Mario, Jhonier e Braian queriam trabalho. Encontraram anúncios no Facebook e TikTok. Acabaram capturados pela Ucrânia, sem salário e num limbo jurídico sem saída. Uma investigação do jornal El Español chegou à conclusão que o exército russo está a compensar as perdas no campo de batalha na Ucrânia com uma rede de falsas propostas de trabalho através das redes sociais.
Segundo o jornal. a Rússia começou a recrutar soldados “de maneira intensiva em países da América Latina, África e Ásia Central” como forma de colmatar as baixas russas na Ucrânia. De acordo com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, Moscovo sofreu cerca de 35 mil baixas por mês, em 2025.
Mario, Jhonier e Braian são cidadãos colombianos que combateram na Rússia, após terem sido enganados por falsas propostas de trabalho. Foram feitos prisioneiros de guerra pela Ucrânia e fazem parte dos mais de 18 mil estrangeiros de 128 nacionalidades identificados pela Ucrânia a combater nas fileiras russas.
O “homem de Bogotá”
Os combatentes estrangeiros recrutados desta forma chegam a Moscovo através de uma rede internacional com escala no Brasil e Qatar, explica o jornal.
Mario tem 40 anos e duas filhas e estava desempregado desde que fechou a sua padaria em Montería, na Colômbia, por falta de vendas. À procura de trabalho em grupos do Facebook, acabou por encontrar uma oferta de emprego como motorista em Moscovo, onde receberia um salário mensal de 11 milhões de pesos (2.576,92 euros). Inicialmente, saiu do grupo, por não querer ficar longe da família, mas uma mulher acabou por escrever-lhe em privado, “insistindo no quão boa era a oferta”, refere o El Español.
“Disse-me que estavam a contratar homens em todo o país e que tinha uma pessoa que nos estava a reunir em Bogotá”, explica Mario, que acabou por falar com o recrutador da capital colombiana “sem saber que era um recrutador do exército russo que cobrava dinheiro por cada homem que enviava a uma morte quase certa“. No entanto, acabou por recuar por não querer ficar longe da família, não só da esposa e das filhas, mas também dos pais, que precisava de ajudar, e dos irmãos.
“O homem de Bogotá não parava de me ligar, dizendo para aproveitar porque era uma oportunidade única”, explicou Mario que, segundo o jornal, partilhou o testemunho “cabisbaixo”. Acabou por aceitar.
Jhonier, de Santiago de Cali, também na Colômbia, era criador de conteúdos, mas acabou com a conta suspensa, por razões não referidas ao El Español, pelo que as dificuldades económicas também o levaram ao Facebook. No seu caso, era uma alegada proposta de emprego para a Polónia.
“Respondi rapidamente e em menos de 30 minutos contactaram-me por mensagem”, a explicar que teria de ir para o terminal de autocarros de Cali, “onde o esperaria um bilhete em seu nome para ir para Bogotá“. Chegado à capital colombiana, foi recebido por um recrutador, que o levou para um hotel, e aí recebeu roupa, comida e cerveja. “Disseram-me que tinha que esperar porque estava a reunir mais pessoas”, refere.
O terceiro homem, Braian, natural de Buenaventura del Valle, trabalhava como auxiliar de motorista de autocarros. Foi também através de uma falsa proposta de trabalho que chegou à Rússia, juntamente com o irmão, Yeisi.
O “jovem russo vestido à paisana”
Quando Mario decidiu aceitar o alegado emprego, seguiu para Bogotá, com a viagem paga. Tal como Jhonier, ficou alojado num hotel com outros colombianos.
“Passados uns dias, começaram a tirar-nos em grupos de dez em dez e meteram-nos num avião rumo ao Brasil. Ali passámos vários dias e depois embarcaram-nos para o Qatar”, explica. Depois, rumou a Moscovo, onde foi recebido por um “rapaz russo jovem, vestido com uma camisola com capuz e calças de desporto, que falava através do tradutor da Google”. “Não havia nada que indicasse que era militar“, sublinha Mario.
Do mesmo modo, Jhosier chegou a Bogotá e passados dois dias, fez escala no Brasil, onde uma mulher brasileira recebeu os futuros combatentes. “Levou-nos para outro hotel e mostrou-nos São Paulo durante um par de dias antes de continuarmos a viagem para o Qatar”, recorda. No pequeno país, tinha bilhetes com o seu nome “à espera num balcão para voar para Moscovo”, onde chegou quatro dias depois.
Tal como Mario, foi recebido por um “jovem russo vestido à paisana”, que levou os futuros combatentes para um apartamento “bastante degradado” longe da capital russa, onde esperavam até à assinatura do contrato. “[Era] como se a guerra tivesse passado por ali, mas estava limpo e traziam-nos comida”, recorda. Partilhou o apartamento com compatriotas colombianos, mas também com venezuelanos e equatorianos.
“Permanecemos lá uma semana, os rapazes russos traziam-nos as compras e nós cozinhávamos a nossa própria comida”, também recorda Mario, que refere que lhes era dito que iram trabalhar numa empresa de produtos alimentares e que eram feitos exames médicos porque, alegadamente, “a empresa tinha solicitado”.
O “tradutor”
Passada uma semana, os futuros combatentes assinaram um contrato, totalmente escrito em russo, língua que não dominavam. No caso de Jhosier, tentou tirar uma fotografia do papel para poder traduzir, mas foi impedido.
