Há uma ironia melancólica na forma como a União Europeia se posiciona no xadrez global. Tornámo-nos líderes incontestáveis na regulação de indústrias que já não lideramos. Escrevemos os manuais de regras mais ambiciosos do planeta sobre Inteligência Artificial, mercados digitais e transição energética, enquanto assistimos, ora com perplexidade, ora com resignação, ao crescimento exponencial dos gigantes americanos e chineses. A Europa corre o risco de se transformar num vasto e luxuoso museu regulatório: perfeitamente ordenado, mas economicamente estagnado.
Este declínio confortável, amplamente documentado no diagnóstico cirúrgico do Relatório Draghi, não se deve a uma escassez de talento, de inovação ou de capital humano no continente. O verdadeiro bloqueio reside naquilo que a ciência económica convencionou chamar de “Custo da Não-Europa”. Trata-se de um imposto invisível, cobrado diariamente a empresas e cidadãos, decorrente de uma escolha política consciente: a manutenção de 27 mercados fragmentados que se recusam a abdicar de pequenas prerrogativas nacionais em nome da escala global.
A tragédia da atual arquitetura europeia é evidente. Bruxelas perdeu-se no micro-detalhe burocrático — regulando de forma obsessiva o quotidiano dos cidadãos e o funcionamento de pequenos negócios —, mas falhou rotundamente no macro-essencial: a consolidação de um Mercado Único real. Onde a escala é uma questão de sobrevivência e de competitividade, a Europa escolheu a dispersão e o espartilho regulatório.
O exemplo mais flagrante e urgente desta ineficiência reside na Defesa. Em pleno refluxo geopolítico e com a guerra às portas do continente, a Europa gasta somas astronómicas para garantir a sua segurança. O problema não é o volume de investimento, mas sim, a sua dispersão trágica. Mantemos dezenas de sistemas de armas, tanques e aeronaves diferentes que não comunicam entre si, duplicando cadeias de abastecimento e contratos públicos apenas para alimentar indústrias de bandeira locais. A ausência de um mercado de contratação centralizado e concorrencial de Defesa é um monumento ao desperdício do erário público europeu.
Cenário idêntico vive-se no setor energético. As barreiras regulatórias e a falta de interconexões eficientes isolam geograficamente as periferias e aumentam os custos de produção. Como consequência, a indústria europeia paga, em média, o triplo da eletricidade face à sua congénere norte-americana. Exigir competitividade global a empresas esmagadas por custos estruturais desta magnitude é um exercício de pura ficção política.
Contudo, é no ecossistema financeiro que a fragmentação cobra o seu preço mais alto. A Europa é fértil a gerar poupança, mas profundamente incapaz de a reter. A ausência de uma verdadeira União dos Mercados de Capitais faz com que os fundos europeus fujam para Wall Street à procura de liquidez e rentabilidade. As nossas startups tecnológicas nascem em Lisboa, Paris ou Berlim, mas quando necessitam de capital de expansão para se tornarem líderes de mercado, mudam a sua sede para os Estados Unidos. Capitalizamos o risco da incubação e oferecemos voluntariamente o retorno da escala a outras geografias.
O eurofederalismo não deve ser encarado como um fetiche de centralização burocrática, nem como o esvaziamento das identidades nacionais. Pelo contrário: o verdadeiro modelo federalista é, por definição, um garante de eficácia e de descentralização através da subsidiariedade. Significa concentrar no nível central apenas aquilo que exige uma escala continental incontornável, ou seja, a Defesa, a estabilidade do Mercado Único, as telecomunicações e os mercados de capitais, mas salvaguardando a autonomia, a liberdade económica e a saudável concorrência fiscal entre os Estados-membros em tudo o resto.
A sobrevivência económica da Europa depende da nossa capacidade de substituir o protecionismo paroquial pela coragem da escala. Sem essa reforma de fundo, continuaremos a gerir o nosso próprio anacronismo, esquecendo que o custo de não fazermos a Europa é, na verdade, o preço do nosso próprio atraso.