(c) 2023 am|dev

(A) :: "Patrocínio": uma lição riquíssima de "reality TV"

"Patrocínio": uma lição riquíssima de "reality TV"

A narrativa, os conflitos, as heroínas, as vilãs, as relações, os tabus e uma produção com dinheiro para comprar tempo: os seis episódios na Prime Video são obrigatórios, escreve Susana Verde.

Susana Verde
text

Será que podemos falar em Keeping Up with the Patrocínio? Como dizem os jovens, não estava no meu bingo de 2026 que a Prime Video ficasse trending com uma série estrelada pelas irmãs mais famosas do Restelo. Já não ficava tão surpreendida com betos desde que vi o Chicão na televisão nacional a defender o direito à paz, o pão, habitação, saúde, educação. E isto tendo em conta que as primeiras abordagens da Prime a este tipo de conteúdo, em Portugal, foram meio que um flop, para não dizer um flop completo.

Inicialmente, com Maria, que documenta a vida e obra de Maria Cerqueira Gomes (e fica aqui a sentida vénia a quem fez a edição de conteúdo e conseguiu espremer 64 minutos a partir de uma mão cheinha de nada). A segunda tentativa deu-se com Carol Patrocínio, sobre a mais mediática das irmãs que agora protagonizam a nova produção, onde atingimos uma estonteante hora e catorze de Carolina a ir a sítios. Uma coisa tem de ser dita: a protagonista é honesta com o espectador, ou honestíssima como se diz em patrocinês. Nos primeiros minutos do documentário anuncia que a sua vida é “um conjunto de pequenas situações corriqueiras” e que não faz “nada de especial”. E é isso que acontece nesta longa-metragem documental sobre a apresentadora de What’s Up (não garanto que tenha escrito isto sem me rir).

Então, o que é que mudou entre Carol Patrocínio, a primeira bola para o pinhal, e Patrocínio, uma série que pode ser considerada um poker, usando futebolês (porque estamos na época dele)? É uma equação de quantidade igual a qualidade? Isto à meia dúzia de manas pode não ser mais barato, mas é melhor negócio? Não só, mas também. Facto é que no documentário inicial sobre Carolina, a coisa só começa a ganhar vida quando o clã se junta à mesa e dá-se o já histórico conflito sobre a ocupação da casa do Martinhal no verão. Achavam que elas tinham uma vida fácil? Nem pensar. Como diz Nuno Santana, dono do Praia (adoro um restaurante com petit nom) e marido da primogénita Mariana: “Ninguém partilha o esforço e a caminhada. As pessoas partilham a taça”. Não sei bem de que taça ele está a falar, mas deve conter um vinho estupendo e fresquíssimo.

[o trailer de “Patrocínio”:]

https://www.youtube.com/watch?v=yGBeBmukh3M

Patrocínio divide os holofotes entre as quatro irmãs: Mariana, Carolina, Inês e Rita. Num segundo plano, temos as irmãs Vicky e Monika, fruto do segundo casamento da mãe, Teresa Vieira de Almeida (que merecia ser canonizada), com Mark Jacobi (alemão que veio trabalhar para a Expo 98, nunca mais voltou e tem um sotaque adorável). As duas mais novas não contam bem para o campeonato e parece-me que estão lindamente com isso, porque estão ocupadas a viver a vida delas. Um disparate, eu sei. A certa altura, Carolina diz que as pessoas acham que elas são todas iguais e não é verdade. E de facto, não é. O que Carolina não percebe é que, deste nosso ponto de vista, não as conseguimos distinguir a média distância. É um fenómeno relativamente comum. Não é preconceito, são os nossos olhos que não estão preparados para distinguir duas mulheres com um biquini da Canté e uma almofada desproporcional no areal dos Salgados.

Ironias de pobre à parte, fica de facto claro que as irmãs são seres individuais com características próprias, assim como os seus plus one, desde que vistas mais de perto. E é isso que esta série faz em comparação com o produto seminal. Sem exposição extra, esta série não fazia sentido. À produtora que conseguiu convencer esta família desta condição, os meus parabéns.

