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(A) :: A casa adiada de uma geração que financia o sonho a 100%

A casa adiada de uma geração que financia o sonho a 100%

A garantia pública abriu uma porta que estava fechada. Vale a pena olhar com atenção para o que está do outro lado dela.

Rita Sogalho
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Durante anos, a conversa sobre comprar casa em Portugal teve sempre o mesmo final infeliz para os mais novos: faltava a entrada. Podiam ter ordenado, estabilidade e vontade, mas, sem pais ou familiares que ajudassem com a entrada, faltava-lhes o bolo inicial que nenhuma renda alguma vez os deixou juntar. Foi essa parede que a garantia pública para jovens veio derrubar, ao permitir comprar a primeira casa com pouco ou nenhum capital próprio. E os números falam por si: no primeiro trimestre de 2026, quase metade dos jovens que contraiu crédito à habitação usou esta garantia.

Há aqui uma vitória que seria injusto ignorar. Uma geração empurrada para um arrendamento caro e sem fim à vista ganhou finalmente uma porta de entrada no mercado. Para muitas famílias, a renda que pagavam transformou-se em prestação de uma casa que é sua. Quem defende a medida tem boas razões: o acesso à habitação é uma questão de equidade, e dar aos jovens as mesmas oportunidades que os seus pais tiveram é um objetivo legítimo de política pública.

Mas seria igualmente desonesto contar só metade da história. Comprar sem entrada significa financiar a totalidade do imóvel, e isso, num momento em que o Banco Central Europeu voltou a subir os juros, não é um detalhe. O próprio Banco de Portugal já assinalou que a fatia de crédito concedido a perfis de maior risco subiu de 3% para 21% num ano, e estuda travar parte deste movimento. Quem alerta para os riscos também tem razão: uma porta que se abre depressa de mais pode deixar entrar quem ainda não está preparado para o que vem a seguir.

E o que vem a seguir é, no fundo, a questão central.

Os preços das casas subiram 17,6% no último ano, a maior aceleração desde 2009. Por muito que se facilite o crédito, o problema de fundo mantém-se: há mais procura do que oferta, e financiar a procura sem aumentar a oferta tende a empurrar os preços ainda mais para cima. Há quem responda, com razão, que não se resolve o problema castigando quem quer comprar, e que travar o crédito jovem penalizaria justamente os que têm menos. Mas a verdade incómoda é que nenhuma medida de financiamento substitui aquilo que falta de raiz: casas.

Não cabe a quem ajuda a obter ou comparar créditos resolver a equação da habitação, que é política e estrutural. Cabe, isso sim, lembrar uma coisa simples a cada família que se senta à mesa de uma decisão a 40, ou 30 anos: a melhor proteção contra um mau negócio é a informação. Saber qual é a taxa de esforço, perceber o spread, comparar cenários e não financiar o máximo só porque é possível, usando ferramentas e apoios gratuítos ao consumidor.

A casa própria deixou de ser um sonho adiado para muitos jovens portugueses, mas ter um sonho realizado (e não o início de uma dívida mal medida) vai depender menos dos programas e mais das decisões de cada um. E essas, ao contrário dos preços do mercado, ainda estão inteiramente nas nossas mãos.