, o Governo de Benjamin Netanyahu ambiciona eliminar em definitivo esta ameaça e salvaguardar a população perto da fronteira no norte. Pelo meio, o Governo libanês tenta manter a soberania e a autonomia política. Evita ceder tanto a Teerão como a Telavive e defende interesses próprios: não deseja a manutenção de tropas israelitas e quer terminar com a influência dos iranianos.

Durante as negociações do domingo na Suíça entre iranianos e norte-americanos, o Líbano foi um dos assuntos debatidos entre as delegações. O Irão não deixou cair a postura inflexível: exige que haja um cessar-fogo no país e pretende que Israel abandone a linha amarela, uma zona de território libanês — até às margens do rio Litani — que as Forças de Defesa israelitas (IDF) ocupam. Com alguma pressa para finalizar o acordo e a tentar que as negociações cheguem a bom porto, os Estados Unidos anunciaram a criação de uma “célula de gestão de conflitoss”.

Mas um pormenor está a travar um entendimento: Israel não estaria presente nessa célula, que teria como objetivo a monitorização constante do conflito, evitando-se uma escalada da tensão. Em vez disso, seria composta pelo Irão, pelo Qatar, pelo Governo do Líbano, pelo Paquistão e pelos EUA. Desde logo, vários membros do Governo israelita vieram a público contestar esta solução. Num comunicado conjunto entre o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, o Chefe do Estado-Maior General das Forças de Defesa de Israel, Eyal Zamir, e o ministro da Defesa, Israel Katz, Telavive assegurou que manteria as suas posições na “zona de segurança no sul do Líbano”.

Foi um desafio claro aos Estados Unidos. Ainda assim, entre esta terça e quinta-feira, o Departamento de Estado norte-americano continua a organizar negociações diretas entre Israel e o Governo libanês para chegarem a uma solução. Apesar de ainda haver alguma desconfiança entre as duas partes, defendem uma posição em comum: que as negociações entre os EUA e Irão se desvinculem do processo de paz em curso entre Beirute e Telavive. Porém, o Irão não está disposto a aceitar esta cedência e vai continuar a exercer pressão sobre a delegação liderada pelo vice-presidente norte-americano, JD Vance.

Das reprimendas a Israel às cedências ao Irão. Como os EUA têm mediado o acordo no Líbano

Quando em abril o Irão e os EUA chegaram a acordo para um cessar-fogo (que depois viria a ser violado múltiplas vezes), a questão do Líbano esteve logo em cima da mesa. Houve mesmo um mal-entendido nas negociações que precederam a trégua: os Estados Unidos não incluíram a questão libanesa no rascunho inicial, apesar de os mediadores paquistaneses terem realçado que esta fazia parte do entendimento global, o que levou os iranianos a reclamar que as hostilidades deviam terminar no Líbano.

https://observador.pt/especiais/o-dia-em-que-trump-desistiu-da-derrota-total-do-irao/

Nos bastidores, os Estados Unidos tentaram obter concessões do Irão em relação a este ponto, mas sem sucesso. Os iranianos fizeram depender o cessar-fogo da cessação das hostilidades no Líbano. Ao mesmo tempo, Washington pressionou Israel, mas as IDF acabaram por expandir os territórios que controlam militarmente no país vizinho em meados de abril. À altura, vigorava apenas uma trégua instável entre Teerão e Washington, num cenário ainda marcado pelo bloqueio norte-americano aos portos iranianos e pelo encerramento do Estreito de Ormuz.

Nos últimos meses, os norte-americanos mantiveram negociações com o Irão, que culminaram no memorando de entendimento assinado digitalmente na passada quarta-feira. Durante o processo negocial liderado por JD Vance, os iranianos conseguiram que o documento referisse explicitamente o Líbano, assim como o fim das hostilidades no país.

Desde abril, apesar das tréguas em vigor, Israel e o Hezbollah continuaram os combates. No início de junho, Israel atacou o sul de Beirute e o Irão disse ter abandonado a mesa das negociações — e chegou mesmo a atacar território israelita como retaliação. Os norte-americanos ficaram particularmente incomodados com os aliados israelitas, acusando-os em privado de sabotar o processo de paz. Pela primeira vez no segundo mandato Trump, a administração norte-americana criticou diretamente o primeiro-ministro de Israel.

