O jogo entre Noruega e Senegal, a contar para a segunda jornada do grupo I da fase final do Campeonato do Mundo, funciona como exemplo paradigmático para desconstruir mitos e explicar contextos. Os noruegueses golearam o Iraque no jogo inicial e, por isso, decidiram avançar com o mesmo onze na partida seguinte. Já os senegaleses, que perderam com a França a abrir, apostaram também nos 11 jogadores que tinham iniciado o encontro inicial. Porquê? Tudo tem explicações que, muitas vezes, só se compreendem num balneário. Mas qual seria agora a linha de raciocínio de Roberto Martínez depois do empate frente à RD Congo?
Falou-se muito de “revolução”. Da hipótese de Diogo Dalot ser titular, da possibilidade de haver uma nova dupla de centrais com Gonçalo Inácio ao lado de Rúben Dias, do cenário de poupança no plano físico de Nuno Mendes, de trocas nas dinâmicas do meio-campo, de alterações nas alas. Na teoria, mudava quase tudo; na prática, não mudou quase nada e as duas únicas mexidas mais não foram do que uma “evolução” em relação ao encontro inaugural no Mundial, com o regressado Rúben Dias a render de forma natural o lesionado Tomás Araújo e João Félix a entrar para uma das alas no lugar de Bernardo Silva. De resto, tudo igual. Comparando com equipas como França ou Espanha, Portugal até fez menos mexidas.
https://twitter.com/selecaoportugal/status/2069449143861281242
Há ainda um outro dado curioso olhando para as estreias e para os segundos jogos da Seleção em Mundiais. Em média, nas oito edições anteriores que contaram com a presença de Portugal, a média de alterações era de 2,5 por jogo, com um mínimo de uma e um máximo de quatro, como aconteceu em 2010 na África do Sul e no Brasil em 2014. Mais: além de mexer menos do que é habitual, em média, Martínez manteve a aposta no setor que mais trocas costuma ter: o meio-campo, com Vitinha, João Neves e Bruno Fernandes.
Quantas trocas costuma fazer Portugal do primeiro para o segundo jogo do Mundial?
Mundial de 1966, Inglaterra: 3 alterações (guarda-redes, defesa e ataque)
- Hungria, 3-1 (V): Carvalho; Alexandre Baptista, Vicente, Hilário; Coluna, Jaime Graça; José Augusto, Morais, Eusébio, Torres e António Simões
- Bulgária, 3-0 (V): José Pereira; Vicente, Germano, Hilário, Festa; Coluna, Jaime Graça; José Augusto, Eusébio, Torres e António Simões
Mundial de 1986, México: 1 alteração (guarda-redes)
- Inglaterra, 1-0 (V): Bento; Inácio, Frederico, Oliveira, Álvaro Magalhães; André, Diamantino, Carlos Manuel; Sousa, Jaime Pacheco e Fernando Gomes
- Polónia, 0-1 (D): Vítor Damas; Inácio, Frederico, Oliveira, Álvaro Magalhães; André, Diamantino, Carlos Manuel; Sousa, Jaime Pacheco e Fernando Gomes
Mundial de 2002, Coreia do Sul/Japão: 2 alterações (defesa e meio-campo)
- Estados Unidos, 2-3 (D): Vítor Baía; Beto, Jorge Costa, Fernando Couto, Rui Jorge; Petit; Figo, Rui Costa, Sérgio Conceição; João Vieira Pinto e Pauleta
- Polónia, 4-0 (V): Vítor Baía; Frechaut, Jorge Costa, Fernando Couto, Rui Jorge; Petit, Paulo Bento; Sérgio Conceição, Figo, João Vieira Pinto e Pauleta
Mundial de 2006, Alemanha: 2 alterações (meio-campo)
- Angola, 1-0 (V): Ricardo; Miguel, Ricardo Carvalho, Fernando Meira, Nuno Valente; Petit, Tiago; Figo, Cristiano Ronaldo, Simão e Pauleta
- Irão, 2-0 (V): Ricardo; Miguel, Ricardo Carvalho, Fernando Meira, Nuno Valente; Costinha, Maniche; Figo, Deco, Cristiano Ronaldo e Pauleta
Mundial de 2010, África do Sul: 4 alterações (defesa, meio-campo e ataque)
- Costa do Marfim, 0-0 (E): Eduardo; Paulo Ferreira, Bruno Alves, Ricardo Carvalho, Fábio Coentrão; Pedro Mendes, Raul Meireles, Deco; Cristiano Ronaldo, Danny e Liedson
- Coreia do Norte, 7-0 (V): Eduardo; Miguel, Bruno Alves, Ricardo Carvalho, Fábio Coentrão; Pedro Mendes, Raul Meireles, Tiago; Cristiano Ronaldo, Simão e Hugo Almeida
Mundial de 2014, Brasil: 4 alterações (guarda-redes, defesa e ataque)
- Alemanha, 0-4 (D): Rui Patrício; João Pereira, Bruno Alves, Pepe, Fábio Coentrão; Miguel Veloso, João Moutinho, Raul Meireles; Cristiano Ronaldo, Nani e Hugo Almeida
- Estados Unidos, 2-2 (E): Beto; André Almeida, Bruno Alves, Ricardo Costa, João Pereira; Miguel Veloso, João Moutinho, Raul Meireles; Cristiano Ronaldo, Nani e Hélder Postiga
Mundial de 2018, Rússia: 1 alteração (meio-campo)
- Espanha, 3-3 (E): Rui Patrício; Cédric, Pepe, José Fonte, Raphael Guerreiro; William Carvalho, João Moutinho, Bruno Fernandes; Bernardo Silva, Gonçalo Guedes e Cristiano Ronaldo
- Marrocos, 1-0 (V): Rui Patrício; Cédric, Pepe, José Fonte, Raphael Guerreiro; William Carvalho, João Moutinho, João Mário; Bernardo Silva, Gonçalo Guedes e Cristiano Ronaldo
Mundial de 2022, Qatar: 3 alterações (defesa e meio-campo)
- Gana, 3-2 (V): Diogo Costa; João Cancelo, Danilo, Rúben Dias, Raphael Guerreiro; Rúben Neves, Otávio, Bruno Fernandes; Bernardo Silva, João Félix e Cristiano Ronaldo
- Uruguai, 2-0 (V): Diogo Costa; João Cancelo, Pepe, Rúben Dias, Nuno Mendes; William Carvalho, Rúben Neves, Bruno Fernandes; Bernardo Silva, João Félix e Cristiano Ronaldo
Mundial de 2026, Estados Unidos, México e Canadá: 2 alterações (defesa e ataque)
- RD Congo, 1-1 (E): Diogo Costa; João Cancelo, Tomás Araújo, Renato Veiga, Nuno Mendes; Vitinha, João Neves, Bruno Fernandes; Bernardo Silva, Pedro Neto e Cristiano Ronaldo
- Uzbequistão: Diogo Costa; João Cancelo, Rúben Dias, Renato Veiga, Nuno Mendes; Vitinha, João Neves, Bruno Fernandes; Pedro Neto, João Félix e Cristiano Ronaldo