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(A) :: Será que ir à praia faz mal?

Será que ir à praia faz mal?

Queremos sempre ganhar tudo, mas sempre com pouco trabalho. Achamos que por termos as capacidades já temos direito ao resultado.

Bruno Bobone
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A seleção está nos Estados Unidos para ganhar o Campeonato Mundial de Futebol, pelo menos foi o que nos disseram à partida e, claro, nós todos acreditámos e cá estamos à espera.

As primeiras notícias que recebemos da nossa equipa, das terras longínquas em que se desenrola o evento foram as imagens de uma ida à praia dos nossos jogadores.

Porque o tempo está muito quente, disseram e porque isso não interfere com a extraordinária capacidade dos nossos reconhecidos atletas, que tiveram a maior recepção de todas as seleções – segundo a imprensa cá da terra – lá estiveram a aproveitar o mar de Palm Beach, uma vez que ir à Florida e não poder dar um mergulho seria uma grande perda de oportunidade.

No dia seguinte, pois a seleção apenas chegou em cima da data do jogo, por não precisar propriamente de adaptação, lá assistimos ao primeiro jogo da caminhada para a vitória.

E até não começou mal, com um golo de João Neves a dar a impressão de que estava tudo bem organizado.

O pior foi depois assistir a uma equipa plantada no campo, sem qualquer força anímica, sem criatividade, sem vontade e sem paixão.

Será que ir à praia faz mal?

Não faço ideia nem ninguém pode garantir que faça bem ou mal, aquilo que eu sei e que todos provavelmente sabemos é que quando temos um trabalho importante pela frente, aquilo que não devemos fazer é deixar que a distração nos retire o foco da nossa atenção, que a preparação mental é essencial para a concentração e que não devemos relaxar antes de começar a produzir.

Isto associado a um ambiente de excesso de confiança, normalmente dá um resultado inverso àquele que é o pretendido.

Eu não sei se a seleção jogou mal porque foi à praia, o que eu sei é que os portugueses acreditam que teria jogado muito melhor se não tivesse ido.

E também não sei se a seleção jogou mal porque não estava adaptado ao clima e ao ambiente que se vive nos Estados Unidos, mas sei que se tivesse estado lá mais alguns dias a probabilidade de isso não ter acontecido era muito maior.

O que mais me preocupa é a continuação do erro na gestão deste campeonato, já que a reação que ouvimos aos jogadores sobre as críticas, na minha perspectiva justíssimas, em que disseram imediatamente que estas vinham de quem não queria que eles ganhassem este campeonato.

Isto sim que me parece ser preocupante.

Meter a cabeça na areia nunca foi solução de saída para nenhuma situação, nem sequer para a avestruz, que tão bem o faz.

Então haverá em Portugal alguém que esteja interessado em que a nossa seleção não ganhe este campeonato? Haverá algum português que tire vantagem de uma derrota neste mundial?

Mas aquilo que me preocupa mesmo é verificar que este comportamento encaixa perfeitamente na nossa cultura nacional.

Queremos sempre ganhar tudo, mas sempre com pouco trabalho.

Achamos que por termos as capacidades já temos direito ao resultado.

Acreditamos que temos de viver hoje daquilo que achamos que temos direito a ganhar amanhã, sem preparar esse resultado com esforço e consciência.

E por isso continuamos a adiar este país, recusando tudo o que precisávamos para conseguir chegar mais longe, apenas porque temos medo de ter que trabalhar, como foi o chumbo do pacote laboral.

Ainda assim e mesmo que não mudemos esta forma de viver eu espero, e acho que todos os portugueses esperam que a nossa seleção volte com o troféu que nos prometeu.