“Temos uma pequena disputa em relação ao Líbano”, admitiu Donald Trump, que pediu que Benjamin Netanyahu fosse mais “suave”: “Não se tem de derrubar um edifício sempre que o Hezbollah faz alguma coisa”. “Não estou a dizer para não se proteger. O que estou a dizer é que quando dois drones disparam no deserto e caem sem causar danos, não é preciso destruir edifícios em Beirute. Eles deviam portar-se melhor e, francamente, fazer um melhor trabalho.”

O recado estava dado. Cansado da guerra e dos efeitos nefastos que o conflito com o Irão tem provocado na economia norte-americana, Donald Trump deixou claro a Israel que não vai permitir que a questão libanesa perturbe o processo negocial. Defendendo uma política isolacionista e mostrando-se bastante próximo dos mediadores qataris e paquistaneses, JD Vance tem sido ainda mais duro com Israel: “Donald Trump é o único chefe de Estado que tem sido solidário com Israel e, se eu estivesse no Governo israelita, não o criticaria”, disse. “Dois terços das armas que protegeram [Israel] têm fabrico norte-americano e foram pagas pelos contribuintes norte-americanos.”

Em simultâneo, numa iniciativa praticamente inédita, o Departamento de Estado está a mediar diretamente o conflito entre o Governo libanês e o Executivo israelita. Ainda assim, o tom é bastante diferente. Noutra ronda de negociações que terminam esta quinta-feira, Marco Rubio deixou claro que o “processo” negocial no Líbano não tem de estar necessariamente conectado com o memorando de entendimento com o Irão. “O Líbano é um país soberano”, defendeu o chefe da diplomacia norte-americana.

Na administração Trump, coexistem duas tendências em relação ao Líbano, que refletem a tensão no seio do Partido Republicano. Enquanto o Departamento de Estado, liderado por Marco Rubio, tenta pressionar o Irão, o vice-presidente procura apaziguar os ânimos, mostrando-se mais disponível para ceder às exigências de Teerão. Pelo meio, o Presidente norte-americano parece flutuar entre ambas as posições: tanto ameaça nas redes sociais voltar a bombardear o Irão, como critica duramente Israel.

O que leva o Irão a ser tão inflexível em relação ao Líbano? Quer manter um “escudo”

O Hezbollah pertence ao Eixo da Resistência iraniano desde os anos 80. Formada na sequência da Guerra Civil do Líbano e da invasão israelita de 1982, a milícia xiita nasceu com a intenção de combater a ocupação de Israel no território libanês. A recém-criada República Islâmica do Irão viu o conflito como uma oportunidade para aumentar a sua influência no Médio Oriente. Cercado de inimigos, o regime de Teerão viu a aliança com os xiitas libaneses como algo natural.

Ao longo de décadas, o Irão foi prestando cada vez mais apoio ao Hezbollah. A milícia também ganhou projeção dentro do Líbano: formou mesmo um partido que está representado no Parlamento do Líbano. Ocupou partes do sul do território libanês e do sul de Beirute. Construiu verdadeiros bastiões onde começou a fornecer bens essenciais e serviços públicos à população. Antes do 7 de Outubro, era o membro mais poderoso e influente do Eixo da Resistência.

Quando o Hamas atacou Israel a 7 de Outubro, o Hezbollah reagiu logo no dia a seguir, abrindo uma nova frente de guerra. A milícia libanesa veio em auxílio do aliado palestiniano e obrigou as IDF a duplicarem os esforços militares. Esta iniciativa ilustra como o Irão foi desenhando a sua arquitetura securitária nas últimas décadas: cercou Israel — o principal rival geopolítico no Médio Oriente — de inimigos mesmo junto às suas fronteiras.

