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Não era preciso ir muito longe para se perceber como ficara o ambiente na Seleção depois do empate a abrir o Mundial frente à RD Congo. Na última pergunta da conferência de imprensa, e quando foi questionado sobre a margem que tinha para ver outras seleções e até retirar ideias, Roberto Martínez, que sempre foi alguém muito polido nas respostas desde que assumiu o comando da Seleção, lá deixou uma “farpa” para fora. “Um treinador que precisa de inspiração nesta altura já vai tarde… Temos uma equipa de analistas, de várias pessoas que preparam todos os passos. Tudo tem de estar preparado muitos meses antes. Como estão os jogadores? Essa é a melhor fonte de inspiração e informação que podemos ter, aquilo que vai acontecendo nos treinos. Não temos tempo para olhar para os outros jogos. Se vir a imprensa, vai perceber que estamos sempre na praia…”, atirou. De novo, a questão da praia, o habitat onde os jogadores terão passado três horas nas primeiras 96 em Palm Beach mas que se tornou uma imagem mais comum do que a dos treinos.
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Não foi a única interação onde se sentiu um Roberto Martínez agastado com tudo o que se foi escrevendo e dizendo depois do dececionante empate com os africanos. “Barulho há sempre. Há bom barulho, há boas críticas… Quando não atinges o resultado é normal ter críticas. Não espero receber rosas depois de empatar o primeiro jogo. Mas há muito barulho que não é justo, que não é certo, e muitos aspetos que não fazem sentido. Mas isso não faz parte do nosso trabalho. É muito fácil ganhar quando a equipa vence a Liga das Nações, ser muito da Seleção… O importante é estarmos juntos. O barulho faz parte, vejo isso com naturalidade”, destacou. “Não tive um jogo sem barulho desde o meu primeiro dia em Portugal… Já mostrámos que a equipa é experiente, focada e responsável e chegámos a um bom nível”, lamentara antes.
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Até pelas conferências de Rúben Dias, Diogo Dalot, Francisco Conceição e João Cancelo antes da partida com o Uzbequistão, era fácil perceber que, ao contrário do que aconteceu noutros momentos, o impacto de uma entrada em falso pesou mais – e o dia a seguir a essa estreia foi pesado, muito pesado em Palm Beach. A partir daí, havia dois caminhos possíveis, tendo até como exemplo as anteriores prestações em Mundiais: entrar na espiral depressiva e ir caindo com o passar dos dias ou encontrar uma força de bloqueio que desse espaço à equipa para digerir o que correu mal para procurar aquilo que tão bem sabe fazer. A Seleção apostou e muito no segundo caminho, tentando passar ao lado do tal ruído que também foi criado nas redes sociais por pessoas que nada têm a ver com o meio e que decidiram inundar todas as páginas para fazer uma defesa acérrima de Cristiano Ronaldo. Tudo voltava a girar muito em torno do capitão mas havia mais a melhorar.
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“Começámos muito bem o jogo com a RD Congo mas depois foram minutos muito maus. Provavelmente os piores 25 minutos dos últimos 40 jogos. Faz parte da estreia do Mundial, o aspeto emotivo de um torneio assim. Depois do intervalo melhorámos mas demos vida ao adversário. Foi uma igualdade em que podemos crescer muito. Temos de fazer isso agora. Somos uma equipa que precisa da bola mas também de chegar ao último terço. Temos jogadores com capacidade no 1×1. Tudo o que fizemos nos últimos 40 jogos… Por isso estes jogadores têm provavelmente o maior número de pontos e golos na Seleção. Isso faz parte do talento e da execução tática deles. O importante é estar preparados agora”, destacou o selecionador, quase a apelar a um reset por parte de todos os jogadores depois da entrada ziguezagueante e errática na prova com um adversário que mereceu muitos elogios, do técnico Fabio Cannavaro à capacidade de encontrar espaços.