“Havia um tradutor ali, que apenas nos lia a parte onde dizia que a duração do contrato era de um ano. E sempre referindo-se a ‘posto de trabalho’ sem dizer que era no Exército“. Foi obrigado a assinar, sob ameaça.
De seguida, eram escoltados até um armazém com fardas militares. Mario, percebendo a situação, recusou, mas os recrutas responderam com ameaças: “O senhor veio para trabalhar e este é o emprego que temos para si; se não aceitar, prendemo-lo e damo-lo como desaparecido”, recorda o colombiano.
A partir daí, foi levado para uma base militar, a cinco horas do apartamento, onde os futuros combates recebiam formação militar, distribuída por várias bases. “Ensinavam-nos a manusear uma AK-46 e as granadas de mão durante uma semana; e depois repetiam noutra base mais afastada durante mais outra semana”, explica Mario.
Findo o período de treino militar, os combatentes eram levados diretamente para as trincheiras.
O “russo que dava ordens” e o “campo de minas”
Chegados à frente de batalha, os militares russos limitavam-se a dar ordens. “Os russos nem sequer queriam falar comigo, nem através do tradutor do telemóvel nem de outra forma. Só me davam ‘carolos’ e apontavam com o dedo para onde devíamos ir”, refere Braian, acrescentando que não eram alimentados.
“Éramos uns 20 recrutas latino-americanos, e dividiram-nos em diferentes posições. A mim, puseram-me com três velhotes russos, e o nosso trabalho era levar água e comida a outras posições russas mais avançadas”, lembra o colombiano, que chegou a Moscovo com o irmão, de quem se separou assim que chegou ao campo de batalha. Nunca mais se viram.
As ordens dados também implicavam passar por terrenos minados, uma situação que o El Español apelida de “traumático” para Jhosier, com base no seu relato:
Mandaram-nos cruzar um campo de minas que estava cheio de cadáveres. Um russo dava as ordens, e íamos dois colombianos com ele. A meio do caminho, o meu companheiro pisou uma mina. Ficou com uma perna e um braço desfeitos, não podia andar, e o russo obrigou-me a deixá-lo ali abandonado. Continuo a lembrar-me dele todas as noites”, sublinha Jhosier.
Destino diferente teve Mario, que pisou numa mina, e foi abandonado pelos seus companheiros, por ordens de um soldado russo. “Arrastei-me durante horas e consegui chegar a uma trincheira russa onde colocaram-me um torniquete e me deram medicamentos, mas ao amanhecer disseram-me que tinha de continuar a caminhar sozinho até à posição seguinte”, explica. Foi expulso da trincheira com um mapa improvisado, desenhado num papel.
Para a posição seguinte, caminhou febril e sem água. Acabou por se perder, mas encontrou um grupo de soldados aos quais pediu ajuda. No entanto, eram soldados ucranianos. “Pensei que me iam matar, mas eles só me tiraram o rádio e a faca que tinha no cinturão, e depois deram-me água e comida, e curaram-me a perna”.
As “vítimas de tráfico humano convertidas em mercadoria de morte”
Mario acabaria por ser feito prisioneiro de guerra, assim como os restantes dois colombianos e muitos outros. No entanto, foram capturados sem nunca terem recebido o dinheiro prometido pelo exército russo, o que impossibilitou o envio da tão aguardada ajuda financeira às famílias.
“Quando completámos o primeiro mês, disseram-nos que nos iam tirar das trincheiras para irmos receber, aparentemente era preciso ir pessoalmente. Mas nunca nos levaram”, explica Mario. “Se os ucranianos me deixarem voltar para casa, prometo fazer um vídeo a explicar como o exército russo nos enganou para que ninguém mais caia neste golpe”, assegura Jhosier.
Os três homens foram entrevistados pelo El Español numa casa abandonada e esperam voltar à Colômbia. Até lá, espera-se que sejam transferidos para um dos cinco centros penitenciários ucranianos que albergam prisioneiros de guerra. Com eles, estão outras centenas de prisioneiros de vários países: venezuelanos, cubanos, magrebinos, mas também cazaques e coreanos, “uma panóplia de nacionalidades recrutadas pela Rússia, alguns sabendo que iam combater, muitos outros enganados com ofertas de trabalho falsas”, refere o jornal.
A situação em que se encontram — estrangeiros a combater pela Rússia — deixam-nos num limbo jurídico complexo, pois Moscovo não aceita colombianos nas listas de troca de prisioneiros. Já a Ucrânia garante o cumprimento da Convenção de Genebra em relação ao tratamento de prisioneiros de guerra, mas “não tem a quem os devolver. A Colômbia não reconhece este tipo de combatentes como legítimos, mas sim como “vítimas de tráfico humano convertidas em mercadoria de morte”, segundo o Presidente do país, Gustavo Petro.
Ainda não conseguem regressar a Colômbia, mas os seus compatriotas capturados pela Rússia a combater pela Ucrânia enfrentam situações piores. “Além das torturas sistemáticas que inflige aos combateram que capturam, Moscovo considera os estrangeiros como ‘mercenários’“, explica o jornal. Tal constitui um crime que é punível como uma pena de até 15 anos de prisão, e que lhes nega as proteções previstas para os prisioneiros de guerra no Direito Internacional.