Neste contexto, o Irão não quer abrir mão do Hezbollah, que vê como um pilar fundamental para a própria República Islâmica. Embora a milícia tenha ficado enfraquecida pelas sucessivas ofensivas israelitas desde 2024 e pela morte do seu poderoso antigo secretário-geral Hassan Nasrallah, o grupo ainda mantém uma capacidade militar considerável. Teerão não vai abdicar facilmente da influência que tem no Líbano, mesmo que a autonomia política do país fique asfixiada.

Numa entrevista ao Observador, em março de 2026, Vali Nasr, professor na Universidade Johns Hopkins, explicava que “a função que o Hezbollah desempenha é a de pressionar Israel e os Estados Unidos para que não ataquem o Irão”. “Para o Irão, os proxies não eram tanto uma arma ofensiva, mas sim um escudo defensivo”, declarou. Na nova configuração geopolítica do Médio Oriente e após um conflito que abalou as estruturas do regime, os iranianos desejam a todo o custo manter este “escudo” no Líbano — e isso explica a atual inflexibilidade de Teerão nas mesas de negociação.

https://observador.pt/especiais/vali-nasr-isto-esta-profundamente-enraizado-na-mentalidade-iraniana-estao-sozinhos/

Além disso, com o Hamas severamente debilitado e os Houthis a enfrentarem tensões internas no Iémen, o Hezbollah assume-se como o verdadeiro seguro de vida para o regime iraniano. Oficialmente, o Presidente do Parlamento iraniano, que tem liderado as negociações, Mohammad Bagher Ghalibaf, declarou: “Para nós, um cessar-fogo no Líbano é tão importante quanto um cessar-fogo no Irão”.

Na mesa das negociações, a pressão iraniana vai continuar. Qualquer acordo terá de prever a cessação de todas as hostilidades no Líbano, o que engloba a retirada israelita de partes do país. Ciente da pressa norte-americana em terminar o conflito, o Irão deverá insistir na estratégia de ameaçar abandonar o processo negocial se a questão libanesa não ficar resolvida nos seus termos. Para JD Vance, há espaço para negociar. Já para alguns republicanos, os EUA devem continuar a proteger Israel a todo o custo.

Se forem bem-sucedidas para o Irão, estas negociações vão acabar por conceder legitimidade política ao Hezbollah. A milícia xiita passa a ser um ator implicitamente tido em conta pelos Estados Unidos, estando consciente do poder que detém para perturbar o processo negocial. Caso este desfecho seja benéfico para o Hezbollah, poderá ser um autêntico bálsamo para o grupo resistir à pressão israelita e garantir a sobrevivência nos próximos tempos.

"Para nós, um cessar-fogo no Líbano é tão importante quanto um cessar-fogo no Irão."
Presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf

Israel. O abandono norte-americano e a “histeria” de Netanyahu

Desde 8 de outubro de 2023, o norte de Israel continua sob fogo constante. O Hezbollah atacou inúmeros pontos do território israelita. Em resultado, várias aldeias e comunidades fronteiriças tiveram de ser evacuadas até meados de 2025. Atualmente, a situação na região ainda é de extrema tensão e a estabilidade parece uma miragem. Neste contexto, o Governo de Benjamin Netanyahu deseja terminar com esta ameaça constante. Assim, as IDF ocuparam cerca de 608 quilómetros quadrados de território libanês (10% do Líbano), argumentando que estão a levar a cabo o desmantelamento das infraestruturas militares da milícia inimiga.

Na ótica israelita, a ameaça do Hamas está praticamente neutralizada. Israel continua a ocupar parcelas da Faixa de Gaza e o grupo palestiniano enfrenta imensas dificuldades em reerguer-se após a campanha militar israelita no enclave. Para Benjamin Netanyahu, Telavive devia fazer o mesmo a norte: eliminar os perigos que diz que o Hezbollah representa para o país e tentar diminuir ainda mais as suas capacidades militares.

Esta estratégia estava em curso até os norte-americanos terem encetado negociações diretas com o Irão. Porém, perante a inflexibilidade iraniana neste assunto, os Estados Unidos estão a procurar conter a campanha militar israelita no Líbano, deixando sérios avisos a Benjamin Netanyahu. O primeiro-ministro encontra-se numa posição particularmente vulnerável: reconhece que depende da aliança forjada com a administração Trump (que tanto promoveu desde 2024), mas sabe das consequências políticas que terá de enfrentar se deixar cair a ofensiva. Principalmente quando faltam três a quatro meses para as próximas eleições legislativas israelitas, nas quais o chefe do executivo procura a reeleição.