Carolina é a estrela da companhia, a diplomata e a relativizadora. Talvez por estar mais exposta a espécimes não-betos, parece ter uma melhor noção do que se passa fora da bolha. A Carolina é casada com um urso, perdão, com o Gonçalo Uva. O “Gon” já foi um lobo, quando tem a mulher no colo é um carneiro e acha que pode rugir na cara da sogra como um leão. Inês é a intelectual da família, ou pelo menos está convencida disso, combate o narcotráfico e é “fanática pelo Churchill”, pelo que tem um busto dele na sala e em adolescente tinha um poster gigante do ex-primeiro ministro britânico com cara de pavlova na porta do quarto. Nem vou acrescentar nada, porque se melhorar, estraga. Inês namora com um professor de padel chamado João e que é o típico “entra mudo, sai calado”. Não vou acrescentar nada, porque não há nada para acrescentar.

Se Inês pode ser a mais irritante, Rita é a mais conflituosa, passa metade da série a chamar estúpidas às irmãs, mas não é para levar à séria, naturalmente. Há sempre ali um cheirinho a desdém, mas no fundo parece-me uma necessidade de aprovação, por ser a mais nova das quatro. É casada com Tiago Teotónio Pereira, que é um porreiro e, como ator que é, dá-me a sensação que, por vezes, olha em redor e sente que está a viver numa sitcom. Mesmo quando não há câmaras à volta. Não só não o julgo por isso, como acho que deve ser divertidíssimo ter esse POV e um ótimo motivo extra para manter um casamento.

Deixei o melhor para o fim: Mariana, a primogénita. Sou team Mariana, sou. Achei a personagem com mais camadas e mais reality TV material. A Mariana é meio desbocada, parece ter um ligeiro complexo de inferioridade, mas também dá a sensação que está a chegar a uma idade em que se está meio que borrifando. E é o melhor que ela faz. Diz que não tem grande pachorra para crianças, apesar de trabalhar num colégio e ter três filhos: “Esta é a sala da mãe e do tio. Só vêm em caso de extrema necessidade. Tipo, estarem a morrer”. Quando uma mana julga o vestido dela com um “eu tenho medo que te ponham umas notinhas no soutien”, a boa da Mariana responde: ”Se puserem, fico com elas”. E vou ter assinalar, como amante do vernáculo que sou, o momento de em que uma Patrocínio mandou outra para o car… Para esse sítio. Até me levantei do sofá e bati palmas. Melhor só o momento em que no meio de uma discussão, Mariana quebra a quarta parede e diz para o operador de câmara “cortem um bocadinho, se faz favor”. A Kim ficaria orgulhosa.

Mas há mais. Mariana é casada em segundas núpcias com o Sweet Santana (ouvintes do Extremamente Desagradável entenderão), o empresário Nuno Santana, que é toda uma personagem. Ele borrifa perfume da Comporta (deve cheirar a privilégio e especulação imobiliária) para cima da mulher, debaixo do olhar atónito da pedicure. Ele transforma uns ovos mexidos com queijo para o pequeno-almoço num acontecimento, até porque de certeza que foi a primeira vez que aconteceu, como dá para perceber pelo espanto da prole. Já muitas vozes se levantam a pedir um spin off do Santana e eu estou super a bordo. Seria uma espécie de Na Casa do Toy, só que a casa de Nuno é “inacreditável e giríssima” e ele não conduz com os joelhos, porque usa sarja em vez de bombazina.

As pessoas gostam de ver gente rica que tem coisas que elas não podem ter (um closet que precisa de um mapa),  que vão a sítios que elas não conseguem ir (seja andar de avião ou desfilar na passadeira vermelha dos Globos), que têm vidas com que elas só podem sonhar (quando a casa fica pequena, pede-se à mãe para expulsar os inquilinos). Mas parece-me que gostam ainda mais de perceber que as manas do Restelo se insultam, têm esqueletos no armário, às vezes são umas cabras umas para as outras, disputam a atenção da mãe e o serviço de babysitter.

Tenho ainda de mencionar o pai Patrocínio, um tio agro-beto bem disposto, que faz teatro musical amador, o que adiciona logo pontos no meu marcador: “Não me importo de andar quase nu. É teatro. Já basta eu ser certinho na vida”. Claramente, adora as filhas e chora e chora e chora. Sim, os betos também choram, espantem-se.

