Se lhe perguntassem se alguma vez imaginou matar alguém, provavelmente ficaria ofendido.
Afinal, matar é coisa de assassinos, psicopatas ou monstros. Pessoas comuns não pensam nessas coisas. Ou pensam?
A resposta pode ser mais surpreendente e ao mesmo tempo mais incómoda do que gostaríamos de admitir.
Em estudos conduzidos por David Buss e colaboradores, uma larga maioria dos participantes admitiu ter imaginado matar alguém pelo menos uma vez ao longo da vida. Os alvos mais frequentes não eram desconhecidos, mas parceiros amorosos, rivais, colegas de trabalho, superiores hierárquicos ou outras pessoas próximas. A esmagadora maioria nunca teve qualquer intenção séria de concretizar essas fantasias.
E o dado mais surpreendente, porém, nem sequer é este. É que a esmagadora maioria dessas pessoas nunca matou ninguém.
Talvez porque a pergunta mais interessante não seja realmente “Porque é que algumas pessoas matam?”, mas sim e antes “Porque é que a maioria das pessoas, apesar de possuir os mesmos mecanismos psicológicos básicos, não mata?”.
Gostamos de pensar nos homicidas como seres radicalmente diferentes de nós. Essa ideia é tranquilizadora, sem dúvida, por que nos permite acreditar que existe uma fronteira nítida entre “eles” e “nós”. Porém, e na verdade, talvez essa fronteira seja mais confortável do que real.
Ao longo da evolução humana, a agressão letal podia, em determinadas circunstâncias, aumentar a sobrevivência ou o sucesso reprodutivo. Competição entre homens, vingança, defesa própria, ciúme sexual ou conflitos por recursos fizeram sempre parte do ambiente em que a nossa espécie evoluiu. Não é, por isso, surpreendente que tenhamos desenvolvido emoções capazes de gerar raiva intensa, ódio e desejos de vingança.
Mas atenção. Pensar, contudo, não é fazer.
A mente humana parece funcionar, em parte, como um simulador de cenários. Imaginamos acidentes, catástrofes e discussões. E, por vezes, também imaginamos atos extremos que podíamos cometer. A existência desses pensamentos, contudo, não significa que desejemos concretizá-los.
Talvez por tudo isto o verdadeiro milagre da civilização não seja ter eliminado a violência, mas sim ter multiplicado os mecanismos que a mantêm sob controlo.
Empatia, culpa, vínculos afetivos, preocupação com a reputação, medo das consequências, normas morais e instituições sociais funcionam como poderosos travões à agressão. Steven Pinker argumentou que vivemos numa das épocas menos violentas da história humana. Richard Wrangham sugeriu que parte da nossa história evolutiva pode ter favorecido indivíduos mais capazes de controlar a própria agressividade.
Talvez sejamos mais parecidos com os homicidas do que gostamos de admitir.
A diferença fundamental pode não estar na ausência de impulsos violentos, mas na presença de mecanismos que os mantêm sob controlo.
Porque o contrário do homicídio não é a inocência.
É a autocontenção. E talvez uma das maiores conquistas da nossa espécie não tenha sido eliminar o assassino que habita em nós.
Tenha sido aprender a viver com ele.