A situação torna-se ainda mais complexa devido à coligação que atualmente governa Israel. Os governantes ultraortodoxos e de extrema-direita — como o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, ou o das Finanças, Bezalel Smotrich — recusam qualquer tipo de compromisso e pretendem levar a cabo uma ofensiva que dizime por completo o Hezbollah. Em plena pré-campanha eleitoral, estes líderes não pretendem deixar cair o assunto, nem se inibem de criticar de forma direta a administração Trump, acusando-a de cometer uma “traição” ao Estado judaico.

“O Bibi está histérico” com a situação libanesa, admitiu uma fonte próxima do primeiro-ministro ao jornal Axios. Nas contas do chefe do Executivo pesam os impactos eleitorais profundamente negativos que o fim da ofensiva militar no Líbano teria para a sua reeleição, dado que o norte de Israel, junto à fronteira, é um dos principais bastiões eleitorais do Likud, o partido de Netanyahu. Mais do que a própria questão nuclear no memorando de entendimento, esta é a sua principal preocupação nas negociações entre os EUA e o Irão, refere a mesma fonte. Paralelamente, tem-se tornado cada vez mais difícil para o líder do Governo controlar os ministros mais radicais do Governo.

Para já, a estratégia do primeiro-ministro tem-se mantido a mesma em público, embora exista uma crescente pressão norte-americana para terminar as hostilidades no Líbano. “Os nossos combatentes no sul do Líbano têm total liberdade de ação para eliminar qualquer ameaça direta ou que emerja contra eles e contra os residentes do norte. As IDF não têm restrições neste assunto. Mantenho-me firme no facto de que vamos manter a nossa zona de segurança no sul do Líbano, desde que seja preciso para proteger os residentes do norte e todos os nossos cidadãos”, garantiu Benjamin Netanyahu.

https://twitter.com/netanyahu/status/2069052296244166773

Em privado, o discurso das IDF é diferente: vários contingentes de reservistas estão a ser dispensados da fronteira norte de Israel e do sul do Líbano, num esforço discreto de desescalada e de progressiva redução da presença militar na região. De acordo com os relatórios de monitorização das Nações Unidas, não tem havido quaisquer combates diretos entre as forças do Hezbollah e o Exército israelita nos últimos dias. O cenário no terreno indica que, apesar de Benjamin Netanyahu aparentar manter um braço de ferro, um cessar-fogo está efetivamente em vigor.

Ao Haaretz, vários comandantes que estão no Líbano e no norte de Israel confessaram que existe uma profunda sensação de frustração. Os militares sentem que a retórica do primeiro-ministro é enganadora e não reflete a situação no terreno. “O público ouve as declarações, mas na prática as nossas mãos estão atadas”, desabafou um comandante no Líbano ao mesmo jornal.

A perceção entre muitos governantes israelitas passa já por conter os danos. Assim, segundo o Axios, Benjamin Netanyahu convocou o antigo embaixador israelita em Washington e amigo pessoal de Donald Trump, Ron Dermer. O ministro dos Assuntos Estratégicos, que nasceu na Flórida (tal como Marco Rubio) e mantém uma excelente relação com muitos republicanos, tem sido constantemente informado sobre os contornos das negociações entre o Irão e os EUA, na Suíça, numa tentativa de garantir que os interesses de Israel sejam tidos em consideração.

Ao mesmo tempo que tenta fazer uma ofensiva de charme a Donald Trump e contornar a influência de JD Vance nas negociações, Israel está num processo negocial com o Governo libanês, nas negociações mediadas pelo Departamento de Estado. Segundo os últimos desenvolvimentos avançados esta quarta-feira, o Governo de Benjamin Netanyahu estaria disposto a abandonar parcelas de território do Líbano, que seriam ocupadas pelas Forças Armadas libanesas (treinadas pelos norte-americanos), cujos militares teriam de comprovar que nunca integraram as fileiras do Hezbollah.