“O Cristiano é um exemplo. É um capitão e reage como capitão, com muita experiência. Podemos utilizar todos isso. Estamos a falar de alguém que está a defender e representar a Seleção há 21 épocas. Tem uma fome incrível de continuar a melhorar e de ajudar o grupo. É um exemplo no balneário. Onde pode fazer a diferença? Somos uma equipa que quer a bola e que quer rapidamente recuperá-la. Quando temos a bola, precisamos de muita personalidade, clareza de como chegar à área adversária. É preciso um jogador que abra os espaços e o Cristiano é o mais forte a fazer isso, os números dizem isso. É um ícone. Esses movimentos, o abrir o espaço… No fundo, é a última peça dentro da nossa estratégia”, destacou.
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Mais uma vez, Roberto Martínez saiu em defesa de Cristiano Ronaldo e esvaziou todas as críticas, toda essa pressão crescente e até todo esse burburinho sobre a possibilidade de poder dar o lugar a Gonçalo Ramos. Aliás, quando todos esperavam uma “revolução” nas opções iniciais, o técnico espaço só fez uma evolução dentro da continuidade, promovendo o regresso de Rúben Dias além da troca de João Félix por Bernardo. Foi assim que começou a ganhar o jogo – o que tinha falhado não era o quem mas sim o como, o quando e o onde. Em termos estratégicos, Portugal fez uma das exibições mais sólidas dos últimos tempos. Com muita variação rápida de corredores, com jogo interior, com intensidade, com reação à perda sempre agressiva, com inteligência para perceber o tempo para encontrar o seu espaço. O seu espaço como equipa, o espaço para coroar um Rei. Se após o 1-1 com a RD Congo o Independent falava de “10 homens e uma estátua”, acrescentando que Portugal estava a sacrificar um Mundial pelo ego de Ronaldo, agora foi o sacrifício de 10 homens que ajudou a coroar uma merecida estátua para quem nunca deixou de se sacrificar. E, após o escaldão da estreia, o choque térmico que a equipa teve fez com que a praia não fosse assunto…
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A entrada de Portugal no jogo foi ainda melhor do que tinha acontecido frente ao RD Congo. Mais: nem a própria equipa do Uzbequistão estava a perceber o que se passava tendo em conta o “rolo compressor” que ia atropelando a organização sem bola preparada por Fabio Cannavaro. Significa isso que Martínez fez muitas alterações? Não, nem por isso. Houve acertos táticos que conseguiram colocar mais em jogo os laterais no último terço e Bruno Fernandes entre linhas ou com desmarcações de rutura mas a grande diferença foi a atitude, a intensidade, a agressividade e o querer ser melhor. Não foi só melhor, foi muito melhor: Bruno Fernandes teve um primeiro cruzamento perigoso cortado pela defesa antes da primeira oportunidade num remate na área que foi desviado por um defesa contrário e saiu para canto (3′), Nuno Mendes teve uma grande combinação com João Félix na esquerda para fazer o cruzamento que saiu ligeiramente adiantado para o desvio de Ronaldo (4′), Ronaldo marcou mesmo na sequência de uma jogada pela direita entre Pedro Neto e João Cancelo com cruzamento ao primeiro poste para o desvio de primeira do capitão nacional (6′).
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O primeiro obstáculo estava ultrapassado, com Cristiano Ronaldo a quebrar aquilo que era há muito um tabu tornando-se o melhor marcador de Portugal em Mundiais a par de Eusébio (mais uma série de recordes já habituais, como o facto de ser o segundo mais velho de sempre a marcar na competição). Mas havia outro “mérito” a chegar: a seguir ao primeiro golo, não houve especulação pelo segundo golo. Com Vitinha a recuar uns metros par pensar o jogo de frente sem oposição, com João Neves a ter maior liberdade para ir procurando os espaços, com os laterais e alas a encontrarem as combinações certas nos momentos certos. A par disso, funcionou a eficácia e funcionou também Ronaldo para um 2-0 que em parte foi seu mesmo sem tocar na bola: Pedro Neto foi carregado perto da área em corredor central, Abduvohid Nematov preparou a barreira e a própria colocação na baliza para um rocket do número 7, acabou por ver apenas passar um míssil de Nuno Mendes, que bateu direto no lado do guarda-redes com tanta força que não deu hipóteses (17′). O Uzbequistão ainda teve a primeira tentativa enquadrada por Nasrullaev mas Portugal estava por cima (19′).
