De Lisboa a Viena, de Valência a Helsínquia, de Hamburgo a Paris, de Londres a Bruxelas, de Poznan a Estocolmo, de Wiesbaden a Atenas, de Estrasburgo a Kiev: que magnífica maratona musical, esta à qual tive o privilégio de assistir através da cadeia televisiva europeia por excelência, a franco-germânica ARTE.
A essa exuberante afirmação de pujança, foi dada a designação de Festa da Música, ou mais especificamente, de EUROPIANO: realizou-se no longo dia do solstício de verão, em simbólica união de todos os países e nações que sempre arranjam tempo para erigir uma exortação coletiva pela paz e harmonia. Pois afinal, não é a Ode à Alegria, da nona sinfonia de Beethoven, o nosso hino comum?
Sabemos de muitas outras manifestações igualmente encantatórias, de timbre e tom popular, todas elas meritórias e provavelmente oportunas. Mas desta vez foi tempo exclusivo da dita música clássica- surgida em meados do século XIX, e que, recorda-se, ganhou uma imensa projeção nos inícios do século XX em consequência da explosão de vendas, então registadas, dos inéditos e revolucionários gramofones. Já percorreu, portanto, cerca de dois séculos da história ocidental, e vem conseguindo manter um seu público de fiéis melómanos que a preferem a todas as outras.
É verdade que a grande maioria dos que a escutam é composta por adultos, e adultos confirmados!, mas também encontra algum eco junto da geração dos Millenialls e até da Z, ou seja, naqueles que, sem surpresa, se revêm prioritariamente nos géneros musicais de génese mais recente.
Ainda se ouvem, aqui e acolá, os que depreciativamente equiparam a música clássica, no seu universo particular, ao que sucede com o latim no quadro das línguas latinas: em ambas as situações, dizem, assistir-se-ia a um notório crepúsculo, quando não à constatação de uma dramática agonia.
Ora esta generalização padece claramente de rigor: com efeito, sendo embora verdade que já ninguém usa o latim na linguagem escrita ou oral – a expressão digitus impudicus , situada entre a forma escrita e a oralidade , restringe-se por isso ao gesto propriamente dito- , a não ser ocasionalmente na Academia, já pelo seu lado , a música clássica resiste ao tempo e persiste, atrevendo-se inclusive e pontualmente, a expressar-se em vastos espaços físicos habitualmente reservados para exibição das figuras maiores do universo musical paralelo.
O que eu ouvi e senti, nesta empolgante digressão pianística ( e orquestral) pelos caminhos do nosso comum e brilhante património, reforçou a minha convicção de que existem razões válidas e mesmo imperativas, inclusive em determinados momentos de evidente instabilidade e insegurança, para permanecermos uns teimosos otimistas.
Foi efetivamente admirável esta longa jornada em que artistas escolhidos a dedo- poderia sê-lo de outro modo? – para protagonizarem esta excecional experiência, como nomeadamente a sempre jovem e galáctica Martha Argerich , nos transmitiram com brio a sua íntima certeza de que a solidariedade europeia está bem viva, e recomenda-se. Estamos todos de parabéns.
O derradeiro ponto no mapa desta bem-vinda iniciativa e peregrinação foi – tinha forçosamente de o ser! – a martirizada Kiev: um jovem pianista ucraniano, vestido com um luminoso casaco branco, tocou com denodo e emoção umas peças e partituras eslavas, em frente de uma plateia de duas ou três centenas de seus concidadãos visivelmente compenetrados da importância daqueles minutos que connosco amigavelmente partilhavam. E assim terminou, na sua companhia e intimidade, esta singular, inspiradora e bela aventura europeia.