Assumindo à partida que o memorando de entendimento e um possível acordo entre norte-americanos e iranianos serão desfavoráveis para os seus interesses, Israel ambiciona, pelo menos, controlar a situação no Líbano e diminuir a influência do Hezbollah. Por muito que as vozes radicais do Governo o peçam, desmantelar totalmente a milícia é por agora irrealista. Donald Trump não o vai fazer. E, na Casa Branca, existe também já quem prefira dialogar com outros aliados estratégicos no Médio Oriente.

Autonomia e soberania. O que quer o Governo do Líbano?

De um lado, o Irão está a exercer pressão para que o Hezbollah saia reforçado. Por outro, Israel faz tudo para diminuir a influência da milícia. No meio destes dois polos com bastante influência no decorrer das negociações com os Estados Unidos, o Governo libanês tenta ter uma palavra a dizer. Afinal de contas, as decisões que serão tomadas terão um impacto direto no país e na sua governabilidade.

Tal como Israel, o Governo libanês pretende que a influência do Hezbollah diminua consideravelmente no país. Contudo, as Forças Armadas libanesas são comparativamente mais fracas do que os combatentes do grupo xiita, que consegue atrair vários cidadãos para as suas fileiras. Com instituições militares fragilizadas, a margem de manobra do Executivo para impor a sua vontade e manter a estabilidade interna é praticamente inexistente.

Alinhado com a posição do Irão, o Executivo do Líbano recusa totalmente que as tropas israelitas continuem a ocupar parcelas de território, tal como acontece agora. Com a memória das guerras passadas, a esmagadora maioria dos libaneses não encara com bons olhos a permanência das IDF no sul do país, interpretando-a como uma violação inaceitável da soberania nacional.

O Presidente libanês, Joseph Aoun, tem transmitido precisamente essa mensagem nos contactos que tem mantido com os Estados Unidos e com Israel. “Não aceitamos nada mais do que o fim da ocupação israelita. Ao mesmo tempo, queremos o fim da tutela estrangeira, porque a nossa única opção é a soberania nacional e a nossa única aposta é no Estado libanês”, assinalou o chefe de Estado.

"Não aceitamos nada mais do que o fim da ocupação israelita. Ao mesmo tempo, queremos o fim da tutela estrangeira, porque a nossa única opção é a soberania nacional e a nossa única aposta é no Estado libanês."
Presidente do Líbano, Joseph Aoun

Por agora, o Governo do Líbano tenta aproveitar a vulnerabilidade do Hezbollah para afirmar a sua autoridade. E isso não tem apenas a ver com o enfraquecimento militar da milícia xiita após os ataques israelitas. Relaciona-se também com o mau momento da imagem do grupo pró-iraniano junto da população. Ainda que permaneça algum sectarismo, cada vez mais libaneses querem ver-se livres da influência do Hezbollah no país e defendem abertamente que os combatentes da milícia entreguem as armas ao Estado.

Os governantes libaneses têm-se esforçado para dissociar as negociações entre os EUA e o Irão do futuro do país. “As negociações em curso com Washington devem estabelecer a fundação para um programa claro que cumpra as exigências totais do Líbano, abrindo caminho para uma paz real e duradoura”, afirmou o Presidente do Líbano, Joseph Aoun, garantindo que o país “começou a voltar a ganhar a sua presença no processo de negociações e insiste em negociar em nome próprio”.

Esta estratégia libanesa colide diretamente com as pretensões do Irão e de Israel. Em Washington, o embaixador israelita nos Estados Unidos, Yechiel Leiter, o principal negociador de Telavive junto do Departamento de Estado, já avisou que o processo negocial com Beirute está em “risco de descarrilar” esta terça-feira. “A premissa básica é que o Irão não esteja envolvido e a principal discussão seja sobre o Líbano e o Hezbollah — não sobre até que extensão o Irão pode restringir o Hezbollah. O papel [do Irão] é sair do Líbano. O papel do Governo libanês é exercer a sua soberania. A soberania significa que o Irão não está mais envolvido no Líbano.”

