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(A) :: Uma época de apelo à inutilidade humana 

Uma época de apelo à inutilidade humana 

A IA e o espelho meu infinito das redes sociais alimentam um sentimento de inutilidade e de letargia que se expande com as horas que ocupamos à frente delas. 

Leonor Gaião
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O ser humano está intimamente ligado ao tempo, talvez seja verdadeiramente a única coisa que conta desde que nascemos. Um dos nossos maiores desejos, ainda que nem sempre verbalizado, pensado ou admitido, é ter o domínio total do tempo. Queremos que ele nunca acabe, e mesmo quando queremos que ele acabe, queremos ser nós a decidir quando é que ele acaba. Queremos usá-lo bem, não ter de ser sujeitos à amargura desse dia final em que, ao olhar para trás, temos finalmente a confirmação de que perdemos tempo. Queremos fugir à insuficiência do tempo. Talvez por isso tantas das maiores descobertas da Humanidade sejam formas de o trapacear, numa tentativa de diminuir o tempo que gastamos com inutilidades, na esperança de que o tempo nos dê um pouco mais de tempo lá à frente no caminho.

Foi assim com o começo da agricultura; da linguagem escrita; da disseminação dessa linguagem com a imprensa; da máquina a vapor; da eletricidade; dos primeiros aviões; da inteligência artificial… Com séculos de desenvolvimento, conseguimos aumentar o nosso tempo de vida, diminuir o tempo que gastamos nas deslocações entre fronteiras e continentes e, mais do que tudo, tentámos diminuir o significado do tempo e a forma como ele nos aterroriza. Não importa já que ele passe mais rápido do que aquilo que nós nos conseguimos aperceber, porque o que alcançámos parece suficiente para dizer que ele já não nos controla. Mas poderá haver alguma coisa a ficar pelo caminho?

Foi com essa mesma promessa de nos vir poupar tempo que a inteligência artificial apareceu. Mas a falácia da inteligência artificial é maior do que as outras e está integrada num contexto tecnológico que não é equiparável ao início da Internet e aos primeiros computadores. A inteligência artificial talvez já nem se possa comparar a uma forma de tecnologia, mas a um produto de uma época de apelo à inutilidade humana. Chegar ao auge daquilo que conseguimos alcançar parece agora a sensação de ter esbarrado contra uma parede. Ainda não conseguimos libertar-nos do trabalho (aquele que nos escraviza e não aquele do qual retiramos prazer) nem atingir esse estado de superioridade sobre o qual a inteligência artificial veio aguçar ainda mais o apetite. Queremos que a IA faça o nosso trabalho, que nos liberte dos deveres, das escravidões, para que nós possamos usufruir do suposto verdadeiro sentido da vida.

Entretanto, um pouco por todo o lado, um pouco por todas as casas e empregos, a inteligência artificial vai tomando forma, ocupando o seu (nosso) tempo. Aqui e ali, vemos familiares, amigos, colegas de trabalho, diretores… “embruxados” com esta ideia genial. Entre formações nas empresas sobre “como usar” a IA, entre as perguntas infinitas que agora parece que lhe queremos fazer, entre o trabalho que “poupamos” quando lhe pedimos que produza um texto, uma música, uma imagem, uma “criação original”… Este tempo que gastamos com a IA, dizem, não é uma perda de tempo, é uma etapa necessária para que possamos usá-la a nosso favor, para que possamos extrair dela o “melhor tempo possível”, para que o nosso tempo, nesse futuro que se quer próximo, seja ganho para fazer as outras coisas que tanto queremos ter tempo para fazer. Essas coisas que prometemos a nós mesmos que vamos fazer no próximo fim de semana, nas próximas férias, na reforma…

O ridículo do nosso tempo é que esse tempo que andamos a tentar ganhar à IA vai-se acabando um pouco mais durante todos esses momentos que perdemos a aprender a utilizá-la, com a promessa de que, um dia, esse tempo que perdemos seja “o suficiente” para nos libertar para o resto da vida.

Seria uma tragédia olhar para trás e perceber que nunca houve tempo, nunca poderia ter havido tempo para mais nada. Entre a espreitadela nas redes sociais ao acordar; o workshop sobre IA a meio da manhã; o marketing nas redes ao meio-dia (porque agora tudo tem de ser vendido); a tarde inteira a tentar perceber o algoritmo e as fórmulas dos influencers (porque só existe aquilo que está na “rede” e a rede tem funcionários o ano inteiro, 24 horas por dia, que deixam que as próprias casas sejam património mundial de reality show); voltar para casa a ouvir outro podcast; a espreitadela nas redes antes de jantar, o jantar engolido enquanto se ouvem os tik-toks e os reels com mais visualizações da semana e o scroll infinito no sofá, porque de alguma forma tudo se passou na “rede”. E no resto do dia? Não se passou nada.

O ser humano está intimamente ligado ao tempo. Ao tempo em que vive, ao tempo que perde, ao tempo que gasta. Não é possível demitirmo-nos da obrigação de gastar o tempo, ele gasta-se sempre, mas quase sempre podemos ter uma palavra em como decidimos gastá-lo. Ainda assim, raramente pensamos o tempo que gastamos, mas que ele se gasta isso é inegável.

A IA e o espelho meu infinito das redes sociais alimentam um sentimento de inutilidade e de letargia que se expande com os dias e com as horas que ocupamos à frente delas, como que numa confirmação do nosso estado de prisioneiros, conformados com a ideia de que a vida tem de ser vendida e de que as nossas melhores perguntas foram todas feitas para serem despejadas à IA. É contra esse instinto de sobrevivência que ela luta todos os dias. E cada resposta que nós aceitamos vinda desse lado parece uma machadada no nosso instinto humano. Preferimos perguntar-lhe o que fazer ao invés de nos perguntarmos “o que é que eu faria?”. Parece poético, mas, no final do dia, já só fazemos perguntas a quem verdadeiramente não nos responde.