Há quem faça carreira política. Pedro Santana Lopes fez uma carreira em círculo, provavelmente a única modalidade olímpica em que se pode partir, regressar e ainda reclamar que se descobriu um novo caminho.
Depois de décadas no PSD, de câmaras municipais, ministérios, congressos, vitórias, derrotas, ressurgimentos e reaparecimentos mais frequentes do que personagens dadas como mortas nas telenovelas da TVI, o antigo primeiro-ministro parece ter chegado a uma conclusão profundamente revolucionária: afinal, o melhor sítio para estar era exactamente aquele de onde saiu.
A sua trajectória política faz lembrar aqueles turistas que passam anos a percorrer o mundo à procura do sentido da vida para acabarem sentados no café da esquina onde começaram, a dizer que não há como a nossa terra. Com a diferença de que, pelo caminho, fundam um partido, convencem umas centenas de pessoas a acompanhá-los e deixam pelo chão alguns manifestos políticos pelo caminho.
Santana Lopes foi uma das figuras mais mediáticas do PSD das últimas décadas. Teve momentos de enorme popularidade, protagonizou guerras internas dignas de uma série da Netflix e chegou ao cargo máximo da governação portuguesa.
Em 2004, sucedeu a Durão Barroso depois de este trocar São Bento por Bruxelas.
O problema é que o seu Governo acabou por ficar na memória colectiva não tanto pelas reformas que realizou, mas pela extraordinária capacidade de transformar cada semana numa nova temporada de suspense político. Havia remodelações, demissões, conflitos internos e declarações surpreendentes com uma regularidade que faria corar qualquer argumentista de novela. Os jornalistas políticos da época não precisavam de agenda; bastava-lhes esperar pela manhã seguinte.
A certa altura, o Presidente da República, Jorge Sampaio, decidiu que o país já tinha assistido a episódios suficientes daquela série e dissolveu a Assembleia da República.
Foi uma decisão rara, pesada e historicamente significativa.
Não é todos os dias que um primeiro-ministro consegue ver o seu Governo interrompido por iniciativa presidencial ao fim de poucos meses.
É uma espécie de cancelamento político antes de a palavra “cancelamento” sequer existir.
Ainda assim, há que reconhecer um mérito extraordinário a Pedro Santana Lopes: a sua capacidade de sobrevivência política.
Enquanto outros desaparecem após uma derrota, ele parece encará-la como uma breve pausa para café.
Poucos políticos portugueses conseguiram tantas vidas políticas sem serem um gato.
Quando o PSD deixou de ser suficientemente confortável para acomodar as suas ambições, decidiu criar um partido novo: o “Aliança”.
O projecto foi apresentado como uma alternativa moderna, reformista e inovadora. Uma espécie de versão política do “agora é que vai ser”.
Houve quem acreditasse. Houve quem abandonasse posições seguras. Houve quem investisse tempo, energia e esperança no projecto. Houve até quem imaginasse que se estava perante o nascimento de uma nova força política relevante.
A realidade revelou-se menos épica.
O “Aliança” teve um desempenho eleitoral tão discreto que, em certos momentos, parecia disputar votos apenas consigo própria. Pouco tempo depois, o fundador começou a afastar-se do projecto que tinha apresentado como essencial para o futuro do país.
Os militantes descobriram então uma das leis mais implacáveis da política portuguesa: quando um partido nasce sobretudo para satisfazer o ego do fundador, corre sempre o risco de ficar sem combustível assim que o fundador encontra outra distração.
E chegamos ao momento actual.
Depois de sair do PSD, criticar o PSD, fundar um partido para concorrer contra o PSD, pedir aos portugueses que acreditassem numa alternativa ao PSD e abandonar essa alternativa, Pedro Santana Lopes regressa agora ao PSD.
Sem grandes explicações. Sem grandes dramas. Sem pedidos de desculpa. Com a serenidade de quem regressa ao restaurante onde jurou nunca mais pôr os pés, apenas para pedir a mesa do costume.
Há qualquer coisa de profundamente portuguesa nesta história. Não porque os políticos mudem de opinião — isso acontece em todo o mundo — mas porque o façam com a tranquilidade de quem muda de fila no supermercado. Como se os capítulos anteriores fossem apenas um pequeno mal-entendido administrativo.
Talvez seja injusto exigir coerência a quem sempre cultivou a imprevisibilidade como principal marca política. Talvez o erro tenha sido nosso por interpretar a fundação de um novo partido como um momento histórico, quando afinal era apenas uma rotunda política particularmente extensa.
No final, Pedro Santana Lopes regressa ao PSD da mesma forma que os heróis das telenovelas regressam ao último episódio: depois de muitos desencontros, promessas de mudança, revelações dramáticas e caminhos alternativos, acabam exactamente onde começaram.
A diferença é que nas telenovelas costuma existir uma lição moral.
Na política portuguesa, muitas vezes há apenas uma nova temporada, um novo elenco e o mesmo protagonista a entrar novamente em cena pela porta da frente.
A rotunda política de Santana Lopes
Há qualquer coisa de profundamente portuguesa nesta história. Não porque os políticos mudem de opinião, mas porque o façam com a tranquilidade de quem muda de fila no supermercado.