Síria. O joker para lidar com o Hezbollah?

A hipótese foi levantada por Donald Trump. A Síria, com um novo regime, poderia ser o país que ajudaria Israel a desmantelar o Hezbollah. Elogiando o Presidente Ahmed al-Sharaa, o líder norte-americano disse que ele tem “feito um trabalho excelente”: “Ele não é um escuteiro, mas tem feito um trabalho extraordinário e é muito bom com o Hezbollah. Não gosta do grupo”. “Se Israel não consegue fazer o trabalho sem matar toda a gente, a Síria devia fazê-lo.”

O assunto será discutido esta quarta-feira pelo Executivo de Benjamin Netanyahu. Teria a Síria capacidades para travar o Hezbollah? É certo que uma frente militar liderada por Ahmed al-Sharaa conseguiu derrubar o regime de Bashar al-Assad. E também existe a noção de que o antigo Presidente sírio, Bashar al-Assad, apoiava o Hezbollah e era um aliado do Irão, pelo que o novo Governo seria à partida adversário da milícia xiita.

No entanto, a situação não é assim tão linear. A Síria tem evitado intrometer-se em guerras regionais — e deverá manter a mesma estratégia. “Estamos à procura de canais económicos entre a Síria e o Líbano, não canais militares”, realçou Ahmed al-Sharaa numa entrevista, acrescentando: “A crise no Líbano é muito séria e há um bloqueio no que toca às soluções políticas. A Síria oferece uma abordagem diferente, mas a coisa mais importante seria parar a guerra”.

A “célula de gestão de conflito”. A solução que desagrada a Israel e a vitória para o Irão

Entre interesses divergentes e variadas negociações, o futuro do Líbano ainda permanece incerto. Dos encontros na Suíça entre as delegações iranianas e norte-americanas, saiu um novo mecanismo: a célula de gestão de conflitos. Num comunicado assinado pelo Paquistão e pelo Qatar, lê-se que serviria para garantir “o cumprimento da cessação das operações militares no Líbano”.

Este mecanismo vigiaria qualquer violação do cessar-fogo à luz do memorando de entendimento, tentando evitá-la. O órgão incluiria os Estados Unidos, o Irão, o Líbano, além do Paquistão e do Qatar como mediadores. No entanto, Israel ficaria de fora — uma exclusão que alarmou e irritou o Governo israelita. No passado, estas comissões de monitorização incluíram sempre Telavive, bem como França e as Nações Unidas, que mantêm capacetes azuis no sul do Líbano.

A exclusão de Israel foi um sinal de que o país pode mesmo desempenhar um papel muito limitado no futuro do Líbano. No Irão, o Presidente festejou. “O facto de que, como resultado da prontidão e resistência da equipa negociadora, o lado oposto foi obrigado a recuar na questão do Líbano não é uma pequena conquista”, celebrou Masoud Pezeshkian.

"O facto de que, como resultado da prontidão e resistência da equipa negociadora, o lado oposto foi obrigado a recuar na questão do Líbano não é uma pequena conquista."
Presidente do Irão, Masoud Pezeshkian

Entre os serviços secretos israelitas, não há dúvidas: esta célula prejudicaria gravemente as capacidades operacionais de Israel. “Transferir informações secretas, planos de coordenação e avisos antes de um possível ataque das IDF a um órgão que inclui representantes iranianos e qataris é um absurdo. Não se pode confiar nesses representantes. Qualquer informação que chegue até eles vai parar ao Hezbollah e vai colocar vidas humanas em risco”, alertou uma fonte dos serviços de informações israelitas, ao jornal Haaretz.

Por agora, a célula de gestão de conflito ainda não foi colocada em prática, mas serve como um sinal alarmante para Israel: os ventos não correm a seu favor. Sabendo que está em jogo o seu próprio futuro político, Benjamin Netanyahu tenta desesperadamente conter os danos da crise no Líbano, enquanto o país luta para se ver livre da influência estrangeira. No entanto, o Irão não vai abdicar do poder que conquistou junto dos xiitas libaneses — e já mostrou que não tem pudor em usar a instabilidade no país como ferramenta de chantagem.