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Só mesmo a paragem para hidratação foi capaz de travar esse domínio total da Seleção. Aliás, logo depois do regresso, aquilo que mais vinha à cabeça era um artigo de fundo publicado este sábado pelo El País que dizia que em 78% das ocasiões as equipas que dominavam por completo perderam influência no jogo ou as que estavam ligeiramente por baixo tornaram-se melhores. Os uzbeques aproveitaram esse momento, o único em que estiveram acima da Seleção na primeira parte, chegando mesmo a marcar com um grande golo de Ganiev num remate de fora da área ao ângulo que acabou por ser anulado por uma falta clara sobre João Cancelo (30′). Ainda houve um erro no tempo de salto de Renato Veiga num transição que foi “corrigido” por Nuno Mendes (36′) mas aquilo que mais saltava à vista era a tentativa de perceber os espaços para sair melhor em transição. Quando isso aconteceu, deu golo: Bruno Fernandes conduziu o ataque rápido pelo corredor central de frente para o jogo, esperou pelo momento certo para assistir e Ronaldo chegou também ao bis (39′).
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Ao intervalo, e apesar dessa boa vantagem, Martínez optou por mexer na equipa, lançando Nelson Semedo no lugar de João Cancelo e Francisco Conceição para a posição de Pedro Neto. Portugal ganhava uma nova ala direita mas foi da esquerda que chegou o primeiro sinal de perigo no segundo tempo, com João Félix a ganhar a bola depois da mais uma zona de pressão mais alta e a arriscar a meia distância de longe que passou muito perto da trave (47′). Ainda houve uma fase menos conseguida, com Abbosbek Fayzullaev a ter uma saída com todo o espaço para preparar a meia distância que ficou nas mãos de Diogo Costa (52′) e Otabek Shukurov a ganhar uma segunda bola para uma tentativa enrolada mas que não saiu assim tão longe da baliza nacional (55′). Contudo, era uma questão de tempo até a lei do mais forte voltar a imperar.
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Como recomeçou essa senda? Com mais uma bola parada que fugiu ao esperado e deixou o Uzbequistão em apuros, neste caso com um livre em posição central mais longe do 2-0 de Nuno Mendes a ter uma bola picada por Bruno Fernandes para a entrada de Ronaldo, que ainda desviou mas viu Abduvohid Nematov defender com a perna para canto (58′). Na sequência desse canto, o 4-0: no meio de tantos agarrões aos jogadores portugueses que entraram ao primeiro poste entre João Félix e Cristiano Ronaldo, acabou por ser Abdukodir Khusanov, a grande estrela da equipa que joga no Manchester City, a desviar para a própria baliza num lance em que o guarda-redes uzbeque também não teve uma intervenção muito famosa (60′). Já dava goleada.
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Como seria expectável, pela vantagem no marcador, pelas substituições e até por uma questão de gestão, a última meia hora tornou-se incaracterística face ao que se tinha visto antes. Francisco Trincão e Bernardo Silva (que rendeu João Neves, actuando no meio-campo e não na ala) foram a jogo, Nuno Mendes continuou a ser uma autêntico locomotiva pela esquerda, Ronaldo manteve o desafio de chegar ao hat-trick, entre um remate enrolado de primeira após cruzamento de Nuno Mendes da esquerda que saiu ao lado e um míssil após erro de Nematov que acabou por ser travado pelo guarda-redes contrário. Contudo, com o passar dos minutos, era sobretudo tempo de coroar o dia em que um jogador de 41 anos se tornou o primeiro da história a marcar em seis Mundiais, tornando-se o maior de sempre de Portugal na prova, com uma autêntica saída de Leão numa jogada de envolvimento que terminou com uma bola no ângulo para o 5-0 (87′).
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