O elenco é divertido, já se percebeu. Mas já lá estava na primeira ronda. As pessoas são as mesmas, as vidas são as mesmas, a irrelevância desta família para o bem esta da humanidade mantém-se. O que é que mudou? Tudo. A Komodo Studio, produtora responsável pelo êxito — por que sim, foi um êxito — de Soy Georgina, olhou para aquelas a quem chamam Kardashian portuguesas e replicou a fórmula das ditas, mas considerou as especificidades das visadas e da audiência portuguesa. As pessoas gostam de ver gente rica que tem coisas que elas não podem ter (um closet que precisa de um mapa), que vão a sítios que elas não conseguem ir (seja andar de avião ou desfilar na passadeira vermelha dos Globos), que têm vidas com que elas só podem sonhar (quando a casa fica pequena, pede-se à mãe para expulsar os inquilinos). Mas parece-me que gostam ainda mais de perceber que as manas do Restelo se insultam, têm esqueletos no armário, às vezes são umas cabras umas para as outras, disputam a atenção da mãe e o serviço de babysitter.

A série é filmada e editada à semelhança da reality TV de sucesso. Em vez de termos depoimentos longos e pequenos segmentos do quotidiano, testemunhamos os eventos e vemos os protagonistas a fazerem uma espécie de react ao mesmo, nos chamados confessional. E depois há a questão do tempo. Porque dinheiro em audiovisual serve para comprar tempo que resulta, se tudo correr bem, num produto final melhor. Pelas minhas contas, os eventos que são retratados na série ocorrem ao longo de meio ano. Seis meses que se traduzem em seis episódios de aproximadamente 40 minutos. Este “pequeno” pormenor permite ter mais conteúdo à disposição, logo mais escolha, além de que imprime a sensação de que estamos a acompanhar a vida desta família, incluindo o crescimento dela, porque — SPOILER ALERT — há uma que engravida no final. Isto é reality TV. Não acredito que esta seja um concepção por briefing de produção. Mas que a chefe pagou uma rodada à equipa quando soube da notícia, não tenho dúvidas.

É claro que as Kardashians se vão casar a Itália e as manas casaram-se no Redondo, mas a equação está lá. Apresentam-nas como personagens queridas, bem dispostas, vendem-nos a família feliz (as imagens de arquivo ajudam bastante) e a seguir atiram-nos o conflito. Porque sem conflito não há história, sem vilão não há herói. Em cada episódio há um pequeno drama (a #casanorestelogate, a avó que teima em ter uma vida, a Inês que se acha o Nobel numa família de repetentes), aborda-se um tema que é um relativo tabu (a morte do namorado de Carol, Francisco Adam, os divórcios da família, a fraude financeira de Manuel Santana Lopes) e dá-se a sensação ao espectador que elas são mesmo “gente como a gente”, com problemas e angústias e maçadas. E que erram e têm falhas de carácter, mas tudo ali no limite do razoável, porque não se pode perder a simpatia do público.

E é por isso depois de vermos uma discussão, porque a Inês disse que as outras eram umas burras, invejosas e tinham um trabalho de trampa, temos uma cena de escalada em grupo, em que todas gozam umas com outras de forma saudável e fraterna. É óbvio que elas não têm diariamente aulas de cerâmica, workshops de pastéis de nata, banhos de gelo, consultas de tarot (by the way, pior taróloga do mundo, o que deu ótimo conteúdo), jantares com mesas decoradas à Palácio de Buckingham e festas que implicam stylist, maquilhagem, cabelos e um seio que pode ou não ficar exposto.

Se quiserem ver “um conjunto de pequenas situações corriqueiras”, veem o documentário da Carol, que era um belo de um secador. A minha escolha é óbvia. Há um almoço de família em que alguém faz um brinde e diz: “Que possamos estar juntos mais vezes!”. Segue-se uma resposta generalizada: “Mais? Ainda mais?”. Eu cá não me importava. E cheira-me que a Prime me vai fazer a vontade.