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(A) :: Queiroz e uma equipa que não foge aos sonhos — até contra os que já achavam que a taça ia para casa (a crónica do Inglaterra-Gana)

Queiroz e uma equipa que não foge aos sonhos — até contra os que já achavam que a taça ia para casa (a crónica do Inglaterra-Gana)

Num jogo com poucas oportunidades e onde os ingleses foram quase sempre superiores, mas apanharam sustos, Gana de Carlos Queiroz travou Inglaterra com um empate e deixou apuramento encaminhado (0-0).

Mariana Fernandes
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O Mundial 2026 está a ser o Mundial dos recordes. Cristiano Ronaldo, Lionel Messi e Guillermo Ochoa já se tornaram os únicos a participar em seis edições da prova, Messi ultrapassou Miroslav Klose e é agora o melhor marcador de sempre da prova e até Eloy Room, guarda-redes de Curaçau, é o guarda-redes com mais defesas num jogo de 90 minutos. E Carlos Queiroz, naturalmente, juntou-se ao lote.

Ao vencer na jornada inaugural do Campeonato do Mundo, conduzindo o Gana até um triunfo dramático com um golo nos descontos contra o Panamá, Carlos Queiroz tornou-se o treinador mais velho de sempre a ganhar na competição — aos 73 anos e 108 dias, ultrapassando os 72 anos e 317 dias com que Otto Rehhagel, no Mundial 2010 na África do Sul, levou a Grécia até uma vitória contra a Nigéria na fase de grupos.

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Esta terça-feira, portanto, o Gana tinha a possibilidade de carimbar desde já o apuramento para os 16 avos de final do Mundial 2026. O problema? O adversário que ficava entre uma entrada brutal de Carlos Queiroz no cargo que aceitou há dois meses e uma derradeira jornada decisiva era a Inglaterra, uma das candidatas a uma presença na final do Campeonato do Mundo que ainda há alguns dias goleou a Croácia de Luka Modric. Mas para o treinador português, como sempre, ser a Inglaterra não é suficiente.

“Estes são os jogos em que é mais fácil motivar os jogadores. Temos de sofrer. Temos de estar preparados para fazer sacrifícios e dispostos a pagar o preço, porque uma vitória neste Mundial é muito cara. Os jogadores estão preparados. Devemos jogar com disciplina e concentração, procurando a nossa forma de vencer. Faremos alterações, mas espero que o nosso principal jogador, a equipa, sejam ainda melhores. O adversário é um forte candidato a ganhar o Mundial, merece respeito, mas não vamos fugir aos nossos sonhos nem às nossas responsabilidades, queremos ganhar. O potencial do futebol africano está por cumprir”, disse o treinador português, que está a participar no quinto Mundial consecutivo depois de 2010 com Portugal e 2014, 2018 e 2022 com o Irão.

Assim, no Gillette Stadium de Boston, Carlos Queiroz já podia contar com Thomas Partey — que falhou a jornada inicial por não ter podido entrar no Canadá, devido a acusações de violação e agressão sexual em Inglaterra, mas entrou nos EUA e era titular perto de Semenyo e no apoio a Iñaki Williams e Jordan Ayew. Do outro lado, Thomas Tuchel trocava John Stones e Nico O’Reilly por Marc Guéhi e Djed Spence, mantendo Anthony Gordon, Madueke e Jude Bellingham (que se tornava o jogador mais novo de sempre a chegar às 50 internacionalizações pelos ingleses) nas costas de Harry Kane.

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Numa primeira parte que terminou sem golos, Inglaterra dominou por inteiro, mas nunca conseguiu surpreender o Gana. Os ingleses atuaram 45 minutos no meio-campo contrário, não permitiram o contra-ataque ou qualquer ação perigosa dos ganeses, mas também andaram sempre longe do golo. Declan Rice rematou por cima (14′) e também cabeceou acima da trave (37′), Harry Kane atirou contra Partey (45+4′) e Inglaterra e Gana chegaram ao intervalo ainda empatados e sem que a equipa de Thomas Tuchel tivesse acertado na baliza.

O primeiro lance de perigo do segundo tempo até pertenceu ao Gana, com Marvin Senaya a fugir a Anthony Gordon antes de ser intercetado por Djed Spence na área (50′), mas a superioridade de Inglaterra tornou-se mais efetiva à medida que o tempo foi passando. Tuchel lançou Bukayo Saka e Nico O’Reilly já depois da hora de jogo, Carlos Queiroz respondeu com o ex-Sporting Fatawu e Harry Kane fez o que ainda não tinha conseguido fazer — um remate à baliza, com Benjamin Asare a encaixar (69′).

Até ao fim, Prince Kwabena Adu ainda teve uma enorme oportunidade para abrir o marcador, aparecendo na cara de Jordan Pickford para demorar demasiado a rematar e desperdiçar (79′), Bukayo Saka motivou uma boa defesa de Asare (86′) e Nico O’Reilly acertou na trave de cabeça (86′), mas já nada mudou. Inglaterra e Gana empataram sem golos em Boston e continuam empatados no Grupo L, sendo que ambos deixaram bastante bem encaminhado o apuramento para os 16 avos do Mundial 2026.

A estrela

  • Benjamin Asare já tinha feito história pelo simples facto de estar em campo. Ao aparecer na baliza ao invés de Lawrence Ati, que tinha sido titular contra o Panamá na primeira jornada, o guarda-redes tornou-se o primeiro ganês que atua na Ghana Premier League a começar um jogo de início pela seleção do país num Campeonato do Mundo. Lá dentro, principalmente na segunda parte, travou um remate de Harry Kane e outro de Bukayo Saka, ajudando a equipa de Carlos Queiroz a manter um valioso nulo contra Inglaterra.

O joker

  • Apesar de o resultado não ter sido extraordinário para Inglaterra, Djed Spence acabou por ter um papel fulcral ao segurar o empate contra o Gana que foi uma espécie de mal menor. O lateral de 25 anos do Tottenham foi uma das surpresas no onze inicial de Thomas Tuchel, já que Nico O’Reilly tinha sido o eleito na primeira jornada contra a Croácia, e respondeu com um corte importantíssimo na grande área quando Marvin Senaya já tinha fugido a Anthony Gordon para se isolar na cara de Jordan Pickford.

A sentença

  • Com este resultado, Inglaterra e Gana têm agora os mesmos quatro pontos no topo do Grupo L e a verdade é que, mesmo com Croácia e Panamá a entrarem em campo apenas às 00h em Toronto, encaminharam e muito o apuramento para os 16 avos de final do Mundial 2026. Em resumo, os croatas só têm uma solução para seguir em frente na competição: vencer os panamianos, não perder na última jornada com os ganeses, e esperar por uma das vagas dos melhores terceiros classificados.

A mentira

  • Inglaterra não é favorita a conquistar o Campeonato do Mundo — é apenas candidata. Depois da euforia na primeira jornada, justificada em larga medida com a dificuldade do adversário e com os fantasmas da meia-final perdida precisamente para a Croácia no Mundial 2018, os ingleses desceram à terra e perceberam que estão muito longe de terem via aberta até à final de Nova Jérsia.